Como a maioria já sabe cresci em igreja
protestante. Houve uma época, especialmente nas rebeldias da adolescência que
acometem todo mundo, ainda mais os filhos de pastor (por motivos óbvios), que
pensei muito a respeito do quanto eu poderia ter perdido na vida, em
experiências e conhecimento, por ter tido uma educação confessional. Hoje em
dia, dentro de escolas públicas, tidas como laicas e profundamente envolvidas
em doutrinação política, vejo que comparado ao que se recebe dentro da
religião, a educação ‘politizada’ é o deserto real e intransponível.
Desde o início da minha experiência em
escolas, sejam elas particulares ou públicas, tenho me surpreendido e até me
assustado com a falta de criatividade e com a mesmice do dia-a-dia. Somado a
esse aparente medo do novo e a uma necessidade de controle neurótica que em
nada contribui para a aprendizagem, temos um verdadeiro vazio cultural que
prevalece, tanto nas discussões e planejamentos, quanto na prática pedagógica
em si. Na escola particular era quase um crime deixar de dar a aula tradicional
para exibir um filme, mesmo que esse tivesse tudo a ver com o seu conteúdo
programático. Lembro-me de receber ‘olhares de Medusa’ de outros professores e
ser cobrada a cada minuto a mais que se estendia a exibição de filmes como
‘Sociedade dos Poetas Mortos’ para alunos de Literatura do Ensino Médio.
Importante mesmo era ler e resolver a apostila (limitada e cheia de erros)...
Na escola pública, porém, a causa de
tal dilema não é a preocupação com o cumprimento de prazos programáticos ou a
eventual queixa de algum pai mantenedor que acredita que a educação é
proporcional ao número de páginas de cadernos preenchidas, preocupações
tacanhas, mas que revelam aspectos positivos como um real interesse na educação
do filho, mas é uma neurose coletiva que tem dominado a alma de muitos
profissionais da educação e, inclusive, comprometido inúmeros aspectos de suas
vidas pessoais, quando elas ainda existem.
Faz anos que venho ouvindo falar sobre
uma doutrinação marxista maciça que tomou conta de todo sistema educacional
brasileiro. Tomei maior contato com essas coisas via rede sociais ou quando
cruzava por aí em congressos com coleguinhas de universidades públicas,
geralmente da USP, que apresentavam trabalhos repetitivos, com interpretações
que parecem plágios, exatamente porque sempre baseadas na mesma base teórica,
que essas pessoas tendem a querer enfiar em tudo. Depois da centésima leitura
pelo viés da crítica ao ‘patriarcado branco heterossexual esbelto testemunha de
Jeová dos santos dos últimos dias fascista’ você começa a ficar meio entediado,
(minha última experiência com esse pessoal foi numa conversa de bar na qual o
Philiph Roth estava sendo empalado por escrever sobre um professor de escrita
criativa chateado com a vida que trai a mulher e a impossibilidade de tal obra
representar a universalidade da alma humana uma vez que era misógino,
preconceituoso e blá blá blá, crítica essa desmontada com uma única pergunta a
respeito de Madame Bovary do Flaubert) MAS, de fato, eu ainda achava que muito
do que era dito a respeito desse entorpecimento ideológico não passava de
teoria da conspiração, uma vez que eu estudo em uma instituição em que esse
tipo de coisa não é explícita, onde se tem liberdade para estudar quem e como
se quer, dentro das regras do rigor acadêmico e coisa e tal. E olha que o
Mackenzie tem um grupo de estudo sobre o Paulo Freire...
Mesmo quando comecei a dar aulas em
escolas públicas (E veja, isso é uma opção minha! Eu já dei aula em escolas
particulares e poderia continuar, escolhi a escola pública porque acredito em
igualdade de oportunidades e porque acredito que existe na escola pública,
ainda e apesar de tudo, um maior respeito à liberdade e à autonomia do
professor e reais possibilidades de, por meio de um trabalho paciente de
formiguinha, desenvolver a condição cultural do país. Por essas e outras decidi
escrever sobre isso...), na rede estadual, embora existissem discussões
políticas, sobretudo em época de eleição e na sala dos professores, não percebi
nada absurdamente repressivo ou desrespeitoso ou realmente inibidor da
criatividade e do desenvolvimento cultural da escola. Participei de excelentes
projetos de literatura, entrei em contato com ‘salas de leitura’ espetaculares
(trabalho de professores que nadam mesmo contra a maré, mas conseguem coisas
incríveis com seus alunos), feiras de Ciências e Matemática brilhantes e vi
professores de Filosofia e Sociologia, democráticos e interessantes,
desenvolverem trabalhos críticos e profundamente estimulantes sem ‘engessarem’
a cabeça de seus alunos com suas próprias opiniões.
Agora, de uns tempos para cá, talvez
devido à polarização que tomou conta desse país, talvez devido ao desespero do
PT em se manter no poder, mesmo diante das gestões canalhas e calamitosas que
fizeram, implodindo a esquerda (mesmo a útil) e criando um atraso
socioeconômico de, no mínimo, 20 anos, a política na escola virou sinônimo de
entorpecimento cultural, doutrinação neurótica e desrespeito ao ser humano.
São poucos os projetos desenvolvidos
que visam estimular a busca real de cultura, qualquer evento vira desculpa para
propagação maciça de agenda política partidária. Grêmios que em vez de ensinar
a criança a cuidar da comunidade priorizam propagação de ideologias, debates
sobre sexualidade com alunos de 10 anos de idade, eventos literários que
ignoram clássicos da literatura em prol de ‘literatura de resistência'
(geralmente lida fora de contexto e com ‘tecla SAP’ ideológica) e uma concepção de relação com
pais e famílias como se fossem inimigos de guerra, são a panqueca do dia!
Exemplo engraçado, que não podia ser mais ilustrativo é que hoje, no Dia
dos Professores, recebi de quase todos os meus colegas ‘mais à esquerda’
mensagenzinhas sobre a contribuição do Haddad à educação e/ou sobre a opinião
do Paulo Freire contra o veneno capitalista. (‘Tô fora, amigos! Kkkkkk ) Se
essa gente soubesse que alunos de 9º.s anos percebem o que estão tentando fazer
com a cabeça deles e estão, literalmente, ‘pegando nojo’ (palavras deles)
disso! Ninguém gosta de se sentir manipulado. NINGUÉM!
Para se ter ideia, nunca ouvi tanto
falar de cultura africana na vida, mas da forma mais errada possível, galera
fala sobre a África como se o continente todo fosse praticamente um único país,
único povo que se reconhece unicamente por ter pele escura, única língua (que
quando e se é apresentada, aparece sem tradução e em músicas tribais fora de
contexto e que ignoram a produção cultural da atualidade) e única cultura
(geralmente coleção de turbantes, capoeira e atabaques), como se a história
dela tivesse começado com a escravidão pelos brancos portugueses, coisa mais
preconceituosa e equivocada que essa, na minha opinião humilde, não existe! Se
eu fosse africana e visse tudo isso me sentiria profundamente ofendida, seria
tipo aquele engenheiro americano me perguntando na Alemanha se no Brasil
existiam carros, cidades e estradas. Meu, vão se ferrar! (By the way, parabéns
à minha amiga Adriana pelo trabalho maravilhoso realizado sobre o Egito...Você
é a prova de que existem mentes pensantes dentro das escolas!)
Na minha realidade micro, na sala dos
professores, acabo tendo que ouvir coisas como: ‘Você sempre teve voto
envergonhado no Bolsonaro!’ ou ameaças veladas por escrever esses diários. Fui
chamada de fascista por não querer fazer greve e até hoje sofro umas tentativas
de bulling ridículas, gente de cara feia para mim o ano
inteiro, outros que se aproximam e me adicionam em redes sociais para se
manterem informados (no mínimo achando que sou agente da CIA, do Kingsman ou do
Mossad...kkkk... ) sobre mim. É tudo tão ridículo, imaturo e neurótico que
realmente só tenho que concordar que essa doutrinação marxista (maciça sim e
mal intencionada) que começou nas universidades e se propagou pelas escolas,
sobretudo as públicas e que estavam sob a gestão petista, virou uma baita
neurose coletiva que tem destruído qualquer possibilidade do país realmente se
desenvolver intelectualmente. Percebo com tristeza a aridez cultural do
trabalho feito com as crianças nessas escolas e admiro os professores que a
despeito dessas amarras conseguem criar oportunidades e caminhos para a
educação. Quanto tempo perdido, quanta gente que passa pela escola sem aprender
nada de fato relevante para sua vida e quanto professor neurótico (muitos dos
quais pacientes psiquiátricos) que culpabilizam a vida e a escola por suas
mazelas, mas que não se dão conta de que a neurose política destruiu sua vida
pessoal, sua vocação, sua criatividade, suas oportunidades de aprendizagem e crescimento.
Quando voltei da Argentina, diante do
resultado das eleições, elaborei um questionário para alunos de 7º.s e 9º.s
anos que começava com a seguinte pergunta: ‘O que é democracia?’ Ironicamente,
numa escola onde tanto se fala de política e militância, NENHUM aluno foi capaz
de definir o termo, tive que explicar em TODAS as salas para que pudessem
responder o resto do questionário que falava, por exemplo, sobre as formas de
um país exercer a democracia. Se esse fato não diz ALGO a você, amigo leitor,
então, desculpa, talvez seja hora de você ir tratar seu vício em entorpecente
político. E, por favor, se você realmente se importa com esse país e com o
futuro do mundo, me deixe fazer meu trabalho em paz! Eu tenho muita coisa para
ensinar aos meus alunos, não me reduza porque você não tem ou perdeu quando
vendeu a alma para partidos políticos. FELIZ DIA DOS PROFESSORES! E saia do meu
caminho...kkkk...