Terremotos,
enchentes, pobreza, câncer - somos fortes o suficiente para suportar tudo isso.
Mas o mal humano adiciona uma dimensão totalmente nova de sofrimento ao mundo.
É por essa razão que o surgimento da autoconsciência e sua consequente
percepção de mortalidade e conhecimento do Bem e do Mal são apresentados nos
primeiros capítulos do Gênesis (e na vasta tradição que os cerca) como um
cataclismo de magnitude cósmica. A malevolência humana consciente pode quebrar
o espírito que até mesmo a tragédia não consegue abalar. (...) o mal voluntário
que fazemos uns aos outros pode ser profunda e permanentemente prejudicial
mesmo para os fortes. (...) A vida é, realmente, ‘sórdida, brutal e curta’,
como o filósofo inglês Thomas Hobbes tão memoravelmente observou. Mas a
capacidade do homem para o mal a piora. (Jordan B. Peterson, 2018, p.185-186)
Foram
duas.
Uma
de um menino negro de 11 anos do 5º.ano A.
Outra
de um rapaz branco, repetente no 2º.ano Médio noturno.
A
primeira foi violenta, impulsiva e direta, mas facilmente contornada, até
porque feita por uma criança.
A
segunda foi sutil, premeditada, covarde e maliciosa e se não fosse a
Providência Divina poderia ter tido consequências muito piores.
Fiz
questão de destacar a cor de pele desses garotos, não porque isso seja
particularmente importante para mim, mas para mostrar que violência,
desestrutura social e familiar e pobreza não tem cor no Brasil. Pelo menos não
na periferia de São Paulo.
P
era um menino muito pobre, alto para a idade, mas muito magro, sempre de
bermuda e chinelo de dedo mesmo em dia frio. Como ‘desgraça pouca é bobagem’, P
era também cego de um olho. Depois do ocorrido, quando passei a investigar sua
condição de vida, descobri que ficou cego devido a um tijolo, lançado em seu
rosto pela própria irmã mais velha num momento de fúria. Não frequentava a
escola de forma muito assídua, mas sempre que vinha todos já sabíamos que a
tarde seria complicada. Pertencia a uma família enorme, com irmãos e meio
irmãos de muitas mães e pais diferentes, seu pai estava preso e a mãe, que
raramente comparecia às convocações da escola, era viciada em drogas. O ‘santo’
de P não bateu com o meu desde a primeira vez em que nos encontramos.
Aquilo
que chamo de ‘meu estilo pedagógico’ parte sempre de um período inicial de
organização da sala e dos alunos para que juntos possamos desenvolver uma
atividade humanamente compreensível. Nunca estudei Pedagogia e nem pretendo,
acho uma chatice e até hoje não conversei com um pedagogo ou pedagoga que não
diga ou demonstre por sua incompetência ou demagogia que só aprendeu teorias
banais e impraticáveis, com exceção talvez da Montessori e alguns pontos do
Piaget. Acho também que a Pedagogia, de forma geral, insiste em não dialogar
com a Psicologia e a Neurociência e propostas absurdas, como a ‘não-alfabetização’
de crianças até 8 anos, simplesmente ignoram uma infinidade de pesquisas
científicas que destacam a imensa habilidade linguística das crianças a partir
de 3 anos de idade. Também acho completamente PSICOTIZANTE uma educação
que não priorize limites e regras básicas de convivência em sociedade. Sendo
assim, primeiro eu estruturo e organizo, depois, quando estão prontos para
isso, invisto em liberdade e individualidade. JAMAIS O CONTRÁRIO!
Afinal, como aprendi com uma excelente professora de Artes na minha primeira
escola municipal (Dri, é vc mesmo, linda!), não tem como ensinar a desconstruir
se você não ensinou primeiro a construir.
Sendo
assim, P, que vivia num universo familiar caótico e violento, reagia de
imediato a qualquer tentativa minha de estabelecer ordem em sua sala.
Foram
várias tardes difíceis e exaustivas, tanto para ele quanto para mim, mas
geralmente, lá pelas tantas, acabávamos chegando a algum tipo de acordo.
Aqui
abro um parêntese para destacar que nenhum professor, a não ser que seja um
‘sociopata’, gosta de ficar dando broncas e sendo chato, bravo e exigente o
tempo inteiro. É óbvio que seria muito mais fácil e conveniente (e acreditem,
muitos fazem isso e eu já vi) simplesmente sentar na cadeira e deixar o circo
pegar fogo! Como todo professor acaba dizendo em algum momento, já somos
formados e receberemos aquela aula de qualquer jeito, se o aluno não quiser
aprender, o problema é 100% dele. Inúmeras vezes nos sentimos lançando pérolas
para porcos, principalmente quando você descobre que o sujeitinho está de fone
de ouvido, ouvindo ‘funk putaria’ e rindo da sua cara enquanto você explica o
conteúdo, mas na real, a maioria de nós não consegue apenas abstrair e tocar o
barco até o sinal bater. Algo por dentro nos impulsiona a instar o aluno a se
abrir para o aprendizado, ainda que não tenhamos sempre estratégias brilhantes
ou sucesso - talvez autoestima, talvez consciência de que esses carinhas
sentados de costas fofocando com os amigos serão os próximos eleitores do país,
ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, sábios ou ignorantes, sejam quem
forem, serão os responsáveis por aquilo que eu e você viveremos no futuro. Isso
assusta bastante e nos faz mais conscientes de nossa imensa responsabilidade
com essa ‘ alma perdida’...rs..
Naquela
tarde em especial, P mostrava-se mais agitado que o normal. Estávamos no final
do verão e o sol entrava pela janela sem dó ou piedade, dando de cara com as
‘menininhas de rosa’[1]
da classe, que se abanavam, dizendo estar passando mal. P começou então a subir
nas carteiras e empurrar as cortinas para cima do varão, tornando impossível
que alguém pegasse as cortinas sem subir nas carteiras e deixando o sol entrar
de vez pela sala, aumentando a temperatura e o mal estar de todos uns 200%. A indignação
das outras crianças foi tanta que eu sequer conseguia chegar até onde ele
estava para fazer com que soltasse as cortinas e descesse de cima da carteira.
Depois de várias solicitações em vão, falei que chamaria sua mãe e me dirigi
para a porta. Em poucos segundos ouvi um estrondo e uma gritaria atrás de mim.
Quando me virei, P tinha descido, arrancado o tampo da carteira com as próprias
mãos e estava vindo com ele em minha direção, gritando vários palavrões, dizendo
que ninguém xingaria sua mãe e que eu iria acordar com a boca cheia de
formigas.
O barulho foi tamanho que a inspetora entrou correndo na sala. Ela e
mais 2 alunos seguraram os braços de P que espumava pela boca e tinha uma força
absurda para um menino de sua idade. Depois de terem conseguido desarmá-lo, eu
o mandei para a diretoria, mas P sentou-se em cima de uma das meninas e
recusou-se a sair. Como não podemos tocar em alunos, nem eu, nem a
vice-diretora, nem a própria diretora conseguimos retirá-lo da sala de aula.
Já
desorientados diante da impossibilidade de resolver a situação, uma vez que P
se recusava a sair e sua mãe não estava sendo encontrada, ficamos mais
perplexos ainda quando O, do 5º ano B, famoso por ser filho do chefe do tráfico
da região e que, embora tivesse suas próprias demandas comportamentais (como ter
seus próprios capangas mirins com quem, no recreio, cobrava ‘pedágio’ de
meninos menores, fingindo fumar um lápis branco com a ponta pintada de amarelo
para parecer um cigarro), gostava muito de mim, entrou pela sala a dentro,
pegou P pelo colarinho e o arrastou até a diretoria dizendo: - Onde já se viu
ameaçar professora de morte, moleque! Você vai se ver agora é comigo...
P,
que além de cego de um olho, pelo visto também era meio surdo, foi suspenso por
vários dias e acabou vindo cada vez menos para a escola. Sua situação familiar
precária acabou virando caso de conselho tutelar quando a avó, que apesar da
idade avançada, era a única a cuidar dele um pouco, faleceu. Quando passei a
dar aulas a noite não soube mais dele. Ficou só o relato dessa experiência
bizarra de um dia escaldante num 5º ano maluco.
Isso
é outro detalhe da realidade do professor: muitos alunos apenas passam por nós,
raramente guardamos deles mais que boas histórias, algum nome ou fisionomia,
mas a maioria dos alunos lembrará de seus professores, para o bem ou para o
mal. Um professor ruim pode simplesmente destruir para sempre a imagem da
escola, do processo ensino-aprendizagem e da própria aquisição de conhecimento
na mente de um aluno. E a injustiça está no fato de que a criança pode passar
por 10 professores bons, razoáveis ou pelo menos decentes, mas vai ser o ruim
que deixará as maiores impressões, SEMPRE.
A
primeira vez que vi J, ele estava chorando na porta da secretaria porque tinham
roubado seu tênis na rua da escola. Segundo soube, tratava-se de um par de
tênis muito caro, chamativo e incoerente não só com o bairro onde a escola se
localizava, mas também com a realidade de vida daquele garoto. Ainda assim,
apesar das orientações da diretora e do policial da ronda escolar a respeito
disso, dois dias depois J estava na escola outra vez, com outro par igualmente
caro.
Lembro-me
de uma professora comentando, na nossa sala, que a maior parte dos meninos que
se envolvem com tráfico de drogas não o fazem para colocar comida em casa ou
para lidar com as demandas de pobreza familiar, mas por causa de roupas de
marca, da vontade de comprar carros bons e pegar menininhas mais bonitas sem
ficar anos trabalhando como camelos para isso. O fato é que do mesmo lugar que
eles também saíam os meninos que acordavam cedo para trabalhar, ganhando quase
sempre um salário mínimo, chegando cansados e famintos na escola para jantar a
merenda e dormir nas aulas, gente honesta, do bem, batalhadora.
Na
sala de aula, J era até bastante amigável. Nunca gostei muito dos apelidos que
me dava, coisas como ‘filha de açougueiro’ e ‘professora bifinho’ soam
particularmente desrespeitosos saindo da boca de meninos maiores do que você,
mas, como ele sempre parava quando eu o repreendia, nunca dei maior importância
ao caso.
A verdade é que passei a encontrá-lo na rua da minha casa, que não era perto da escola, também na estação do metrô que eu usava e até em algumas esquinas de lugares que eu frequentava nos finais de semana.
J se mostrava sempre muito
surpreso e gentil nesses encontros, me chamava de professora e perguntava
brincando se eu o estava seguindo. Nunca mesmo imaginei nada a respeito
daquilo. Considerava mera coincidência e seguia meu caminho inocentemente,
achando engraçado.
No
ano seguinte, quando já nem estava mais lecionando no estado, recebi em casa,
da minha mãe, que na época era coordenadora lá, a notícia de que ele tinha sido
assassinado, provavelmente em algum acerto de contas do tráfico.
Mal
sabia eu que meu choque inicial pela notícia não seria nada perto do que me
seria revelado.
Entre
lágrimas que revelavam o quanto essa situação a tinha ferido, soubemos que J
passou meses chantageando-a.
Segundo
minha mãe me contou, J entrou na sala dela uma noite fingindo pedir ajuda para um
problema pessoal, fechou a porta atrás de si, fez mil elogios à minha pessoa e
à minha beleza, disse que imaginava que eu era uma filha muito querida e
especial e após minha mãe confirmar tudo isso, super orgulhosa da filha
professora, J começou a dizer que ela não fazia ideia do tipo de gente com quem
ele andava, que ele sabia onde eu morava, onde eu estudava, onde eu pegava
metrô, onde eu costumava ir para me divertir e que se minha mãe não desse
dinheiro a ele e se tentasse avisar a polícia, simplesmente ela não me veria
mais.
Não preciso nem dizer o terror a que minha mãe foi submetida nos meses que se
seguiram. Minha mãe, que é uma mulher muito inteligente e corajosa, não
conseguiu lidar com as evidências de que ele realmente poderia me machucar se
quisesse. O garoto começou pedindo pouco dinheiro, mas como viu que ela cedia,
passou a pedir cada vez mais. Minha mãe conta que o cinismo, o bom humor e a
capacidade de articulação desse menino durante as ‘negociações’ eram dignas de
um psicopata, sua voz a deixava arrepiada da cabeça aos pés. Na época meu pai
estava muito doente, com problemas cardíacos e minha mãe teve medo de contar a
ele e prejudicá-lo, também não me contou porque sabia que eu ligaria para a
polícia e tentaria resolver as coisas de forma direta, que jamais admitiria
essa chantagem absurda e ficou apavorada que ele tivesse cúmplices e a coisa
realmente acabasse em tragédia.
Só
sei que após alguns meses de chantagem e extorsão que prejudicaram
infinitamente a vida financeira da minha mãe, que obviamente não é rica, o
indivíduo foi assassinado e, seguramente, deve ter sido a primeira vez na vida
que minha mãe sentiu alívio pela morte de outro ser humano. E pensar que se
tratava apenas de um garoto! Lembro dele com tristeza e pesar, mas também com
certa gratidão, por tamanho livramento e porque esse caso me fez ficar muito
mais atenta e menos inocente na vida e na escola. A maldade está aí, mesmo no coração
das crianças, especialmente das que crescem em realidades de violência e
privação e não podemos ser tolos diante dessa realidade. Podemos e devemos fazer
tudo o que estiver ao nosso alcance para mudar essas circunstâncias promotoras
de violência, mas também podemos e devemos ser inteligentes, responsáveis, nos
proteger e nos preservar. Discurso bonito e boa intenção não resolvem anos de
deformação de caráter, nem curam psicopatia.
Como
bem disse Jesus Cristo, devemos ser simples como as pombas, mas astutos como as
serpentes.
Nem
sei que tipo de consequências isso teve no emocional da minha mãe, uma das
melhores pessoas que conheço e que jamais deveria ter sido submetida a uma
situação dessas. Tamanha injustiça só dá para depositar aos pés de Deus e pedir
que Ele seja o Vingador, como Ele realmente foi neste caso e pedir que nos
proteja de outra situação medonha como essa. Só sei que a escola em que ela
trabalha, que inclusive foi roubada alguns finais de semana atrás (levaram
praticamente tudo, só deixaram a geladeira, no meio do pátio, porque talvez não
coubesse mais nada na perua velha que usaram para o roubo), até hoje não foi
considerada perigosa o suficiente para receber ajuda especial do governo do
Estado.
Escrevo
tudo isso apenas para esclarecer que existem inimigos ainda maiores nos
atacando dentro das escolas do que a ignorância, a crise educacional ou a
pobreza que assalta boa parte dos alunos de uma escola pública. O Mal, essa
presença certa em tudo que envolve a raça humana, é sempre o primeiro a chegar
numa escola de manhã, comparecendo assiduamente nas suas mais diversas formas,
que vão desde a fofoquinha malvada da sala dos professores contra os novatos ou
contra os que causam inveja, por razões reais ou imaginárias, até as atitudes
perversas e criminosas propriamente ditas. Uma escola é um ambiente
extremamente democrático, no sentido de que ali dentro coexistem todos os tipos
de pessoas, das mais diversas origens e formações, isso acontece para o bem e
para o mal.
Acredito
que todo professor que se preze precisa exercer uma auto-crítica constante que
lhe permita neutralizar o máximo possível seu próprio potencial para o Mal.
Isso precisa acontecer não só por uma questão moral, mas também porque as
crianças aprendem muito mais com nossas atitudes do que com nossas palavras. Um
professor que é obcecado por falar sobre bulling
e ele mesmo é o maior fofoqueiro e encrenqueiro da escola, prejudicando a reputação
de vários colegas, única e exclusivamente por neurose e dificuldades de lidar
com seu ego frágil, definitivamente é o maior demagogo que se pode encontrar.
Um professor que levanta a bandeira contra o racismo, mas discrimina pessoas
simplesmente por terem uma origem e uma opinião diferente da dele é quase um
esquizofrênico em sua percepção da realidade e de si mesmo, e por aí vai...
[1]
Termo que uso para nomear as garotas de 11 anos típicas, sempre de cabelos
muito compridos, penduricalhos de toda ordem, muita maquiagem e ornamentos,
delicadas e extremamente femininas, com cadernos lindos e coloridos. Fofas, frágeis
e emotivas o tempo inteiro, ainda
brincam de bonecas e coisas de criança, embora possam escrever cartinhas de
amor para meninos e brigar por eles...kkkkk..