quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Palavras Mágicas




“Cada criança merece um ‘campeão’: um adulto que nunca desistirá dela, que compreenda o poder da conexão e insista que ela se torne o melhor que ela consiga ser.” Rita Pierson, Professora

            Dizem que antes do império romano chegar ao norte da Europa, os Vickings cagavam e comiam no mesmo lugar. Isso tem imensa possibilidade de ser verdade, uma vez que foram os romanos que inventaram o vaso sanitário, público e aberto, onde dizem que muitas das mais importantes decisões do senado romano foram tomadas (será que foi na privada que planejaram o assassinato do grande Júlio Cesar? De qualquer forma, a merda foi grande...rs..). Anyway, não há como negar que a importância e a influência dos romanos na civilização da Europa, romanos estes influenciados pelos gregos que, por sua vez, foram extremamente influenciados pelos egípcios, outra das maiores civilizações de todos os tempos. O fato é que, colonialismo ou não - e aqui faço uma pausa para lembrar que a humanidade nunca foi perfeita, suas sociedades sempre tiveram, têm e terão aspectos repugnantes e pecados a serem corrigidos e que, para quem acredita em Deus, só poderão ser resolvidos pela ação divina, uma vez que somos serezinhos extremamente complicados, fracos e relutantes à mudanças e a abrir mão da satisfação imediata de nossos desejos- algumas culturas acabam dominando outras, muito mais do que por uma questão bélica, por uma questão de evolução mesmo.

            Gosto sempre de exemplificar isso falando sobre a colonização do México. Para começar, diferente de nós, o México nunca foi uma colônia. Quando Cortéz chegou naquela região, não achou ali um punhado de índios ingênuos como os guaranis, Montezuma tinha um império consolidado, tão bem estruturado e complexo que a única comparação possível a ser feita é com as cidades-estado gregas. Os soldados de Montezuma eram, por exemplo, os guerreiros aguila, cuja seleção dependia que o candidato perseguisse e caçasse, sem o uso de armas, uma águia. Não sei quanto a você, mas quando vi um gavião do rabo branco descendo o canion Malacara, no parque Aparados da Serra/ Serra Geral, com suas asas abertas, cuja envergadura chega a 4 metros, meu coração quase sai pela boca, era a sombra perfeita de um dragão cobrindo nosso pequeno grupo de exploradores. Além desses, também existiam os guerreiros Guepardos, que para fazerem parte da tropa de elite de Montezuma tinham que perseguir e matar felinos gigantes. Resumo da ópera: Cortéz só venceu Montezuma porque as outras tribos, vassalas do imperador, andavam meio de saco cheio de morrer em sacrifício aos deuses astecas e acabaram se mancomunando com o diplomático espanhol. Acho que até hoje a gente fica em dúvida se era melhor para a América ter ficado com os incas (que escravizavam índios chilenos) ou maias (que escravizavam todos os outros índios da região) ou com os espanhóis (que trouxeram o homem branco, suas doenças e taras para compartilhar). De qualquer forma, até hoje no México, a cultura indígena é fortíssima e mesclada com a espanhola numa proporção tão igualitária que já deu origem a outra coisa. Culturas dominam, são dominadas ou se sobrepõem e isso tem muito a ver com a contribuição que cada uma tem a oferecer para aquele povo e contexto. Romanos civilizaram a Europa de cabo a rabo e quem vê os nórdicos hoje, reconhecidamente incluídos entre os povos mais evoluídos da Terra, imagina se teriam chegado lá sem a influência dos antigos troianos. Moral da história: Quem sabe mais, ensina! Quem sabe menos, aprende!

            Dizem também, os que acreditam na Evolução, que o que fez o homem ter consciência e começar a ‘aprender’ com a experiência foi a enorme cabeça dos Neandertais. Embora na luta pela sobrevivência tenham acabado dando espaço ao Sapiens, foi a sua imensa capacidade de memória que possibilitou que a história de uma geração fosse armazenada e compartilhada com a seguinte, de maneira que, cada tentativa e erro de uma geração, resultava em conhecimento adquirido para a seguinte e assim seguimos crescendo, errando, acertando e aprendendo. Evoluímos como espécie e como sociedade. Coisas como escravidão, que hoje de forma quase unânime (infelizmente ainda existem exceções) é considerada imoral e hedionda, até poucos séculos atrás eram parte comum da vida da maioria das pessoas. Era quase ‘lugar-comum’ que todo povo vencido na guerra viraria escravo, era direito do vencedor, seu despojo. Isso está até em relato bíblico. Logo, tendo em vista o lugar de onde viemos, vínhamos evoluindo bem, principalmente pela nossa capacidade de ouvir o mais velho e refletir sobre o que ele trazia, aprendendo com a experiência dele e produzindo, a partir disso, novas informações.

            Não sei se já notou como os velhinhos tem péssima memória de curto prazo em relação à absurda capacidade de detalhes, datas, nomes, lugares, roupas, sentimentos, pensamentos, diálogos e toda sorte de elementos que se recordam sobre qualquer evento de seu passado remoto. O octagenário pode não lembrar o que comeu há 15 minutos, mas alguns serão capazes de narrar com certeza todos os detalhes da Ceia de Natal de 1946, quando acabava a Segunda Guerra Mundial. Essa peculiaridade do idoso é um fator evolutivo da nossa espécie. A função do velho é contar ao jovem sua história, a história de sua família, de seu bairro, de sua cidade, de tudo aquilo que ele testemunhou, para que o jovem vire adulto com todas as informações que precisa para tocar a vida. As culturas orientais sabem bem disso. Eles não costumam discutir com o que faz sentido. Oriental não dá para ‘rebelde sem causa’ como nós, ocidentais, às vezes nos tornamos. Eles sabem da importância do ensinamento do velho e o respeitam. Esse ancião tem lugar de privilégio na mesa das famílias, seus filhos cuidam dele até sua morte, é honrado e ouvido (ouvidos de verdade, não só para cumprir tabela) e mesmo se doente e senil, é cuidado e reverenciado com afeto. Por aqui a gente tira sarro do idoso quando não concorda com ele, muitas vezes sequer os toleramos em casa e os trancamos em asilos, onde morrem sozinhos, contando suas histórias para completos estranhos, porque não podem parar a função que a natureza lhes deu.

De tanto minar a contribuição do idoso, acabamos por dar um tiro em nosso próprio pé. As crianças de hoje, desacostumadas a respeitar os mais velhos, a começar dos próprios pais (geralmente culpados demais pelo egoísmo que os levou a destruir a família de seus filhos), perderam a capacidade de ouvir o que o mais experiente tem a ensinar. Tratam pais e professores como lixo, não os consideram e não levam a sério suas recomendações. É mais ou menos como jogar fora o manual de instruções de um foguete e sair para o espaço com ele!
Uma das professoras lá da escola, cansada de fazer de tudo para que os alunos realmente aprendessem, fez um teste simples com uma classe, explicou um assunto por no máximo 5 minutos e a seguir começou a pedir que eles fossem à frente e repetissem o que ela tinha dito - nenhum conseguiu. As crianças de hoje NÃO OUVEM MAIS OS ADULTOS. Existem salas, especialmente dos menores, em que tenho a nítida impressão de que eles sequer falam a mesma língua que eu. Desde a orientação mais simples, como: ‘Não se pendure na grade porque você vai cair!’ até a explicação de um assunto mais complexo, o fenômeno identificado diariamente é uma inabilidade total de OUVIR.

O resultado disso, na vida da criança, é um total desgoverno. Como não identificam no adulto uma referência segura, ficam à própria sorte. É comprovado na Psicologia que criança sem limite apresenta os mesmos sintomas e comportamentos de uma criança abandonada. Para o psiquismo da criança, a informação é a mesma, a saber, ‘não existe alguém que cuida de mim, que se importa com a minha vida, que vai me proteger da minha impulsividade e da minha falta de experiência sobre a vida. Estou sozinho, logo ninguém me ama!’ Uma criança obrigada a cuidar de si mesma sofre uma pressão enorme, esse ‘empoderamento’ assusta de tal forma que não sobra energia psíquica para mais nada. A criança vai apresentar problemas de aprendizagem, com raras exceções (e como dizia meu professor de matemática, a exceção só serve para comprovar a regra), vai abominar tudo que envolve disciplina e organização, vai ser agressiva, vai ter problemas de socialização. É um bichinho desorientado jogado para os lobos! (E vejo tantos assim, todos os dias...)

É OBRIGAÇÃO DO ADULTO SER O CIVILIZADOR DA CRIANÇA. Não porque ele tem mais valor ou direitos que ela, mas porque é seu dever, sua responsabilidade para com ela! Não educar é mau trato! Não educar é abuso! E aqui uso educar no sentido amplo, que vai desde ensinar as palavras mágicas que nos permitem uma vida razoavelmente segura em sociedade (Desculpe, Por Favor, Com licença e Obrigada) até ensinar o conteúdo programático que você, professor (a), se comprometeu a ensinar quando assumiu sua sala. Crianças não vão aprender Gramática ou Operações Matemáticas olhando a lua, pelo menos não a maioria! E elas precisam desse conteúdo para viver no mundo.

Hoje enquanto olhava as crianças brincando no pátio, tentei lembrar das brincadeiras que eu fazia quando criança, que meus sobrinhos faziam e me dei conta de que a brincadeira da criança de hoje é paupérrima em simbolização. Basicamente tem sido composta por uma correria despropositada, cheia de gritaria e agressividade, sem imaginação, sem regras, sem jogos, NADA. Lembrei de O Brincar e a Realidade do Winnicott e fiquei duplamente preocupada. Para onde vamos com isso, minha gente? Precisamos intervir, precisamos ensinar essa geração a brincar, a criar, a imaginar, para que desenvolvam habilidades psíquicas próprias de um ser humano saudável. É urgente!

Dentre todas as coisas que meus pais me ensinaram, (e foram muitas, meus pais realmente se comprometeram comigo e me amaram), acho que algumas me marcaram mais que outras. Lembro, por exemplo, que minha mãe passou minha infância inteira me repreendendo cada vez que eu falava da vida de alguém, ela insistia que a vida dos outros não era assunto para conversa e que aquilo que a gente diz sobre as pessoas (especialmente quando é mentira) pode destruir a vida delas. Até hoje eu abomino fofocas e desprezo gente que faz disso o sentido da vida! Outra coisa interessante me volta à mente numa frase dela: Filha, pensa comigo, se todo mundo ao seu redor está dizendo que você está errada, você precisa, pelo menos, refletir sobre essa possibilidade! (Ok, que quase sempre estou certa...kkkkk..) Lembro dela me arrumando para ir à igreja com a minha melhor roupa, sempre limpa, linda e penteada, me ensinando que existe uma forma adequada de se apresentar em cada ocasião. São tantas pequenas e grandes coisas que aprendi com meus pais, tios e avós e que fazem de mim a pessoa que sou hoje, a professora que me tornei, a mulher que eu sou, a amiga, a irmã, a tia...E se não houvesse essas pessoas na minha vida? Obviamente que ninguém é perfeito, mas eu tenho a total certeza que minha família fez por mim aquilo de melhor que podia! A educação que me deram me fez chegar aonde cheguei - uma mulher adulta, viva e digna - isso já é mais do que muita gente consegue ser. Toda criança merece um adulto que lute para que ela seja o melhor que puder ser - um campeão, uma amazona, um guerreiro (a) que não desista dela enquanto ela não chegar a ser o que pode ser. Toda criança que nasce nesse mundo, não importa de onde venha, tem esse direito! E é seu e meu dever, cada um dentro de sua esfera de atuação, ser esse campeão.

Acabei de assistir um vídeo ridículo de um grupo que se autodenomina ‘putinhas aborteiras”. Fiquei imaginando minhas avós vendo esse vídeo. Ainda bem que uma já foi para lugar melhor e a outra não usa (e detesta) a Internet, porque acho que elas se sentiriam imensamente envergonhadas! Duas mulheres que lutaram lado a lado com seus maridos, trabalhando fora e dentro de casa, mulheres decentes e de bem, inteligentes e fortes, que NUNCA, JAMAIS, iriam gostar de ver suas filhas, netas e bisnetas se comportando daquele jeito. 

Ouçamos nossos avós, ouçamos nossos pais, se não mais por aqui, ao menos in memorian. Paremos de agir como crianças mimadas e perdidas que não sabem ouvir. Assumamos nossos erros. Corrijamos esses erros. Tudo isso para que possamos correr atrás do prejuízo e falar com nossas crianças, ensiná-las, lutar por elas! Precisamos fazer com que elas nos ouçam ou viveremos para ser um reality show do The Walking Dead e estaremos muito velhos para correr de zumbis...#ficaadica


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Boundaries[1]



Não sei se já repararam nisso, mas para mim algumas palavras parecem ser melhor formadas, soar melhor em algumas línguas do que em outras, combinar mais com seus significados. É assim, por exemplo, com disgusting (Inglês: nojento), fianceé (inglês, do francês: noivo), meimei (chinês: irmã mais nova) ou liebe (alemão: amor, amar). Isso sem contar a nossa saudade que ninguém mais tem...Parece que o som e a forma dessas palavras se encaixam de forma mais perfeita em seu significado, sei lá, só é mais adequado, em inglês a gente diria fits (encaixa) e a gente sente um bem estar ao utilizá-las! Boundarie para mim é isso - palavra intuitiva e eloquente. Todos precisamos de boundaries claros para nos organizar internamente. A qualidade e a coerência deles, a forma como são concebidos, administrados, estabelecidos e mantidos define quem somos e quem seremos. Para a criança, isso é o mapa de sua formação de caráter e das escolhas que definirão sua existência, sua vida adulta, suas contribuições pessoais para a geração em que vivem e seus relacionamentos.

Fui uma criança muito tranquila, introspectiva e completamente urbana. Nasci no Belenzinho, reduto da italianada da Zona Leste de São Paulo. Só tive a honra de conhecer uma galinha viva de perto lá pelos 16 anos de idade. Minha familiaridade com asfalto, postes de luz e o concreto armado das pontes e viadutos teria tudo para me tornar meio avessa ao mato, aos animais, aos rios, lagoas e mares, mas, inesperadamente, tenho alma de camponesa! Adoro árvores, lagoas, plantas e flores. Espaço aberto e natureza são tão necessários para a minha sobrevivência quanto momentos de silêncio e introspecção. Ar livre para mim é sinônimo de leitura, música, desenhar, pintar...Coisas das quais preciso para viver!

A opressão que sinto em lugares fechados se evidenciou em maio deste ano, quando numa viagem para as Cidades Históricas de MG, num rompante aventureiro, decidi arriscar a sorte e entrar para conhecer uma mina de ouro do sec. XVIII. Em menos de 15 minutos dentro daquele túnel apertado, baixo, escuro e úmido sai correndo em total descontrole ali de dentro. Suando frio, pálida como um cadáver, tremendo e com a boca roxa, hiperventilava enquanto uma das funcionárias do lugar me servia um quentão e segurava minha mão. Demorou uma meia-hora até que eu sentisse meu coração batendo num ritmo ok de novo. Nunca tinha me sentido daquela forma antes, aquela perda de controle me chateou bastante e não fossem as outras atrações da belíssima ‘Ouro Preto’, talvez isso tivesse de fato me estragado o dia.

Claustrofobias à parte (perfeitamente compreensíveis pela Astrologia, uma vez que sou uma libriana com ascendente em Gêmeos, combinação ar + ar que jamais poderia ficar confortável em lugares fechados...rs...), sou uma mulher adulta que muitos consideram sensata e suficientemente equilibrada, de modo que quase sempre consigo explicar a mim mesma as vicissitudes ambientais a que estou sujeita e tentar conter minhas reações ao ambiente. Agora quero que você imagine uma criança de 6, 7, 8 anos de idade, enfiada dentro de uma sala de aula pequena, mal ventilada e, muitas vezes, escura e suja, com carteiras estranhas, esbarrando cotovelos e joelhos com 30, 35, até 40 colegas, muitas vezes em dias super quentes, com pouquíssimas aulas externas, geralmente só a Educação Física, quase sempre em quadras velhas e mal cuidadas, em escolas que quase nunca têm áreas verdes e de lazer. O que você imagina que acontece com essas crianças, dia após dia, confinadas por 6 aulas neste ambiente? Think about...

É fato fatíssimo que a criança precisa de boundaries. Ao contrário do que pensava Rousseau, o homem não nasce bom e com predisposição para o bem. Nascemos todos egoístas, agressivos, cativos de desejos violentos e vontades ingovernáveis que nos levam a atitudes nem sempre positivas e é a EDUCAÇÃO que nos civiliza - a de casa e a da escola, a formal e a informal. Pelo menos quando as coisas funcionam como deveriam. O ADULTO TEM QUE SER o instrumento dessa formação. O preço da ausência de boundaries é a loucura, a total desorientação do ser no tempo e no espaço. O problema da educação formal, de forma geral, é que por alguma razão que não tive acesso, associou-se a contenção ao espaço físico e a arquitetura penitenciária que se usa na escola assusta, frustra e aprisiona.

As paredes grossas de concreto, geralmente pintadas de cores feias e pouco convidativas (trabalhei numa escola que apelidei de ‘abacatão’ porque ela era inteira verde escura e tinha um formato sugestivo) sufocam mais do que protegem. Grades de todo tipo e tamanho espalham-se por todo lado. Portões pesados e barulhentos se fecham atrás de quem entra como se anunciassem uma sentença a ser cumprida. Salas pequenas e sujas, com carteiras velhas e quebradas misturando-se às novas que chegam - tudo anuncia uma espécie de cativeiro, sair da escola é o que liberta, não entrar nela. De alguma forma (e isso talvez seja explicado pela ‘Teoria das Janelas Quebradas[2]’), mesmo os recursos novos não duram muito, o material recebido pelas crianças no início do ano mal chegam utilizáveis até agosto. O barulho é sempre intenso e doloroso, todos gritam entre si e as professoras gritam por silêncio - o que em si já é um paradoxo. Poucas escolas possuem áreas verdes e espaços externos onde se possa optar por aulas em formatos alternativos que oxigenem a mente e a alma das crianças e dos professores, que potencialize outros canais de ensino-aprendizagem e que, inclusive, possibilite uma reformulação de relações pessoais.

A aula tradicional, mesmo quando bem dada e rica em conteúdo, se perde em meio à agitação e à agressividade da verdadeira ‘panela de pressão’ que virou a sala. O ambiente insalubre, somado a uma falta de formação de base, que deveria vir de casa e que ensinasse as crianças a simplesmente respeitar os mais velhos, ser gentil com os colegas e evitar conflitos, especialmente os físicos, desnecessários, acaba criando uma atmosfera de violência latente e muitas vezes até indiscriminada. Vejo o tempo todo crianças se socando na escola, é menino contra menino, menina contra menina, menino contra menina e quando a criança é deficiente (no caso dos com necessidades especiais) ou o adolescente é marginal, a violência se vira também contra o professor, com consequências gravíssimas.

A solução que muitos encontram para essa situação que pode chegar à periculosidade, impedidos talvez pela impossibilidade de buscar recursos mais eficazes (como reformas arquitetônicas, agregação de terrenos e praças próximos que poderiam significar melhor ambiente e melhor qualidade de vida na escola) e estimulados por essa fúria discursiva que herdamos da péssima formação das universidades na atualidade é a fuga pela ideologia. Daí tudo vira gordofobia, feminicídio, racismo etc e tal...Brigas no corredor viram o patriarcado branco esbelto heterossexual contra o mundo levando as crianças a se agredirem pela escola e se você diz que todos batem em todos e que não vê, no computo geral das situações, nessa violência, algo específico que revele qualquer formação ideológica prévia, as pessoas se ofendem, se fecham em copas e não aceitam sugestões. Se você disser ainda que já ouviu 8 mil vezes essa ladainha ‘politicamente correta’, que nada disso fará sentido algum para crianças e adolescentes, simplesmente porque não tem uma relação direta com a realidade do que eles estão fazendo e porque eles não têm ainda um raciocínio abstrato totalmente formado e vão só copiar esse discurso para agradar o professor militante (só assistir A Onda e compreender o efeito catastrófico que um professor carismático é capaz de fazer na cabeça de crianças e adolescentes, mesmo quando bem intencionado), o sujeito se ofende e diz que você não está escutando (o que ele realmente quer dizer é ‘como vc não está concordando e me aplaudindo?’).

Chego a ter dó dessas pessoas, algumas muito bem intencionadas, mas que venderam a alma por uma explicação idiota de por que não se sentem bem consigo mesmas no mundo e o fato é que se vitimizar colocando a conta no passado histórico, além de ser pura neurose, não vai resolver a fúria de 400 crianças agitadas, que geralmente vivem em ‘apertamentos’ e que vêm para uma escola que mais parece uma instituição correcional, para descontar no outro a agressividade que recebem de famílias cada vez mais desestruturadas e conflituosas. NÃO, NEM TUDO É SOCIAL! A MAIOR PARTE DOS PROBLEMAS É DO INDIVÍDUO. E é tão ridículo achar que tudo se resume a racismo numa escola onde a maioria maciça é de pardos, ou machismo, numa escola gerida quase que inteiramente por mulheres fortes e independentes. Enfim...Foram feitas pesquisas com ratos em laboratório e é comprovado que ao confinar muitos ratos numa única gaiola, eles começam a matar e comer uns aos outros, mesmo estando bem alimentados, para ampliar o espaço na gaiola. A diferença entre um ser humano e um rato se limita a 5 pares de genes. #ficaadica

      Era meu segundo dia no fundamental 1. Ainda estava sob o efeito do encantamento por ter conseguido uma escola fofa, com árvores, relativamente pequena e bem organizada e perto de casa. (Para um paulistano, poder ir para o trabalho caminhando é quase como ganhar na loteria). Pelo fato de não ter muito absenteísmo nessa unidade, os professores novos podiam acompanhar as aulas dos colegas servindo de apoio. Eu ainda não sabia, mas esses meses de aulas compartilhadas seriam as mais divertidas e significativas na minha formação como professora.

     Tendo em vista que essa escola estava cercada por 4 abrigos, tínhamos uma média de 5 ou 6 crianças órfãs e abrigadas por sala. Nessa sala de 4º.ano em particular, além dos abrigados, tínhamos mais 3 crianças com necessidades especiais, 2 ou 3 com dificuldades de aprendizagem e mais umas 15 crianças normais[3]. Sendo assim a professora titular pedia que eu a acompanhasse, dando maior assistência às crianças com maiores obstáculos. Ela os deixava mais na frente e enquanto eu os atendia, ela compartilhava o conteúdo de forma expositiva com a maioria.

    Por falta de salas suficientes esse 4º.ano foi alocado no que deveria ser um laboratório de Ciências, com uma enorme bancada na frente que acabava apertando todas as carteiras do meio para o fundo, reduzindo cerca de 50% do espaço da sala, já ocupada por armários velhos e esqueletos de plástico. Apinhados todos ali dentro, esbarrando e tropeçando uns nos outros e nas carteiras, sendo obrigados a um contato físico nem sempre desejado, tentávamos dar aula e apoiar as crianças na execução das tarefas. Vez ou outra gritando para tentar conter o barulho, o que sempre se mostra muito ineficaz!

      As coisas aconteceram numa fração de segundo, eu estava de costas para o resto da sala numa ponta, focada nos cadernos dos pequenos em apuros. A outra professora estava de costas na outra ponta, falando com um grupinho que não tinha compreendido bem a tarefa. Olhei para trás mais por intuição que por necessidade e o que vi do outro lado da bancada me gelou os ossos e acelerou o coração.

      Sangue, muito sangue, sangue escorrendo pelo rosto aos borbotões, se espalhando pela blusa e pingando no chão. A., mesmo com a cabeça aberta e sangrando em profusão, segurava na mão um pequeno objeto pontiagudo (que depois soubemos se tratar da lâmina de um apontador que foi arrancada do plástico, afiada e trazida para a escola para ‘matar’ D.) e avançava com ele para cima de D., dando vários golpes no ar, quase acertando o rosto do colega. Só para constar, ambos são meninos e negros, de modo que não caberia aqui atribuir racismo ou violência de gênero.

      A outra professora, que não tinha a mesma visão da situação que eu tinha, começou a andar na direção das costas de A. e então gritei para ela parar, porque ele estava armado, lívido de raiva e eu não sabia o que poderia fazer com ela, se tentasse segurá-lo. Ao me ver tão apavorada, L. estacou.

      Respirei muito fundo, segurei a tremedeira e comecei a falar com A. na voz mais firme que consegui, pedi que olhasse para mim umas três vezes, pedi que colocasse a lâmina no balcão, afirmei umas outras tantas vezes que ele era um bom menino, que não queria machucar D. de verdade e que estava sangrando muito e precisava ser socorrido. A. olhou para mim meio atordoado, meio confuso e com lágrimas nos olhos, jogou a lâmina no chão e eu imediatamente pisei nela para evitar que alguém a pegasse. A. caiu sentado no meio da poça de sangue, D. se jogou para o outro lado, L. correu atrás do inspetor e conseguimos conter o caos.

      Foi ali, no meio daquela situação absurda, que pude comprovar que boundaries para crianças nascem da determinação e maturidade do adulto ao abordá-las. A firmeza vem da sua atitude, da sua voz, da certeza que você tem daquilo que está impondo ao pequeno. Grades e paredes, ideologias e discursos, não ensinam limites - o que ensina limite é a ATITUDE do maior que cuida do menor, o ensina e o protege. O resto é pura baboseira!

      Mais tarde, já na sala dos professores, tomando o chá mais doce que já tomei na vida, ainda tremendo e ainda em estado de choque, ouvimos da boca de algumas testemunhas o resumo da situação daquele dia: D., que era um menino de abrigo agressivo e de poucos amigos (já devolvido de lares adotivos por 9, eu disse NOVE, vezes, tendo voltado do último por iniciativa própria, porque se tratava de um casal de gays e ele queria ter uma mãe e um pai) vinha atormentando A. por meses nos corredores e no intervalo. A., filho de uma família conhecida por armar barracos em lugares públicos, confusões de toda ordem e brigas de casal após bebedeiras, cansado de apanhar, teve a ideia brilhante de ir armado com a lâmina. Ao ir para cima de D. com aquilo no meio de nossa aula, foi empurrado e caiu em cima de uma mesa, abrindo a cabeça na quina da tampa, mesmo ferido, voou para cima de D. e foi aí que peguei a coisa em desenvolvimento.

      A partir daquele dia começamos a dar aula para essa sala no pátio do recreio, na varanda com mesas de xadrez, na quadra e em qualquer lugar aberto que conseguíamos. Combinamos uma ‘tolerância zero’ diante de casos de agressão e retomávamos as regras da nossa aula religiosamente a cada novo encontro.  A coisa melhorou tanto que conseguimos organizar uma festa de Halloween super bacana e até fazer atividades com comidas, que eles sempre adoram. Obviamente escondemos todas as facas e objetos pontiagudos...rs..

      Não sei como estão as coisas por lá agora, tive que ir para outra escola, mas naquele período não houve mais nenhum episódio sangrento.



[1] Do inglês> Linha que demarca os limites de uma área, linha divisória. Margem, borda, orla, fronteira, contenção, limite.
[2] Ver Google, vale muito a pena conhecer.
[3] Defina normal.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Inclusão?





A primeira igualdade é a justiça.
Victor Hugo
(criador de Jean Valjean e Quasímodo)


       Você acorda cedinho, animada como acorda todos os dias. Você gosta da brisa fresca da aurora, gosta de sair de casa com o nascer do sol, mesmo sendo uma criatura notívaga. Porque está animada se arruma bem, usa seu cachecol favorito aproveitando o final do inverno, dá uma caprichada no make-up e até usa seu perfume para dias especiais porque quer se sentir bem. Você coloca na bolsa o novo livro de contos clássicos que comprou para as crianças do Fundamental 1 e torce para poder dar aula para eles hoje. Você está tão contente nesta manhã que até posta uma self bobinha no Instagram para popularizar seu cachecol predileto. Quando você chega à escola, as crianças, em coerência com sua animação, te abraçam no pátio, dizem que você está bonita e cheirosa e na sala dos professores você encontra seus colegas rindo descontraídos, pegando seus materiais para começar o período. Logo você descobre que vai dar aula em um segundo ano, que a professora adoeceu e que ficará fora por alguns dias. Você pensa: Ok, trouxe meus contos novos e desenhos fantásticos para colorirem. No segundo ano já podemos aproveitar a história para aprender palavras novas, talvez um pouco de ortografia, separação de sílabas, possivelmente até formação de frases. Enquanto forma a fila no pátio você começa a bolar uma atividade de matemática também, afinal o conto do ‘Isqueiro Mágico’ tem uma série de sequências numéricas que podem ser aproveitadas. Você gosta dessa liberdade de criação no módulo. Você se sente livre e inspirada. Você sorri para as crianças, algumas delas muito queridas e pensa que tem tudo para ser um dia normal, numa sala de 2º. Ano, de uma das melhores escolas públicas da região.

       Você sobe as escadas um pouco tensa porque sabe que essa sala não é nada fácil, entre os 30 alunos, existe um autista grave, um autista leve agitado, um TDHA que anda pela sala o tempo inteiro e não realiza nenhuma atividade e, em vez disso, bate nos colegas e pega seus materiais sem autorização, causando conflitos constantes, e pelos menos mais umas cinco crianças com dificuldade de aprendizagem, todas inclusive fazendo recuperação paralela no período contrário e que são bastante lentas nas tarefas, requerendo suporte o tempo todo. Você fica mais preocupada ainda quando vê que Y veio. Sem dúvida, o aluno mais problemático da sala e um dos mais perturbadores da escola, um garoto estrangeiro, que ainda não tem laudo médico, embora se suspeite de esquizofrenia ou de algum transtorno global do desenvolvimento, além de possíveis abusos físicos e até sexuais, porque o aluno apresenta comportamentos sexualizados, brincadeiras estranhas e está sempre tentando colocar as mãos dentro das roupas de algumas professoras, incluindo você. Logo de cara você percebe que, neste dia em especial, Y está muito agitado e agressivo.

       Com menos de meia-hora de aula, mesmo com o apoio da estagiária, você já teve que guardar todas as tesouras dentro de uma caixa e esconder em cima do armário porque Y já tinha lançado três delas pelo ar, uma passando rente ao rosto de outro aluno. Y, de forma inesperada, se pendura com força em seu pescoço, coloca todo o peso de seu corpo sobre você e ao ser afastado tenta arrancar sua corrente do pescoço, bem sua correntinha de São Bento favorita, que você usa há mais de dez anos, a corrente é grossa e ela não quebra, mas te machuca, graças aos céus sem muita gravidade.

       Após um período breve de tranquilidade em que se distraiu com brinquedos de montar dados para os autistas (sempre envolvidos com algum tipo de jogo ou brinquedo porque ninguém na escola tem a mais vaga ideia de como ensinar conteúdo para essas crianças ou se isso é possível), Y começa a jogar peças nas outras crianças, acertando alguns na cabeça e fazendo com que seja necessário guardar tudo, o que deixa os autistas também frustrados e causa um período tenso de gritaria e choro. No meio de tudo isso, você continua tentando dar aula e compartilhar o conto que vinha ansiosa para dividir com a sala e as crianças interessadas na atividade, crianças que tem condições de aprender e que reclamam, pedem sua atenção, puxam você pelo braço pedindo que continue a história e exigem que se coloque os causadores do tumulto para fora, outros que ainda tentam acalmar os deficientes, numa atitude generosa que acaba virando habitual e que faz com que desistam de suas próprias tarefas.

       Depois de mais um curto período de calmaria, essa mesma criança sem laudo, começa a pular de carteira em carteira, imitando um macaco e cantando o refrão de um funk pesado que você nunca ouviu na vida. Após fugir da estagiária umas três vezes, saindo da sala pela porta e correndo pelos dois andares da escola, entra em outras salas de aula, agride crianças,  chora e acaba sendo arrastado pelo corredor para não se machucar, voltando  para dentro de sua própria classe e se sentando quieto. Um pouco ofegante com a correria, sentindo-se descabelada, já sem cachecol e sem blusa, você tenta manter a serenidade e diante da pretensa quietude de Y, você se volta para escrever na lousa, tentando retomar a tarefa dada, ainda a primeira do dia, que ninguém conseguiu terminar por causa da confusão. A agitação recomeça em segundos e o mesmo aluno salta em cima das carteiras e aproveitando sua distração, se joga nas suas costas. Por uma questão de meio centímetro você não mete a cara na lousa. O aluno, menino de 8 anos grande para a idade, se pendura em suas costas e enrola suas pernas em volta de sua cintura, a estagiária tenta retirá-lo de cima de você, mas ele se agarra fortemente dificultando a tarefa. Enquanto tenta se desvencilhar do menino, você vê que uma lâmina inteira de vidro da janela caiu solta, você corre para pegar antes que fira alguém. As crianças sentadas ao lado da janela, aproveitando todo o caos, tiraram a massa fresca do vidro recém consertado para brincar de massinha e com isso derrubaram o vidro da janela. Você sai depressa da sala para chamar alguém para recolher o vidro. Não acha ninguém da manutenção, você recebe ajuda de uma professora readaptada que leva a lâmina embora.       Com alívio você percebe que o período já está terminando, você desce com as crianças para o pátio. Por duas semanas após o ocorrido você ainda terá dores nas costas, na altura da lombar, na bacia, do lado esquerdo. Você sabe que esse tipo de situação, com uma ou outra variação, é comum e independe da professora presente em sala de aula. Num suspiro você se lembra de que essa nem é a sala mais complicada da escola no que tange ao contexto de inclusão. Você sai da escola no final do período exausta, nervosa e frustrada porque tem plena consciência de não ter conseguido concluir nada do que planejou e de que as crianças pouco aprenderam de fato naquele dia. Você se sente uma fraude como professora e ainda está machucada fisicamente...Você se recupera das dores na coluna com aulas de Pilates. Aulas que obviamente você paga do próprio bolso!

       A primeira experiência profissional que tive com uma criança portadora de necessidades especiais foi durante a faculdade de Psicologia, num estágio obrigatório em ‘Psicologia do Excepcional’. Atendi durante seis meses um adolescente de 13 anos com Síndrome de Down, numa das melhores instituições para excepcionais existentes na época, com supervisão competente e estrutura adequada para atendimento. Lembro que após este tempo, no qual minha atuação terapêutica se limitou, em grande parte, a distrair meu paciente para que não se masturbasse na minha frente, o que fazia o tempo inteiro, utilizando técnicas de condicionamento comportamental. Era constrangedor, frustrante e inútil o trabalho que eu desempenhei vicariamente por 6 meses e percebi, nessa época, que eu não tinha desejo, paciência ou estrutura para trabalhar nessa área. Cumpri o estágio, tirei a nota e encerrei sem alegria ou vontade de trabalhar com essas crianças. Nessa mesma época, uma colega teve que levar 8 pontos no mamilo, porque o autista severo que atendia - filho de milionários e que passava o dia numa instituição totalmente estruturada para seus cuidados e que só tinha 4 crianças, cada uma devidamente acompanhada de seu próprio terapeuta, em período integral - virou-se inesperadamente enquanto ela o ajudava a escovar os dentes e a mordeu, travando os dentes em seu seio e só não lhe arrancou a carne porque estava frio e ela vestia uma jaqueta grossa. Lembrando que estudávamos Psicologia, éramos alunas excelentes e recebíamos supervisão semanal de professores especializados neste tipo de clientela. Quando fazia especialização em Psicoterapia de Crianças e Adolescentes em Porto Alegre, a instituição em que eu estudava, completamente bem assessorada por psiquiatras e psicólogos bem formados e treinados, mantinha uma Ambientoterapia, onde atendiam crianças com diversas patologias e síndromes, permitindo que convivessem, aprendessem e executassem tarefas de lazer e socialização juntas - CADA CRIANÇA ERA ACOMPANHADA DE UM OU DOIS TERAPEUTAS.

       Conto isso não para criar nenhum tipo de animosidade quanto ao trabalho com crianças deficientes, muito pelo contrário, conto isso para destacar a necessidade de um atendimento profissional especializado para este tipo de público, do contrário jamais terão qualquer oportunidade de um real desenvolvimento da porcentagem de autonomia possível dentro de cada quadro e de uma real possibilidade de aprendizagem, de qualquer espécie.

       A primeira vez em que estudei inclusão de uma forma mais formal foi durante o meu primeiro mestrado, que acabei abandonando exatamente por perceber que não era para mim. Uma das disciplinas, focada 100% na teoria que acabou por instalar na escola brasileira essa política ‘inclusiva’, era ministrada por um professor que se citava o tempo inteiro, uma vez que era o grande estudioso e incentivador do tema.

       Ao mesmo tempo em que eu lia textos e textos desse autor, vendo-o pessoalmente duas vezes por semana e testemunhando seu entusiasmo com o que parecia ser a instalação do ‘paraíso na Terra’ e a solução para todos os problemas de empatia e desigualdade humana a partir da escola, ouvia de minha tia professora de educação infantil e de várias amigas sobre o caos que vinham enfrentando em salas de aula com até 40 crianças de menos de 7 anos, agora contendo 5 ou 6 deficientes mentais, alguns severos e agressivos, outros ainda de fraldas e com graves dificuldades motoras, entre eles.

       Um dia, já muito confusa e cética e de saco cheio da ladainha descarada que vinha sendo enfiada por minha goela abaixo, levantei a mão e com minha boca grande perguntei: Professor, por gentileza, o senhor parece ter tantas experiências de sucesso com esse trabalho inclusivo, onde mesmo o senhor deu aula para deficientes? O honorável mestre pigarreou, olhou o relógio, pediu licença e saiu da sala como se tivesse um compromisso inadiável, deixando-nos a todos meio perplexos. Sua assistente, uma dessas puxa-saco acadêmicas de carteirinha (e como existe esse tipo de gente no meio acadêmico, pelo amor de Deus!), disse em tom se sussurro: Não, gente, sabe o que é, o professor X é um acadêmico e um teórico, ele nunca deu aula na educação básica, mas ele já foi inclusive secretário da educação do governo do Estado X, viu? Ele é super conceituado!

       Confesso que a ideia de ‘vergonha alheia’ se tornou mais clara para mim naquele dia, imediatamente senti meu rosto queimando, o que significa que devo ter ficado vermelha feito um pimentão e dali para frente nunca mais dei muita atenção para aquela aula, que acabou se tornando um dos motivos pelos quais larguei esse mestrado, mesmo tendo cumprido todos os créditos de disciplinas (para grande espanto e horror da minha mãe...rs..) e ido estudar Letras, pelo menos na Literatura quase sempre a gente tem clareza sobre o que é ficção ou não, né?

       Eu poderia dar uma de intelectual e ficar aqui discutindo mil teorias lindíssimas sobre como a ideia de educar crianças para o bem e a política  de ‘Inclusão’ são complementares, mas uma coisa que se descobre em chão de sala de aula é que educação se faz na prática, por meio de empatia, percepção e sinceridade. Educar é ‘aproveitar o momento’ e a realidade é que essa tal política de ‘Inclusão’ foi jogada no colo dos professores, dando ao fracasso mais uma oportunidade. A grande maioria nunca teve treinamento ou instrução para atender essa clientela. Nunca foram levadas em conta as demandas das salas de aula já existentes antes mesmo do ingresso dessas crianças, necessidades já imensas e sem atendimento eficaz. A mera criação de um departamento de apoio nas redes de ensino (minúsculo para o número de escolas e de casos, burocrático e demagógico, como quase tudo na escola pública, e especializado em devolver a responsabilidade para a escola local) nunca passou de um ‘cala a boca e aguenta’ por parte dos idealizadores dessa ideia de jerico, travestida de bom-mocismo e discurso fake de igualdade.

       Qualquer professor honesto e inteligente, após se esforçar muito para incluir essas crianças, porque afinal de contas somos todos humanos e compaixão e afeto precisam ser características de alguém vocacionado para ensinar, começa a se dar conta de que a inclusão sem estrutura não passa de mais um projeto de emburrecimento da população. Esses dias um colega postou no Facebook uma matéria sobre como relatos exagerados que mostram a educação num estado pior do que ela está de fato é um projeto para desacreditar o ensino brasileiro. Discordo redondamente! Primeiro que o quadro é mesmo calamitoso e se não houver denúncia não haverá conscientização e mudanças, segundo que os relatos que temos visto não são exagerados, são realistas. São relatos de gente que não desistiu de lutar, mas que não aceita maquiar a realidade em prol deste ou daquele interesse político. Esse PROJETO DE EMBURRECIMENTO não me parece recente, nem exclusivo de um partido ou de outro, da esquerda ou da direita, de uma única pessoa, mas é uma ação coordenada, sei lá se totalmente consciente, mas que está conseguindo nivelar toda população por baixo, impedindo que as camadas populares tenham acesso a uma real aprendizagem. Para quem leu Admirável Mundo Novo, parece que estamos trabalhando para a boçalização de nossos alunos, garantindo que toda uma geração de GAMAs[1] saiam das escolas.

       É importante saber que assim que a política de inclusão foi implantada, o governo do Estado declarou não ter estrutura para atender este público, de modo que ficou para as escolas da prefeitura a responsabilidade de receber essas crianças. Até onde eu sei não existe um limite adequado de número de crianças a ser recebido por escola, o que torna algumas dessas unidades escolares, seja pela existência de elevador, seja pela localização de fácil acesso ou por alguma outra questão, favoritas para este tipo de matrícula. Sendo assim, existem escolas com 10, 20% de seu público constituído por cadeirantes e deficientes de toda ordem, sem estrutura, sem material para educação especial, sem espaço físico adequado (e nosso próximo texto vai abordar a questão do espaço físico), sem treinamento especializado para professores ou qualquer tipo de recurso que torne a existência dessas crianças na escola menos prejudicial ao processo de ensino-aprendizagem das crianças sem deficiência e mais promissora do ponto de vista dos próprios deficientes.

       Já vi estagiária pedir demissão porque não aguentava mais chegar em casa toda machucada por seu aluno deficiente. Já vi professoras excelentes desistirem de dar aula em certas classes porque consideram uma hipocrisia e um acinte trabalhar sem nenhuma estrutura, sem condição de lecionar e ainda correndo risco de lesão física. Já vi salas serem trancadas por medo de serem invadidas por crianças agressivas. Já vi todo tipo de relato e reclamação serem escritos e enviados para órgãos superiores que exigem da escola um ‘plano de ação’ para o atendimento dessas crianças sem que nenhum recurso ou mudança sejam oferecidos como suporte para a situação.

       Sou uma professora e uma profissional de saúde mental, acredito no potencial de aprendizagem de qualquer se humano e, ainda que imperfeita ao extremo, tenho preservado em mim um sentido de compaixão e de humanidade que me faz abraçar essas crianças, tentar ensinar alguma coisa a elas e achar bonito a forma como as outras crianças as aceitam e tentam ajudá-las em suas dificuldades. Por outro lado tenho um cérebro e uma acuidade crítica que me permitem fazer a pergunta: Qual é a diferença entre a atenção e as tentativas desesperadas (e por que não dizer ridículas, se estamos sendo honestos aqui?) de incluir essas crianças no processo de ensino-aprendizado, feitos sem nenhum preparo, na improvisação e sem nenhum recurso, da atenção e das tentativas engraçadas de treinar nossos PETs em casa? Sei que essa pergunta vai chocar alguns e escandalizar outros, mas é uma pergunta descabida? Existe respeito quando se fecha uma escola pública especializada em crianças com Paralisia Cerebral, toda equipada com computadores, professores especializados e material adaptado que realmente permitiam o desenvolvimento dessas crianças e se jogam esses alunos para serem o mascote de um sala de aula com mais de 30 outros alunos, sem recurso algum que lhes permitam de fato serem ensinados? Quantos deficientes vc conhece em escolas públicas que tem um profissional exclusivo para atendê-los e que consiga de fato adaptar para eles cada atividade de modo a que seu tempo na escola não lhe seja inútil e não represente perda na qualidade de ensino de seus colegas e caos para todos?
      
      Na verdade, a política de ‘Inclusão’, como tem sido aplicada, é sim exclusiva e mais ainda, representa uma excelente ferramenta de emburrecimento geral da população escolar e de adoecimento dos docentes. Parece que somando a Progressão Continuada com a Inclusão obrigatória a única equidade que temos conseguido é a igualdade na bosta. O resultado já é explícito e facilmente identificado, não precisa nem ser gênio para notar, estamos deformando toda uma geração que chega no Ensino Médio semi-analfabeto e sai dele subletrado. Quanto ao deficiente, nenhuma de suas habilidades foi reforçada, seu potencial de aprendizagem foi desperdiçado, mas vamos ficar contentes porque ele fez um monte de amiguinhos na escola que o tratam com afeto, fazem gracinhas para ele rir e empurram sua cadeira de rodas na hora do recreio. Se eu fosse mãe de um deficiente ficaria muito, mas muito ferrada com isso.







[1] Referência aos seres humanos programados para serem deficientes cognitivos e talhados para todo tipo de trabalho braçal e serviços indesejáveis em ‘Admirável Mundo Novo’.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O Sistema




A capacidade da mente racional de enganar,
manipular, esquematizar, fraudar,
falsificar, minimizar, desorientar, trair,
prevaricar, negar, omitir, racionalizar,
polarizar, exagerar e obscurecer é tão infinita,
tão extraordinária, que os séculos de pensamento
pré-científico, concentrados em esclarecer a
natureza do esforço moral, a consideram nitidamente
demoníaca. E não por causa da própria racionalidade
como processo. Esse processo pode produzir clareza
e progresso. Mas porque a racionalidade está
sujeita à pior tentação - elevar o que se
sabe agora ao status de um absoluto.
Jordan B Peterson

Veja! Diante dele toda segurança é apenas
ilusão,pois basta alguém vê-lo para
ficar com medo.Ninguém é tão corajoso para
provocá-lo. Quem poderia
enfrentá-lo cara a cara? Quem jamais
se atreveu a desafiá-lo
e saiu ileso.
Jó 41.1 e 2
(sobre o Leviatã)



     O Leviatã é uma criatura que faz parte da mitologia hebraica. Seu nome vem do hebraico liwjathan que quer dizer ‘animal que se enrosca’ e é conhecido como um monstro marinho. Descrito em Jó 41 como um monstro pavoroso e invencível, tem servido de metáfora para tudo aquilo que o homem não consegue enfrentar, que o enreda, o aprisiona e o destrói.

     O filme russo de mesmo nome, dirigido por Andrey Zvyagintset, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 e conta a história de um homem simples, com uma vida prosaica e algo inocente, que é completa e brutalmente engolido pela burocracia do sistema russo. Sem dar nenhum maior spoiler, recomendo, assistam, é brilhante! Lembro-me de ter saído do cinema simplesmente embasbacada, perplexa, com um nó no estômago e uma raiva surda, principalmente, porque vivendo num país como o nosso, lidamos com as redes do Leviatã todo santo dia, ainda mais quando se trabalha em redes de ensino.



     Outros dois excelentes exemplos dessa gosma abstrata que nos controla, suga nossa energia, adia e impede os nossos avanços e progressos, são o romance O Castelo de Kafka e o conto A Fila de Murilo Rubião. Ambos, cada um à sua própria maneira, descrevem as angústias e, em especial, a impotência com a qual nos deparamos quando diante de sistemas de regras e exigências neuróticas e abusivas que nos cortam as asas da imaginação, as pernas da mobilidade, os braços da ação e, ao final, nossa racionalidade e com ela nossa sanidade mental e física.

     Na escola são múltiplas as facetas do Leviatã. Podem surgir com a careta abobada das ‘burrocracias’ do funcionalismo público, criando dramas absolutamente desnecessários e inexistentes num lugar gerido por pessoas inteligentes e podem te deixar desempregada em fevereiro (pior época para procurar emprego na educação), como aconteceu comigo certa vez, quando a ‘secretina’ da escola se esqueceu de avisar a diretora da data da renovação do meu contrato e todas as minhas aulas de reforço e recuperação paralela foram para atribuição, aparecendo na escola para requerê-las uns 30 professores com pontuação maior que a minha, afinal, era meu primeiro ano na rede pública e eu nem era concursada. Não podendo fazer nada, a diretora apenas se lamentou e me pediu desculpas. Embora, por incrível que pareça, apesar de todo prejuízo que as mazelas administrativas do sistema possam te causar individualmente, nada se compara ao poder destruidor que a faceta das políticas de ensino de ensino equivocadas exercem no coletivo.

     A primeira vez em que tive a consciência de estar, de verdade, diante do Leviatã na escola, quando vi seus dentes, suas costas cascudas e seu potencial de devastação, foi ao estrear num conselho de classe e descobrir a famigerada ‘Progressão Continuada’, que é sim um sinônimo de aprovação automática. Diz a lenda (e eu sempre acredito em lendas, faz parte de ser uma boa professora de Literatura...rs..) que a ideia começou na França e, na teoria, funcionaria como um meio de reduzir o número de reprovações, fazendo o aluno ser avaliado em ciclos maiores do que um ano e em vez de ser reprovado anualmente, poderia se recuperar por meio de reforços consecutivos. No Brasil, começou a ser implantada quando Paulo Freire foi secretário de Educação em São Paulo. Tudo isso com base na ideia de que o aluno ficaria desmotivado com a reprovação e acabaria não se esforçando mais nos estudos. A adoção definitiva se deu em 1996, no governo de FHC, por causa da Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

     Faço questão de salientar que não duvido que por trás dessa política tenham existido boas razões e boas intenções. Da mesma forma que não acho que as pessoas são apenas boas, também não creio que sejam más de todo. Acho que na teoria, em países com melhores estruturas e mais recursos, talvez essa ideia tenha sido muito eficaz e realmente mais interessante, mais inclusiva e até mais producente do ponto de vista das crianças com dificuldades de aprendizagem, mas o fato é que por aqui toda mudança é implantada sem um planejamento e preparação adequados, sem que se criem condições para que tais políticas alcancem resultados positivos. Joga-se a nova regra no colo das unidades escolares e é cada um por si, o resultado sendo, de forma inequívoca, o de transformar-se algo ruim (e não podemos ser obtusos ao ponto de achar que a escola por aqui em algum momento realmente foi satisfatória, se tivesse sido, provavelmente teríamos evoluído como país, não regredido tanto) em algo muito pior. Aliás, fazer a mágica do ‘nada pode ser tão ruim que não possa piorar’ parece ser prerrogativa do brasileiro.

     Na real, parece que se tratava de uma necessidade do PSDB de aumentar o número de aprovações, garantindo que o Brasil alcançasse certas metas e com isso se classificasse para receber algumas verbas internacionais bastante significativas e que jamais foram aplicadas na escola e se foram, ninguém ficou sabendo onde e como. Ao fim e ao cabo, a adoção dessa política parece nunca ter sido mais do que uma manifestação do velho e escroto ‘jeitinho brasileiro’ para conseguir uma grana extra e estamos pagando a consequência disso com toda uma geração de analfabetos funcionais indo para a faculdade sem conseguir escrever um parágrafo de texto com coesão e coerência.

     Na prática, com a progressão continuada fomos acumulando mentiras em cima de mentiras. A avaliação da aprendizagem do aluno se tornou uma mentira. Subestimando sua capacidade de lidar com as frustrações consequentes de um possível mau desempenho, nós os tornamos uns idiotas, frágeis, cada vez mais infantilizados e mimados, incapazes de se responsabilizar por suas atitudes e de qualquer esforço real para aquisição de conhecimento. A desqualificação da escola e da figura do professor galopou a passos largos, a desautorização por parte do sistema, que o impede de avaliar de forma verdadeira o progresso do aluno, afetou a autoestima do professor e a credibilidade de seu papel perante as famílias e a sociedade. O resultado disso foi a desvalorização da profissão, da qualidade da formação acadêmica, que o MEC (já no governo PTista) fez o favor de comprometer por meio de currículos cada vez mais pobres e com conteúdos cada vez mais fakes e sem sentido. Obviamente, isso comprometeu a qualidade de ensino e a maioria dos alunos perdeu completamente o interesse por qualquer contribuição de qualquer figura de autoridade, o que tem um potencial de desestrutura e caos social extraordinário, deixando o país todo à mercê de ideologias malucas de toda ordem e de interesses totalitários.

     As notas são uma mentira, as aprovações são uma mentira, o esforço do aluno em sala de aula é uma mentira, a dedicação do professor virou uma mentira, a escola virou uma mentira e o resultado disso vimos essa semana na avaliação nacional do Ensino Médio, um verdadeiro fiasco!

      A zumbificação dos adolescentes e a histeria das crianças são coisas que presenciamos todos os dias em sala de aula e tem ficado cada vez mais assustador para o professor minimamente consciente e que ainda tem uma mente sã. Os alunos têm perdido paulatinamente a capacidade de ouvir, de escutar, de se abrir para a fala do outro, principalmente se o outro for um adulto.

     A mentira começa já na pré-escola. Crianças que possuem a maior aptidão para aprendizagem de línguas a partir de 3 anos de idade, agora são proibidas de serem alfabetizadas até 7 ou 8 anos, porque elas devem ‘brincar’, como se aprender a ler e a escrever não pudesse ser uma grande brincadeira (só um idiota que nunca deu aula para crianças pode achar que a criança não se diverte ao aprender a ler). Aos 7, 8 anos, sem nenhuma familiaridade com as letras e, provavelmente, sem nenhuma disciplina e organização interna adquirida, já que passou anos correndo pelo pátio e gritando desembestadamente, o pequeno começa com as letras de forma e só depois aprenderá as de mão, nessa pedagogia retardada que o atrasa ainda mais, porque o condena a ficar até o terceiro ano agindo como se fossem dois alfabetos diferentes, lendo isso, mas não aquilo e usando o dobro de tempo e do esforço para adquirir a capacidade de leitura, algo simplesmente incompreensível para quem aos 5 anos já tinha trilhado toda ‘Caminho Suave’ sem stress e com sucesso. By the way, caderno de caligrafia virou sinônimo de punição e crianças com letras ilegíveis até para si mesmas viraram a fruta da estação.

     Se a professora não tem crítica pessoal, até o 5º., 6º. ano não se trabalha de forma direta nada relacionado às regras gramaticais. Tudo gira em torno de ‘interpretação de texto’ e textos com conteúdos ‘conscientizadores’ que não levam em consideração o fato de que a capacidade para o raciocínio abstrato só está madura lá pelos 17, 18 anos, tornando tema como bulling, gordofobia, homofobia, racismo, feminicídio, corrupção e etc, repetidos ao extremo, em banalidades, uma vez que a criança não dimensiona ainda isso com seu significado correto e vai adquirir um ‘discurso’ de imitação que em sua consciência íntima não representa nada.   O aluno tem chegado ao final do Ensino Fundamental 2 sem real capacidade de manejo da linguagem, com uma capacidade limitadíssima para produção de textos, raros tem hábitos de leitura que ultrapassem as legendas dos games, mais raros ainda os que tem algum interesse real em aprender qualquer coisa. Pelo menos essas são as queixas que ouço todos os dias na sala dos professores.

     Fica a pergunta: Qual é a profundidade de uma interpretação de texto para um aluno que não domina a língua?

     O sistema também nos engole quando matricula 60 crianças com necessidades especiais numa escola sem estrutura, sem treinamento, sem pessoal suficiente e sem recursos reais de atendimento a essa população, mas disso falaremos em outro texto.

     O sistema também trucida a escola particular, na medida em que o interesse empresarial suplanta o educacional e, na ânsia por manter alunos pagantes a qualquer custo, usa-se de mentiras para mimar pais de alunos mimados que não podem ser repreendidos, nem tirar notas baixas e nem ser contrariados, afinal, os alunos ‘pagam’ o salário do professor’. Tive uma mãe maluca que devolveu a prova corrigida da filha com a inscrição em vermelho “nota cancelada pela mãe”. Naturalmente, não cedi e a coordenadora resolveu o caso, mas sim, como toda escola pequena e de periferia, faziam mil absurdos para segurar pais e chegava a ser desprezível. Por esse e por outros motivos que aos poucos irei contando, dei graças a Deus quando passei no concurso da prefeitura.

     Algo que a escola pública te dá, a despeito de todos os problemas, é espaço para criar e autonomia na escolha de material e de métodos de ensino. Não aguentava mais dar aula numa escola que tinha lousa digital, mas que não tinha sequer dicionário na biblioteca, biblioteca essa que funcionava de enfeite porque os alunos não podiam pegar livros emprestados nela. Fora aquelas apostilas chatíssimas e mal feitas, as quais você é obrigado a trabalhar cada vírgula, mesmo que seja uma idiotice, porque como os pais pagaram, querem ter certeza de que o filho passou por ali. A impressão que se tem é que você está alimentando um doente com sonda. Não existe espaço para alegria no processo de ensino-aprendizagem, não existe espaço para criar nada, não existe espaço para a busca da excelência ou pelo menos para se buscar um meio alternativo mais interessante de abordagem de conteúdos. Na escola particular o Leviatã tem a forma do tédio, da angústia e da mediocridade. O aluno da escola particular, via de regra, cresce para ser um burocrata, um filhote do sistema e se não tiver a habilidade para pensar por si mesmo e escolher seu próprio futuro, viverá para repetir esse modelo.


     Tenho um amigo, certamente o melhor professor de Língua Portuguesa que conheço, que foi demitido de uma escola onde trabalhava há anos, por não aceitar uma prova feita a lápis, de uma aluna do Ensino Médio, mesmo depois de ter avisado que não aceitaria. O pai da garota fazia várias doações à escola, que também era vinculada a campeonatos esportivos e etc e tal. Diz a lenda que até hoje não conseguiram um professor do seu nível para a escola. Meu amigo, obviamente, já está muito bem empregado.

     Jordan B. Peterson[1], meu atual teórico favorito na Psicologia, diz que “A verdade reduz a terrível complexidade de um homem à simplicidade. A verdade faz com que o passado seja verdadeiramente o passado e faz o melhor uso das possibilidade futuras. A verdade é o recurso natural máximo e inesgotável. É a luz na escuridão.”

     Ele nos recomenda a enxergar a verdade e dizer a verdade. Diz que a verdade não vem disfarçada de opiniões compartilhadas com os outros, mas que ela será PESSOAL. Orienta a que nos comuniquemos de forma cuidadosa, de forma articulada, conosco mesmos e com os outros. ”Isso garantirá sua segurança e tornará sua vida mais abundante agora, enquanto você habita a estrutura de suas crenças atuais. Isso garantirá a benevolência do futuro, divergente como puder ser das certezas do passado.” Porque a verdade floresce renovada das fontes mais profundas do nosso ser, ela evitará que nossa alma murche e morra enquanto passamos pela tragédia da vida.

     “Se sua vida não é o que poderia ser, experimente dizer a verdade. Se você se prende demais a uma ideologia ou se remói no niilismo, experimente dizer a verdade. (...) Diga a verdade, ou pelo menos não minta.” (p.241) Ao lidar com a verdade, da maneira como ela se revela a você, terá de aceitar e lidar com os conflitos que esse modo de SER gera. Ao fazer isso, você amadurecerá e se tornará responsável de formas pequenas e grandes por aquilo que você é e vive. Ao nos tornarmos responsáveis, cuidamos melhor de nós mesmos e de tudo ao nosso redor. Esse cuidado faz o perímetro ao qual nossa atuação pertence uma instância melhor. Se cada um aprender a arrumar seu próprio quarto, podemos dar nossa contribuição efetiva para o desenvolvimento de tudo ao nosso redor. Logo, mudanças pequenas e pontuais funcionam melhor que mudanças genéricas, gigantes e difíceis de se implantar. A iniciativa individual é o que potencializa a transformação coletiva. E NUNCA nada baseado em mentiras pode resultar em bons frutos. ABSOLUTAMENTE NADA.





[1] 12 regras para a vida - um antídoto para o caos (livro com nome de manual de auto-ajuda que quase aposentei na estante sem ler por puro preconceito e que se mostrou um néctar dos deuses no meio do deserto intelectual da atualidade)