“...a
ficcionalidade nasce da necessidade de o homem se mostrar a si mesmo.
Consciente de sua própria natureza e, paradoxalmente, incapaz de acessá-la, a
pessoa tem na encenação a oportunidade de estar simultaneamente em si e fora de
si, o que lhe faculta vivenciar sua própria dualidade, distanciar-se de si
mesma, colocar-se em perspectiva, criar-se. (...) a constatação do
desconhecimento sobre si mesmo se fez acompanhar da percepção da ignorância
quanto ao mundo. Para avançar cognitivamente nos dois sentidos, o ser humano
sempre dependerá da ficção...”
Wolfgang Iser
Uma das coisas que mais me assusta,
na atualidade, é essa aparente crise da percepção, em detrimento de um
acelerado, quase mórbido, canceroso, na verdade, crescimento da imaginação, não
a imaginação que gera livros maravilhosos e obras de arte atemporais, que
ajudam o homem a compreender a si mesmo e a lidar com sua realidade, mas a
imaginação neurótica que visa substituir essa realidade e impedir o ser humano
de enfrentar seus medos e seus fracassos. As narrativas mais sem sentido e
notadamente falsas e incompletas, viram verdade absoluta em segundos e são
reproduzidas na fala e na crença de milhares, por meio dos posts mais duvidosos
e mais virais das redes sociais, sem ao menos um segundo para uma reflexão que
possibilite o benefício da dúvida. Verdades são tão manipuladas e utilizadas em
benefício próprio e em prol de uma agenda anterior que se tornam ‘mentiras
brancas’. Pessoas como eu, que ainda ouviram do avô a história do ‘você tem a
minha palavra de que isso é verdade’ ficam chocadas, para não dizer,
desesperançadas, ao ver que até ‘gente de bem’ tem ‘ficcionalizado’ a realidade
em causa própria, sem se dar ao trabalho, nem de verificar como, de fato, as
coisas funcionam antes de emitir julgamentos e sentenças.
O episódio mais recente das
‘narrativas convenientes’ aconteceu nesses dias pós-eleição, quando uma
deputada eleita, segundo consta preocupada com a ira advinda da frustração dos
professores de esquerda, criou um suposto (e inconstitucional)
‘disque-denúncia’ para que vítimas de ‘doutrinação ideológica’ possam denunciar
tais mestres subversivos e suas ideologias marxistas ‘tão’ poderosas que a
direita no Brasil quase elegeu seu candidato no primeiro turno. Vale aqui
destacar que a deputada em questão processou sua orientadora de mestrado por
esse motivo, sua acusação foi considerada inconsistente, sendo depois ela mesma
processada pela professora por danos morais, sendo condenada a pagar indenização
à professora (tudo isso está disponível para pesquisa na internet). Mesmo tendo
perdido em duas instâncias, basicamente sendo considerada uma mentirosa duas
vezes, a deputada insiste que ganhou no quesito pedagógico (Quem aprendeu o quê
com isso???????) Fica a pergunta para a reflexão: Seria essa a pessoa
capacitada para receber e julgar denúncias de “doutrinação marxista”?
Obviamente tal professorado marxista
existe. Na universidade em que ainda estudo cruzei com professores e colegas que
sei que estão ‘mais à esquerda’, alguns que estudam teóricos de esquerda,
alguns que analisam textos com perspectivas de esquerda, mas nunca vi nenhum
deles enfiando tais ideias ‘goela abaixo’ de nenhum aluno ou colega e nunca
tive o menor problema em estudar os teóricos e temas que me interessavam
livremente. Até onde percebo (e eu sou muito observadora e curiosa), todo mundo
está lá para estudar e produzir conhecimento sobre a área que se propôs a
conhecer e eu já estou no doutorado. Sei que existem também professores
conservadores e que eles conversam e debatem entre si e nunca vi armas na
cabeça de ninguém, nem mesmo quando algum aluno idiota escreve frases racistas
no banheiro, ou porque é racista mesmo ou porque é radical de esquerda e quer
fazer parecer que no Mackenzie todo mundo é nazista. (Sim, isso existe desde 64
e da famigerada briga entre Mackenzie e USP, quando morreu um aluno do
MACKENZIE, mas mesmo assim, por meio das tais ‘narrativas ficcionais’, ganhamos
a alcunha eterna de vilões, reaças e bla bla bla..) Engraçado que convivemos
com isso há décadas e ninguém se sentiu vitimizado, abriu processos contra a
USP, instalou câmeras para denunciar os alunos da Maria Antonia ou fica
vigiando e denunciando professores (pelo menos não ficavam, agora com o ‘escola
sem partido’, sabe-se lá, né?), vocês não acham espantoso isso? (kkkk) Digam o
que disserem, o Mackenzie hoje é uma das universidades mais democráticas do
país e posso dizer isso com propriedade porque estou lá desde o colégio, talvez
o pessoal pudesse dar um pulo lá para perguntar para professores, diretores e
reitores como se faz esse negócio funcionar. Talvez com menos ódios e mais
maturidade? Talvez simplesmente com um pouco mais de educação (e aqui cito a
palavra com todas as suas possibilidades semânticas).
Na minha atual experiência
profissional na escola básica, a galera ‘mais à esquerda’ costuma formar
pequenos guetos que parecem se sentir constantemente perseguidos e ofendidos
por todos os tipos de “...fobias”, criando uma agenda anti-bulling e de diversidade cultural e que acha fundamental
reunir alunos a partir de 11 anos para debater temas afins e introduzir alguns
aspectos de sexualidade que, eu particularmente, acho meio inadequados para
alunos tão jovens. Em geral, esse grupo é composto por uma galera um pouco
tensa, obcecada por política, um tanto persecutória, bastante desagradável com
colegas que pensam de forma diferente (com exceções) e que, como já disse em
textos anteriores, revela um repertório meio reduzido, de modo que, se lecionam
disciplinas de humanas, tendem a ter um discurso bem monotemático e com uma
perspectiva perena de luta de classes. Em resumo, são chatos pacas! Mas até
alunos de 9º.ano que percebem isso, discordam ou desencanam e quando encontram
professores que tem outros pontos de vista perguntam bastante, compartilham
ideias e pedem dicas de literatura, vídeos na internet e filmes. Se alunos tão
jovens conseguem lidar com isso, por que universitários não conseguem? Para
casos mais graves, de sandice por parte do professor, o aluno pode recorrer à
diretoria da escola, à delegacia de ensino, à secretaria de ensino, ao MEC e se
a coisa ficar realmente séria, até ao Ministério Público. Esse pessoal do ‘disque-denúncia’
não sabe disso? Ou eles têm dificuldade para respeitar a decisão de juízes
quando não concordam com eles? Seriam os deputados jovens vítimas da síndrome
do “Podres de Mimados”? Só sabem respeitar hierarquias quando eles mesmos são a
autoridade? Ainda bem que o próximo presidente é militar e não terá problemas
em ensinar essa garotada a respeitar autoridades, né?
Claro que não acho essa situação
ideal, mas o que é o ideal? Ideal seria que todo mundo estudasse muito mais e
sem preguiça. Que as aulas acontecessem dentro da normalidade e que os
professores pudessem ensinar conteúdos de uma forma completa e organizada. Que
fosse totalmente normal a gente ensinar e debater com alunos que copiam a
matéria, estudam em casa e têm prazer em aprender, como acontecia comigo e com
a maioria dos meus colegas há 20, 30 anos atrás, mas essa realidade escolar já
é lendária faz muito tempo. Se a gente consegue passar as linhas gerais de
qualquer conteúdo é uma glória. Para vcs terem idéia faz duas semanas que estou
tentando incluir no meu projeto com as salas de 5º.s e 7º.s uma teoria
consistente sobre Pontuação...DUAS SEMANAS! Lembro aqui de uma prova de
Literatura de aluno de 1º.ano médio na escola particular, onde após um longo
mês de Barroco (que adoro e me esmerei muito no preparo e explanação das aulas),
um sujeitinho me respondeu na prova (de Literatura) que Padre Vieira foi o
maior representante da reforma protestante ao pregar seus sermões na capela de
Westminster. Até hoje nem eu, nem o professor de história sabemos como ele
construiu esse surpreendente amálgama teórico....Daí você realmente acha que o
professorzinho marxista tem toda o sucesso do mundo em ensinar doutrinas?
Pessoas, não, ele não tem, viu? Ninguém está ensinando quase nada!
Daí a galera chega com essa super
solução para o suposto MEGA problema da doutrinação na educação básica: Ensinar
crianças e adolescentes a virarem ‘dedos-duros’. A filmarem escondido
professores que eles já tem uma imensa dificuldade em respeitar no dia-a-dia. E
que eles não respeitam não por demérito do professor, mas em geral,
simplesmente porque não foram ensinados a respeitar os mais velhos.
Principalmente porque os pais deles também não acham relevante respeitar os
mais velhos, porque também é discurso corrente que se o sujeito é velho e louco
ou burro não merece ser respeitado. E já fazendo o advogado do diabo: Quem
decide se o velho é louco e burro? O jovem? #prarefletir (Para o cristão:
Lembra daquele mandamento com promessa? Lembra dos textos bíblicos que falam
sobre ‘cãs’ e coisa e tal? Então..) Uma sociedade em que professores são
tratados como qualquer vagabundo já acabou enquanto civilização! Se você acha
que os professores estão mal formados, são incompetentes, precisam atuar melhor
e tudo mais, cobre mais, crie meios de melhorar a formação dos docentes (e
precisamos mesmo disso, desesperadamente!), mas não deprecie a categoria, pelo
contrário, valorize-a ao ponto de que só reais professores possam dar aula. O
contrário é um tiro de bazuca no pé do seu país. Não se esqueça do exemplo do
Japão onde o único profissional que não se curva ao imperador é o professor e
onde os idosos são reverenciados. Nunca pensei que seria necessário dizer
isso para quem brada aos quatro ventos seu conservadorismo militante!
Sobre a realidade:
Ontem dei muita risada vendo um
vídeo de um referencial teórico que considero até muito interessante, mas que
às vezes é de uma obtusidade ímpar, como qualquer um de nós quando fala sem
refletir, no qual a interpretação para a reação negativa da maioria dos
professores ao ‘disque-denúncia’ seria uma necessidade de ‘privacidade’ que é
incabível no ensino público. Além de provavelmente não ter lido as discussões
de intelectuais (muitos de direita, inclusive), professores e cidadãos
preocupados com a questão da educação, tecendo os mais elucidativos argumentos
de porque esse ‘disque-denúncia’ foi, sendo simples e gentil, uma baita ‘ideia
de jerico’ nascida da precipitação e do despreparo da juventude, essa fala
revela claramente um TOTAL desconhecimento do que ocorre dentro de uma escola,
especialmente uma pública. EXISTEM SIM CÂMERAS dentro da escola pública. Nos
portões, nos corredores, muitas vezes dentro das salas de aula e elas estão lá
por uma razão muito mais importante do que controlar o ímpeto idealista de um
ou outro professor. Elas estão lá por motivos de SEGURANÇA. E eu asseguro que
todos os professores, gestores, diretores e alunos do bem ficam felicíssimos
quando elas não estão quebradas e funcionam de verdade (o que é raro!). Você,
amigo inocente, pode não compreender essa necessidade, então eu esclareço: Toda
escola pública é obrigada por lei a aceitar a matrícula de qualquer ser humano,
dentro de determinada faixa etária, que deseje estudar naquela escola,
inclusive dos alunos de L.A. (liberdade assistida) que vêm diretamente
direcionados pela delegacia de ensino. Eu já dei aulas para crianças nessas
condições e afirmo que muitas realmente querem uma nova oportunidade na vida e
fazem por merecer essa chance, mas é óbvio que muitos continuam sendo bandidos
e vão para a escola unicamente para ampliar o acesso do tráfico e infernizar a
já tão complexa dinâmica escolar. Para tornar a situação um pouco mais
dramática, numa decisão governamental recente, você não pode mais escolher a
escola do município em que vai matricular seu filho, isso vai acontecer por
endereço, o que significa que ele pode ir parar em qualquer escola, desde que
seja perto da sua casa. Você, como pai, se depende de escola pública, não
poderá escolher a comunidade escolar em que seu filho vai estudar! Não sei se
vcs sabem, mas existe hoje um carro de policiais responsáveis pela ronda
escolar para cada 10, 12 escolas, às vezes até mais! Coisas absurdas acontecem
todos os dias dentro dessas unidades escolares, desde incêncios provocados
intencionalmente a alunos usando drogas nos banheiros, brigas violentas,
enfrentamentos entre alunos e professores, entre alunos e alunos e etc... Já
presenciei briga entre meninas onde uma delas teve a calça arrancada e a bunda
arrastada até o asfalto da rua. Parece surreal e é! Sendo assim, PRECISAMOS
DESSE MONITORAMENTO POR MOTIVOS DE SEGURANÇA!
Logo, ninguém aqui está se opondo a
essa política de censura por motivos de ‘privacidade’. A questão é que existe
uma diferença brutal entre ser monitorado por motivos de segurança, sabendo do
fato e permitindo essas gravações e ser filmado por alunos ressentidos, mimados
e desrespeitosos, que o farão por motivos de ódio, editando gravações a revelia
para poderem afirmar suas próprias narrativas ou até forjando provas falsas
contra professores (como já vi acontecer por outras razões que não ‘doutrinação
ideológica’). E aqui me espanta a ingenuidade (ou mal caratismo?) de pessoas
que acreditam que pelo simples fato de um ser humano não professar uma crença
política de esquerda, já é automaticamente um poço absoluto de virtudes e
merece credibilidade instantânea, mesmo que do outro lado esteja um professor
com décadas no magistério.
Faz tempo já que ouço, vejo e
assisto discursos de depreciação à escola, à Universidade, ao ensino formal em
geral. Engraçado que esse tipo de gente nunca fez absolutamente NADA de
concreto em prol de mudar os problemas que de fato existem. E aqui ‘colo’ de
mim mesma dois pequenos posts recentes do Facebook, escritos num momento de
particular revolta íntima:
“Onde é que estavam os pais quando instalaram essa merda de progressão
continuada? Alguns sequer sabem o que é isso ou que foi essa idéia que
desconstruiu a escola no Brasil. Onde estavam os pais quando implantaram essa
merda de política de Inclusão, fecharam as escolas especiais e enfiaram as
crianças deficientes nas escolas públicas sem nenhuma estrutura, inviabilizando
tanto a educação deles quanto a dos outros? Alguns pais provavelmente gostaram
da conveniência de não ter mais que ajudar o
filho (deficiente ou não, porque ninguém mais estuda) com tarefas de casa
cansativas. Onde estavam os pais quando o nível da educação decaiu a tal ponto
da galera sair analfabeta do ensino médio? Alguns sequer sabem o último livro
que eles mesmos leram. Onde estavam os pais quando começaram a incluir no
conteúdo das aulas um troço sequer comprovado ou reconhecido pela Ciência,
chamado 'ideologia de gênero'? Alguns sequer sabem o que os filhos andam lendo,
vendo na TV ou acessando na Internet. Alguns sequer vêm os filhos regularmente.
Onde estavam os pais? Agora todo o problema da educação brasileira é um bando
de professor neurótico que acha que dar aula é doutrinação marxista. Lembrando
que não são maioria, afinal, opiniões políticas à parte, tirando um ou outro
professor da área de Humanas sem vida pessoal, a maioria tem sequer contexto
dentro de uma aula para isso (Queria saber como professor de desenho geométrico
faz doutrinação política kkkkk). Solução para o problema? Ensina todo mundo a
virar 'dedo-duro". Faz seu filho ser um mal caráter que grava pessoas as
escondidas. Confia na boa intenção e na sensatez de todo aluno adolescente, até
do despeitado. Trata tudo que é professor que nem vagabundo. Transforma tudo
que é debate em doutrinação. Faz de todo aluno frustrado ou contrariado um
juiz. Destrói toda a relação de hierarquia dentro de uma escola e vai
acreditando mesmo que isso fará do Brasil um país mais civilizado, colocando as
regras nas mãos de um monte de ignorantes oportunistas que NUNCA antes se
importaram com a educação dos filhos na vida. Não se rio ou se choro!”
“E já que estamos sendo sinceros, os professores são sim cúmplices dessa
droga toda, mas não por causa de uma conspiração pró-doutrinação marxista que
mais parece livro do Dan Brown, mas por ter engolido a seco todas essas
políticas de emburrecimento maciço da população sem fazer absolutamente NADA.
Galera só sai na rua para fazer greve e tomar tiro de borracha quando mexem no
bolso e nem pra isso lutamos direito porque a maioria ganha um salário de
merda...#prontofalei #professoradobundamole”
Observo entre os mais religiosos uma
verdadeira adoração pelo Homeschooling (
e deixo claro aqui meu posicionamento A
FAVOR dele, compreendo muito os pais que optam por ele e fico particularmente
feliz pelos que tem condições de aplicá-lo), mas sendo bem realista, se os pais
da maioria da população brasileira sequer conseguiram se envolver o suficiente
na educação dos filhos para que a franca decadência que acometeu a escola fosse
evitada, como irão optar por Homeschooling?
Se a maioria da população brasileira sequer consegue educar-se a si mesma, como
poderão optar por Homeschooling? Então,
galera, está mais do que na hora de parar de romantizar certas coisas, de parar
de ficcionalizar a realidade por motivos errados, encará-la e começar a assumir
nossa responsabilidade em tudo que tem acontecido. Existe doutrinação marxista?
Existe sim e é culpa nossa se nossos filhos não sabem se defender disso! Você
pai saberia se defender disso? Ou você fica só repetindo discurso de outros sem
saber profundamente no que você de fato crê e defende (isso também não é
doutrinação?). Ficamos décadas abduzidos numa pseudo-democracia onde a esquerda
fez por deitar e rolar, chegando a surpreender com suas artimanhas até a
esquerda das antigas (vide entrevistas com o Fernando Gabeira, por exemplo...)?
Sim e é culpa nossa e da nossa resistência letárgica a estudar, a trabalhar
para o bem da comunidade, a criar condições para ser útil, a assumir cargos
públicos para servir o país (não para roubar), a parar de criar guetinhos religiosos
que imobilizam nossa atuação democrática no país (ex: briguinhas de católicos x
protestantes, radicalismos e etc..), a enfiar a mão na massa e ir enfrentar
sala de aula (como os ‘esquerdistas’ têm feito há décadas, aceitando baixos
salários e péssimas condições de trabalho. Muitos de vcs deveriam, inclusive,
ser gratos, porque para muitas crianças a única referência de conhecimento e
cultura têm sido esses ‘famigerados’ esquerdistas, porque os tais pais da
‘classe média conservadora’ acham um pé no saco ter que ajudar o filho a fazer
tarefa de casa no final de semana e vão atazanar a professora em reunião de
pais para parar de enviá-las....) e a assumir os encargos de ser bons
despenseiros, em vez de pensar só no próprio umbigo, na própria paroquiazinha, onde
muitos ficam sentados, falando mal uns dos outros e esperando o Juízo Final,
enquanto a Missão na terra aqui está indo pra cucuia...
Ontem vi um intelectual (e não cito
nomes de ninguém aqui nunca, então...) se perguntar num vídeo porque não
existiam universidades conservadoras no Brasil ( e existem sim, mas são
democráticas, conceito largamente desconhecido, pelo visto inclusive entre nós
conservadores e que precisa ser retomado com urgência) e hoje li uma entrevista
em que um outro intelectual se pergunta porque temos tão poucos professores
conservadores nas universidade e nas escolas. A resposta me parece muito
simples: Não temos porque estamos faz décadas ouvindo discursos depreciadores
dessas instâncias e porque, como os conservadores são na maioria religiosos,
tudo que diz respeito à cultura e ao conhecimento secular é visto como espécie de
perda de tempo ou ameaça (fenômeno esse que só vi até hoje aqui no Brasil. Lá
fora, tanto católicos como protestantes, sempre são expoentes na academia, na
arte, na cultura, na política e etc....Aqui parece que ser religioso virou
sinônimo de preguiça mental, comodismo e ignorância. Alguém me explica o
motivo?). De modo geral, até temos entre os conservadores médicos, engenheiros,
técnicos da área de exatas, militares, mas são muito poucos os que se dedicam a áreas de humanas e querendo admitir ou não, são os caras de humanas que
promovem debates políticos, existenciais, filosóficos, psicológicos,
pedagógicos e etc...Enquanto seguirmos defendendo a ideia de que a escola não
serve para nada, de que a universidade só forma marxista e incrédulo, de que estudar
humanas é perda de tempo e/ou perigoso para a cabeça e para alma e etc...continuaremos
sem pessoas preparadas para assumir escolas, cátedras de universidades e postos
políticos e diplomáticos (sim porque não dá para lidar com pessoas honestas na
base da censura, da arma na cabeça, da ameaça e da repetição de palavrões e
frases de efeito e a maioria da população do Brasil ainda é formada por gente
honesta). Gostemos ou não - e o vídeozinho que vi ontem deixa isso bem claro ao
falar dos dois partidos políticos que existem nos EUA - sempre teremos que
conviver com as diferenças!
Por
outro lado, na vida real, hoje mesmo uma aluna de 5º.ano veio me procurar super
nervosa porque tem sentido dores fortes no abdômen e nas costas, acha que está
prestes a ficar mocinha e não quer conversar sobre isso com a mãe, que é
professora em escola particular, porque ano passado contou a ela que estava
gostando de um menino e apanhou. “Imagine se eu contar a ela que fiquei
menstruada? Como vou perguntar dessas coisas de sexo para a minha mãe?” Na hora
me dei conta de como eu já estou ficando confusa sobre meu papel na vida dos
meus alunos. Obviamente eu posso conversar com ela sobre isso e se fosse ano
passado eu teria feito sem crise. Além de tudo, eu sou psicóloga, ainda por
cima especializada em crianças e adolescentes! Mas será que essa família quer
que eu oriente essa menina? De que forma esses pais vão compreender essa
‘conversa sobre sexo’? Se eu chamar a mãe para conversar e explicar a
dificuldade da filha ela vai me ouvir e ajudar a menina ou vai bater nela de
novo? Será que quem está fora da escola tem a dimensão de que esse ambiente é
um organismo vivo, repleto de dramas, tragédias, comédias e poesias humanas?
Será que avaliam que professores acompanham o crescimento e a jornada dessas
crianças, durante todos os dias letivos por anos? Será que percebem que existem
sentimentos, vínculos afetivos, trocas constantes e que tudo isso, além das
disciplinas curriculares, faz parte do desenvolvimento de uma criança? Será que
os pais realmente estão preocupados com a educação dos filhos nesses movimentos
políticos? E se eu contar para vocês que mães de um desses movimentos ficaram
tirando fotos em cima do muro da escola e acusaram de tráfico de drogas um
menino que estava passando desodorante? Narrativas ficcionais só são
interessantes na ficção, gente! Quando utilizadas para definir a realidade elas
não passam de neurose e como toda neurose são altamente prejudiciais.