quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Precisamos falar sobre as câmeras...




“...a ficcionalidade nasce da necessidade de o homem se mostrar a si mesmo. Consciente de sua própria natureza e, paradoxalmente, incapaz de acessá-la, a pessoa tem na encenação a oportunidade de estar simultaneamente em si e fora de si, o que lhe faculta vivenciar sua própria dualidade, distanciar-se de si mesma, colocar-se em perspectiva, criar-se. (...) a constatação do desconhecimento sobre si mesmo se fez acompanhar da percepção da ignorância quanto ao mundo. Para avançar cognitivamente nos dois sentidos, o ser humano sempre dependerá da ficção...”
 Wolfgang Iser

Uma das coisas que mais me assusta, na atualidade, é essa aparente crise da percepção, em detrimento de um acelerado, quase mórbido, canceroso, na verdade, crescimento da imaginação, não a imaginação que gera livros maravilhosos e obras de arte atemporais, que ajudam o homem a compreender a si mesmo e a lidar com sua realidade, mas a imaginação neurótica que visa substituir essa realidade e impedir o ser humano de enfrentar seus medos e seus fracassos. As narrativas mais sem sentido e notadamente falsas e incompletas, viram verdade absoluta em segundos e são reproduzidas na fala e na crença de milhares, por meio dos posts mais duvidosos e mais virais das redes sociais, sem ao menos um segundo para uma reflexão que possibilite o benefício da dúvida. Verdades são tão manipuladas e utilizadas em benefício próprio e em prol de uma agenda anterior que se tornam ‘mentiras brancas’. Pessoas como eu, que ainda ouviram do avô a história do ‘você tem a minha palavra de que isso é verdade’ ficam chocadas, para não dizer, desesperançadas, ao ver que até ‘gente de bem’ tem ‘ficcionalizado’ a realidade em causa própria, sem se dar ao trabalho, nem de verificar como, de fato, as coisas funcionam antes de emitir julgamentos e sentenças.
            
            O episódio mais recente das ‘narrativas convenientes’ aconteceu nesses dias pós-eleição, quando uma deputada eleita, segundo consta preocupada com a ira advinda da frustração dos professores de esquerda, criou um suposto (e inconstitucional) ‘disque-denúncia’ para que vítimas de ‘doutrinação ideológica’ possam denunciar tais mestres subversivos e suas ideologias marxistas ‘tão’ poderosas que a direita no Brasil quase elegeu seu candidato no primeiro turno. Vale aqui destacar que a deputada em questão processou sua orientadora de mestrado por esse motivo, sua acusação foi considerada inconsistente, sendo depois ela mesma processada pela professora por danos morais, sendo condenada a pagar indenização à professora (tudo isso está disponível para pesquisa na internet). Mesmo tendo perdido em duas instâncias, basicamente sendo considerada uma mentirosa duas vezes, a deputada insiste que ganhou no quesito pedagógico (Quem aprendeu o quê com isso???????) Fica a pergunta para a reflexão: Seria essa a pessoa capacitada para receber e julgar denúncias de “doutrinação marxista”?

            Obviamente tal professorado marxista existe. Na universidade em que ainda estudo cruzei com professores e colegas que sei que estão ‘mais à esquerda’, alguns que estudam teóricos de esquerda, alguns que analisam textos com perspectivas de esquerda, mas nunca vi nenhum deles enfiando tais ideias ‘goela abaixo’ de nenhum aluno ou colega e nunca tive o menor problema em estudar os teóricos e temas que me interessavam livremente. Até onde percebo (e eu sou muito observadora e curiosa), todo mundo está lá para estudar e produzir conhecimento sobre a área que se propôs a conhecer e eu já estou no doutorado. Sei que existem também professores conservadores e que eles conversam e debatem entre si e nunca vi armas na cabeça de ninguém, nem mesmo quando algum aluno idiota escreve frases racistas no banheiro, ou porque é racista mesmo ou porque é radical de esquerda e quer fazer parecer que no Mackenzie todo mundo é nazista. (Sim, isso existe desde 64 e da famigerada briga entre Mackenzie e USP, quando morreu um aluno do MACKENZIE, mas mesmo assim, por meio das tais ‘narrativas ficcionais’, ganhamos a alcunha eterna de vilões, reaças e bla bla bla..) Engraçado que convivemos com isso há décadas e ninguém se sentiu vitimizado, abriu processos contra a USP, instalou câmeras para denunciar os alunos da Maria Antonia ou fica vigiando e denunciando professores (pelo menos não ficavam, agora com o ‘escola sem partido’, sabe-se lá, né?), vocês não acham espantoso isso? (kkkk) Digam o que disserem, o Mackenzie hoje é uma das universidades mais democráticas do país e posso dizer isso com propriedade porque estou lá desde o colégio, talvez o pessoal pudesse dar um pulo lá para perguntar para professores, diretores e reitores como se faz esse negócio funcionar. Talvez com menos ódios e mais maturidade? Talvez simplesmente com um pouco mais de educação (e aqui cito a palavra com todas as suas possibilidades semânticas).
          
         Na minha atual experiência profissional na escola básica, a galera ‘mais à esquerda’ costuma formar pequenos guetos que parecem se sentir constantemente perseguidos e ofendidos por todos os tipos de “...fobias”, criando uma agenda anti-bulling e de diversidade cultural e que acha fundamental reunir alunos a partir de 11 anos para debater temas afins e introduzir alguns aspectos de sexualidade que, eu particularmente, acho meio inadequados para alunos tão jovens. Em geral, esse grupo é composto por uma galera um pouco tensa, obcecada por política, um tanto persecutória, bastante desagradável com colegas que pensam de forma diferente (com exceções) e que, como já disse em textos anteriores, revela um repertório meio reduzido, de modo que, se lecionam disciplinas de humanas, tendem a ter um discurso bem monotemático e com uma perspectiva perena de luta de classes. Em resumo, são chatos pacas! Mas até alunos de 9º.ano que percebem isso, discordam ou desencanam e quando encontram professores que tem outros pontos de vista perguntam bastante, compartilham ideias e pedem dicas de literatura, vídeos na internet e filmes. Se alunos tão jovens conseguem lidar com isso, por que universitários não conseguem? Para casos mais graves, de sandice por parte do professor, o aluno pode recorrer à diretoria da escola, à delegacia de ensino, à secretaria de ensino, ao MEC e se a coisa ficar realmente séria, até ao Ministério Público. Esse pessoal do ‘disque-denúncia’ não sabe disso? Ou eles têm dificuldade para respeitar a decisão de juízes quando não concordam com eles? Seriam os deputados jovens vítimas da síndrome do “Podres de Mimados”? Só sabem respeitar hierarquias quando eles mesmos são a autoridade? Ainda bem que o próximo presidente é militar e não terá problemas em ensinar essa garotada a respeitar autoridades, né?
            
            Claro que não acho essa situação ideal, mas o que é o ideal? Ideal seria que todo mundo estudasse muito mais e sem preguiça. Que as aulas acontecessem dentro da normalidade e que os professores pudessem ensinar conteúdos de uma forma completa e organizada. Que fosse totalmente normal a gente ensinar e debater com alunos que copiam a matéria, estudam em casa e têm prazer em aprender, como acontecia comigo e com a maioria dos meus colegas há 20, 30 anos atrás, mas essa realidade escolar já é lendária faz muito tempo. Se a gente consegue passar as linhas gerais de qualquer conteúdo é uma glória. Para vcs terem idéia faz duas semanas que estou tentando incluir no meu projeto com as salas de 5º.s e 7º.s uma teoria consistente sobre Pontuação...DUAS SEMANAS! Lembro aqui de uma prova de Literatura de aluno de 1º.ano médio na escola particular, onde após um longo mês de Barroco (que adoro e me esmerei muito no preparo e explanação das aulas), um sujeitinho me respondeu na prova (de Literatura) que Padre Vieira foi o maior representante da reforma protestante ao pregar seus sermões na capela de Westminster. Até hoje nem eu, nem o professor de história sabemos como ele construiu esse surpreendente amálgama teórico....Daí você realmente acha que o professorzinho marxista tem toda o sucesso do mundo em ensinar doutrinas? Pessoas, não, ele não tem, viu? Ninguém está ensinando quase nada!

            Daí a galera chega com essa super solução para o suposto MEGA problema da doutrinação na educação básica: Ensinar crianças e adolescentes a virarem ‘dedos-duros’. A filmarem escondido professores que eles já tem uma imensa dificuldade em respeitar no dia-a-dia. E que eles não respeitam não por demérito do professor, mas em geral, simplesmente porque não foram ensinados a respeitar os mais velhos. Principalmente porque os pais deles também não acham relevante respeitar os mais velhos, porque também é discurso corrente que se o sujeito é velho e louco ou burro não merece ser respeitado. E já fazendo o advogado do diabo: Quem decide se o velho é louco e burro? O jovem? #prarefletir (Para o cristão: Lembra daquele mandamento com promessa? Lembra dos textos bíblicos que falam sobre ‘cãs’ e coisa e tal? Então..) Uma sociedade em que professores são tratados como qualquer vagabundo já acabou enquanto civilização! Se você acha que os professores estão mal formados, são incompetentes, precisam atuar melhor e tudo mais, cobre mais, crie meios de melhorar a formação dos docentes (e precisamos mesmo disso, desesperadamente!), mas não deprecie a categoria, pelo contrário, valorize-a ao ponto de que só reais professores possam dar aula. O contrário é um tiro de bazuca no pé do seu país. Não se esqueça do exemplo do Japão onde o único profissional que não se curva ao imperador é o professor e onde os idosos são reverenciados. Nunca pensei que seria necessário dizer isso para quem brada aos quatro ventos seu conservadorismo militante!

            Sobre a realidade:
            Ontem dei muita risada vendo um vídeo de um referencial teórico que considero até muito interessante, mas que às vezes é de uma obtusidade ímpar, como qualquer um de nós quando fala sem refletir, no qual a interpretação para a reação negativa da maioria dos professores ao ‘disque-denúncia’ seria uma necessidade de ‘privacidade’ que é incabível no ensino público. Além de provavelmente não ter lido as discussões de intelectuais (muitos de direita, inclusive), professores e cidadãos preocupados com a questão da educação, tecendo os mais elucidativos argumentos de porque esse ‘disque-denúncia’ foi, sendo simples e gentil, uma baita ‘ideia de jerico’ nascida da precipitação e do despreparo da juventude, essa fala revela claramente um TOTAL desconhecimento do que ocorre dentro de uma escola, especialmente uma pública. EXISTEM SIM CÂMERAS dentro da escola pública. Nos portões, nos corredores, muitas vezes dentro das salas de aula e elas estão lá por uma razão muito mais importante do que controlar o ímpeto idealista de um ou outro professor. Elas estão lá por motivos de SEGURANÇA. E eu asseguro que todos os professores, gestores, diretores e alunos do bem ficam felicíssimos quando elas não estão quebradas e funcionam de verdade (o que é raro!). Você, amigo inocente, pode não compreender essa necessidade, então eu esclareço: Toda escola pública é obrigada por lei a aceitar a matrícula de qualquer ser humano, dentro de determinada faixa etária, que deseje estudar naquela escola, inclusive dos alunos de L.A. (liberdade assistida) que vêm diretamente direcionados pela delegacia de ensino. Eu já dei aulas para crianças nessas condições e afirmo que muitas realmente querem uma nova oportunidade na vida e fazem por merecer essa chance, mas é óbvio que muitos continuam sendo bandidos e vão para a escola unicamente para ampliar o acesso do tráfico e infernizar a já tão complexa dinâmica escolar. Para tornar a situação um pouco mais dramática, numa decisão governamental recente, você não pode mais escolher a escola do município em que vai matricular seu filho, isso vai acontecer por endereço, o que significa que ele pode ir parar em qualquer escola, desde que seja perto da sua casa. Você, como pai, se depende de escola pública, não poderá escolher a comunidade escolar em que seu filho vai estudar! Não sei se vcs sabem, mas existe hoje um carro de policiais responsáveis pela ronda escolar para cada 10, 12 escolas, às vezes até mais! Coisas absurdas acontecem todos os dias dentro dessas unidades escolares, desde incêncios provocados intencionalmente a alunos usando drogas nos banheiros, brigas violentas, enfrentamentos entre alunos e professores, entre alunos e alunos e etc... Já presenciei briga entre meninas onde uma delas teve a calça arrancada e a bunda arrastada até o asfalto da rua. Parece surreal e é! Sendo assim, PRECISAMOS DESSE MONITORAMENTO POR MOTIVOS DE SEGURANÇA!

            Logo, ninguém aqui está se opondo a essa política de censura por motivos de ‘privacidade’. A questão é que existe uma diferença brutal entre ser monitorado por motivos de segurança, sabendo do fato e permitindo essas gravações e ser filmado por alunos ressentidos, mimados e desrespeitosos, que o farão por motivos de ódio, editando gravações a revelia para poderem afirmar suas próprias narrativas ou até forjando provas falsas contra professores (como já vi acontecer por outras razões que não ‘doutrinação ideológica’). E aqui me espanta a ingenuidade (ou mal caratismo?) de pessoas que acreditam que pelo simples fato de um ser humano não professar uma crença política de esquerda, já é automaticamente um poço absoluto de virtudes e merece credibilidade instantânea, mesmo que do outro lado esteja um professor com décadas no magistério.

            Faz tempo já que ouço, vejo e assisto discursos de depreciação à escola, à Universidade, ao ensino formal em geral. Engraçado que esse tipo de gente nunca fez absolutamente NADA de concreto em prol de mudar os problemas que de fato existem. E aqui ‘colo’ de mim mesma dois pequenos posts recentes do Facebook, escritos num momento de particular revolta íntima:

“Onde é que estavam os pais quando instalaram essa merda de progressão continuada? Alguns sequer sabem o que é isso ou que foi essa idéia que desconstruiu a escola no Brasil. Onde estavam os pais quando implantaram essa merda de política de Inclusão, fecharam as escolas especiais e enfiaram as crianças deficientes nas escolas públicas sem nenhuma estrutura, inviabilizando tanto a educação deles quanto a dos outros? Alguns pais provavelmente gostaram da conveniência de não ter mais que ajudar o filho (deficiente ou não, porque ninguém mais estuda) com tarefas de casa cansativas. Onde estavam os pais quando o nível da educação decaiu a tal ponto da galera sair analfabeta do ensino médio? Alguns sequer sabem o último livro que eles mesmos leram. Onde estavam os pais quando começaram a incluir no conteúdo das aulas um troço sequer comprovado ou reconhecido pela Ciência, chamado 'ideologia de gênero'? Alguns sequer sabem o que os filhos andam lendo, vendo na TV ou acessando na Internet. Alguns sequer vêm os filhos regularmente. Onde estavam os pais? Agora todo o problema da educação brasileira é um bando de professor neurótico que acha que dar aula é doutrinação marxista. Lembrando que não são maioria, afinal, opiniões políticas à parte, tirando um ou outro professor da área de Humanas sem vida pessoal, a maioria tem sequer contexto dentro de uma aula para isso (Queria saber como professor de desenho geométrico faz doutrinação política kkkkk). Solução para o problema? Ensina todo mundo a virar 'dedo-duro". Faz seu filho ser um mal caráter que grava pessoas as escondidas. Confia na boa intenção e na sensatez de todo aluno adolescente, até do despeitado. Trata tudo que é professor que nem vagabundo. Transforma tudo que é debate em doutrinação. Faz de todo aluno frustrado ou contrariado um juiz. Destrói toda a relação de hierarquia dentro de uma escola e vai acreditando mesmo que isso fará do Brasil um país mais civilizado, colocando as regras nas mãos de um monte de ignorantes oportunistas que NUNCA antes se importaram com a educação dos filhos na vida. Não se rio ou se choro!”

“E já que estamos sendo sinceros, os professores são sim cúmplices dessa droga toda, mas não por causa de uma conspiração pró-doutrinação marxista que mais parece livro do Dan Brown, mas por ter engolido a seco todas essas políticas de emburrecimento maciço da população sem fazer absolutamente NADA. Galera só sai na rua para fazer greve e tomar tiro de borracha quando mexem no bolso e nem pra isso lutamos direito porque a maioria ganha um salário de merda...#prontofalei #professoradobundamole

            Observo entre os mais religiosos uma verdadeira adoração pelo Homeschooling ( e deixo claro aqui meu     posicionamento A FAVOR dele, compreendo muito os pais que optam por ele e fico particularmente feliz pelos que tem condições de aplicá-lo), mas sendo bem realista, se os pais da maioria da população brasileira sequer conseguiram se envolver o suficiente na educação dos filhos para que a franca decadência que acometeu a escola fosse evitada, como irão optar por Homeschooling? Se a maioria da população brasileira sequer consegue educar-se a si mesma, como poderão optar por Homeschooling? Então, galera, está mais do que na hora de parar de romantizar certas coisas, de parar de ficcionalizar a realidade por motivos errados, encará-la e começar a assumir nossa responsabilidade em tudo que tem acontecido. Existe doutrinação marxista? Existe sim e é culpa nossa se nossos filhos não sabem se defender disso! Você pai saberia se defender disso? Ou você fica só repetindo discurso de outros sem saber profundamente no que você de fato crê e defende (isso também não é doutrinação?). Ficamos décadas abduzidos numa pseudo-democracia onde a esquerda fez por deitar e rolar, chegando a surpreender com suas artimanhas até a esquerda das antigas (vide entrevistas com o Fernando Gabeira, por exemplo...)? Sim e é culpa nossa e da nossa resistência letárgica a estudar, a trabalhar para o bem da comunidade, a criar condições para ser útil, a assumir cargos públicos para servir o país (não para roubar), a parar de criar guetinhos religiosos que imobilizam nossa atuação democrática no país (ex: briguinhas de católicos x protestantes, radicalismos e etc..), a enfiar a mão na massa e ir enfrentar sala de aula (como os ‘esquerdistas’ têm feito há décadas, aceitando baixos salários e péssimas condições de trabalho. Muitos de vcs deveriam, inclusive, ser gratos, porque para muitas crianças a única referência de conhecimento e cultura têm sido esses ‘famigerados’ esquerdistas, porque os tais pais da ‘classe média conservadora’ acham um pé no saco ter que ajudar o filho a fazer tarefa de casa no final de semana e vão atazanar a professora em reunião de pais para parar de enviá-las....) e a assumir os encargos de ser bons despenseiros, em vez de pensar só no próprio umbigo, na própria paroquiazinha, onde muitos ficam sentados, falando mal uns dos outros e esperando o Juízo Final, enquanto a Missão na terra aqui está indo pra cucuia...

            Ontem vi um intelectual (e não cito nomes de ninguém aqui nunca, então...) se perguntar num vídeo porque não existiam universidades conservadoras no Brasil ( e existem sim, mas são democráticas, conceito largamente desconhecido, pelo visto inclusive entre nós conservadores e que precisa ser retomado com urgência) e hoje li uma entrevista em que um outro intelectual se pergunta porque temos tão poucos professores conservadores nas universidade e nas escolas. A resposta me parece muito simples: Não temos porque estamos faz décadas ouvindo discursos depreciadores dessas instâncias e porque, como os conservadores são na maioria religiosos, tudo que diz respeito à cultura e ao conhecimento secular é visto como espécie de perda de tempo ou ameaça (fenômeno esse que só vi até hoje aqui no Brasil. Lá fora, tanto católicos como protestantes, sempre são expoentes na academia, na arte, na cultura, na política e etc....Aqui parece que ser religioso virou sinônimo de preguiça mental, comodismo e ignorância. Alguém me explica o motivo?). De modo geral, até temos entre os conservadores médicos, engenheiros, técnicos da área de exatas, militares, mas são muito poucos os que se dedicam a áreas de humanas e querendo admitir ou não, são os caras de humanas que promovem debates políticos, existenciais, filosóficos, psicológicos, pedagógicos e etc...Enquanto seguirmos defendendo a ideia de que a escola não serve para nada, de que a universidade só forma marxista e incrédulo, de que estudar humanas é perda de tempo e/ou perigoso para a cabeça e para alma e etc...continuaremos sem pessoas preparadas para assumir escolas, cátedras de universidades e postos políticos e diplomáticos (sim porque não dá para lidar com pessoas honestas na base da censura, da arma na cabeça, da ameaça e da repetição de palavrões e frases de efeito e a maioria da população do Brasil ainda é formada por gente honesta). Gostemos ou não - e o vídeozinho que vi ontem deixa isso bem claro ao falar dos dois partidos políticos que existem nos EUA - sempre teremos que conviver com as diferenças!

Por outro lado, na vida real, hoje mesmo uma aluna de 5º.ano veio me procurar super nervosa porque tem sentido dores fortes no abdômen e nas costas, acha que está prestes a ficar mocinha e não quer conversar sobre isso com a mãe, que é professora em escola particular, porque ano passado contou a ela que estava gostando de um menino e apanhou. “Imagine se eu contar a ela que fiquei menstruada? Como vou perguntar dessas coisas de sexo para a minha mãe?” Na hora me dei conta de como eu já estou ficando confusa sobre meu papel na vida dos meus alunos. Obviamente eu posso conversar com ela sobre isso e se fosse ano passado eu teria feito sem crise. Além de tudo, eu sou psicóloga, ainda por cima especializada em crianças e adolescentes! Mas será que essa família quer que eu oriente essa menina? De que forma esses pais vão compreender essa ‘conversa sobre sexo’? Se eu chamar a mãe para conversar e explicar a dificuldade da filha ela vai me ouvir e ajudar a menina ou vai bater nela de novo? Será que quem está fora da escola tem a dimensão de que esse ambiente é um organismo vivo, repleto de dramas, tragédias, comédias e poesias humanas? Será que avaliam que professores acompanham o crescimento e a jornada dessas crianças, durante todos os dias letivos por anos? Será que percebem que existem sentimentos, vínculos afetivos, trocas constantes e que tudo isso, além das disciplinas curriculares, faz parte do desenvolvimento de uma criança? Será que os pais realmente estão preocupados com a educação dos filhos nesses movimentos políticos? E se eu contar para vocês que mães de um desses movimentos ficaram tirando fotos em cima do muro da escola e acusaram de tráfico de drogas um menino que estava passando desodorante? Narrativas ficcionais só são interessantes na ficção, gente! Quando utilizadas para definir a realidade elas não passam de neurose e como toda neurose são altamente prejudiciais.


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Do ‘Dia do Professor’ e de como política na escola virou uma merda gigante...



Como a maioria já sabe cresci em igreja protestante. Houve uma época, especialmente nas rebeldias da adolescência que acometem todo mundo, ainda mais os filhos de pastor (por motivos óbvios), que pensei muito a respeito do quanto eu poderia ter perdido na vida, em experiências e conhecimento, por ter tido uma educação confessional. Hoje em dia, dentro de escolas públicas, tidas como laicas e profundamente envolvidas em doutrinação política, vejo que comparado ao que se recebe dentro da religião, a educação ‘politizada’ é o deserto real e intransponível.

Desde o início da minha experiência em escolas, sejam elas particulares ou públicas, tenho me surpreendido e até me assustado com a falta de criatividade e com a mesmice do dia-a-dia. Somado a esse aparente medo do novo e a uma necessidade de controle neurótica que em nada contribui para a aprendizagem, temos um verdadeiro vazio cultural que prevalece, tanto nas discussões e planejamentos, quanto na prática pedagógica em si. Na escola particular era quase um crime deixar de dar a aula tradicional para exibir um filme, mesmo que esse tivesse tudo a ver com o seu conteúdo programático. Lembro-me de receber ‘olhares de Medusa’ de outros professores e ser cobrada a cada minuto a mais que se estendia a exibição de filmes como ‘Sociedade dos Poetas Mortos’ para alunos de Literatura do Ensino Médio. Importante mesmo era ler e resolver a apostila (limitada e cheia de erros)...

Na escola pública, porém, a causa de tal dilema não é a preocupação com o cumprimento de prazos programáticos ou a eventual queixa de algum pai mantenedor que acredita que a educação é proporcional ao número de páginas de cadernos preenchidas, preocupações tacanhas, mas que revelam aspectos positivos como um real interesse na educação do filho, mas é uma neurose coletiva que tem dominado a alma de muitos profissionais da educação e, inclusive, comprometido inúmeros aspectos de suas vidas pessoais, quando elas ainda existem.

Faz anos que venho ouvindo falar sobre uma doutrinação marxista maciça que tomou conta de todo sistema educacional brasileiro. Tomei maior contato com essas coisas via rede sociais ou quando cruzava por aí em congressos com coleguinhas de universidades públicas, geralmente da USP, que apresentavam trabalhos repetitivos, com interpretações que parecem plágios, exatamente porque sempre baseadas na mesma base teórica, que essas pessoas tendem a querer enfiar em tudo. Depois da centésima leitura pelo viés da crítica ao ‘patriarcado branco heterossexual esbelto testemunha de Jeová dos santos dos últimos dias fascista’ você começa a ficar meio entediado, (minha última experiência com esse pessoal foi numa conversa de bar na qual o Philiph Roth estava sendo empalado por escrever sobre um professor de escrita criativa chateado com a vida que trai a mulher e a impossibilidade de tal obra representar a universalidade da alma humana uma vez que era misógino, preconceituoso e blá blá blá, crítica essa desmontada com uma única pergunta a respeito de Madame Bovary do Flaubert) MAS, de fato, eu ainda achava que muito do que era dito a respeito desse entorpecimento ideológico não passava de teoria da conspiração, uma vez que eu estudo em uma instituição em que esse tipo de coisa não é explícita, onde se tem liberdade para estudar quem e como se quer, dentro das regras do rigor acadêmico e coisa e tal. E olha que o Mackenzie tem um grupo de estudo sobre o Paulo Freire...

Mesmo quando comecei a dar aulas em escolas públicas (E veja, isso é uma opção minha! Eu já dei aula em escolas particulares e poderia continuar, escolhi a escola pública porque acredito em igualdade de oportunidades e porque acredito que existe na escola pública, ainda e apesar de tudo, um maior respeito à liberdade e à autonomia do professor e reais possibilidades de, por meio de um trabalho paciente de formiguinha, desenvolver a condição cultural do país. Por essas e outras decidi escrever sobre isso...), na rede estadual, embora existissem discussões políticas, sobretudo em época de eleição e na sala dos professores, não percebi nada absurdamente repressivo ou desrespeitoso ou realmente inibidor da criatividade e do desenvolvimento cultural da escola. Participei de excelentes projetos de literatura, entrei em contato com ‘salas de leitura’ espetaculares (trabalho de professores que nadam mesmo contra a maré, mas conseguem coisas incríveis com seus alunos), feiras de Ciências e Matemática brilhantes e vi professores de Filosofia e Sociologia, democráticos e interessantes, desenvolverem trabalhos críticos e profundamente estimulantes sem ‘engessarem’ a cabeça de seus alunos com suas próprias opiniões.

Agora, de uns tempos para cá, talvez devido à polarização que tomou conta desse país, talvez devido ao desespero do PT em se manter no poder, mesmo diante das gestões canalhas e calamitosas que fizeram, implodindo a esquerda (mesmo a útil) e criando um atraso socioeconômico de, no mínimo, 20 anos, a política na escola virou sinônimo de entorpecimento cultural, doutrinação neurótica e desrespeito ao ser humano.

São poucos os projetos desenvolvidos que visam estimular a busca real de cultura, qualquer evento vira desculpa para propagação maciça de agenda política partidária. Grêmios que em vez de ensinar a criança a cuidar da comunidade priorizam propagação de ideologias, debates sobre sexualidade com alunos de 10 anos de idade, eventos literários que ignoram clássicos da literatura em prol de ‘literatura de resistência' (geralmente lida fora de contexto e com ‘tecla SAP’ ideológica) e uma concepção de relação com pais e famílias como se fossem inimigos de guerra, são a panqueca do dia! Exemplo engraçado, que não podia ser mais ilustrativo é que hoje, no Dia dos Professores, recebi de quase todos os meus colegas ‘mais à esquerda’ mensagenzinhas sobre a contribuição do Haddad à educação e/ou sobre a opinião do Paulo Freire contra o veneno capitalista. (‘Tô fora, amigos! Kkkkkk ) Se essa gente soubesse que alunos de 9º.s anos percebem o que estão tentando fazer com a cabeça deles e estão, literalmente, ‘pegando nojo’ (palavras deles) disso! Ninguém gosta de se sentir manipulado. NINGUÉM!

Para se ter ideia, nunca ouvi tanto falar de cultura africana na vida, mas da forma mais errada possível, galera fala sobre a África como se o continente todo fosse praticamente um único país, único povo que se reconhece unicamente por ter pele escura, única língua (que quando e se é apresentada, aparece sem tradução e em músicas tribais fora de contexto e que ignoram a produção cultural da atualidade) e única cultura (geralmente coleção de turbantes, capoeira e atabaques), como se a história dela tivesse começado com a escravidão pelos brancos portugueses, coisa mais preconceituosa e equivocada que essa, na minha opinião humilde, não existe! Se eu fosse africana e visse tudo isso me sentiria profundamente ofendida, seria tipo aquele engenheiro americano me perguntando na Alemanha se no Brasil existiam carros, cidades e estradas. Meu, vão se ferrar! (By the way, parabéns à minha amiga Adriana pelo trabalho maravilhoso realizado sobre o Egito...Você é a prova de que existem mentes pensantes dentro das escolas!)

Na minha realidade micro, na sala dos professores, acabo tendo que ouvir coisas como: ‘Você sempre teve voto envergonhado no Bolsonaro!’ ou ameaças veladas por escrever esses diários. Fui chamada de fascista por não querer fazer greve e até hoje sofro umas tentativas de bulling ridículas, gente de cara feia para mim o ano inteiro, outros que se aproximam e me adicionam em redes sociais para se manterem informados (no mínimo achando que sou agente da CIA, do Kingsman ou do Mossad...kkkk... ) sobre mim. É tudo tão ridículo, imaturo e neurótico que realmente só tenho que concordar que essa doutrinação marxista (maciça sim e mal intencionada) que começou nas universidades e se propagou pelas escolas, sobretudo as públicas e que estavam sob a gestão petista, virou uma baita neurose coletiva que tem destruído qualquer possibilidade do país realmente se desenvolver intelectualmente. Percebo com tristeza a aridez cultural do trabalho feito com as crianças nessas escolas e admiro os professores que a despeito dessas amarras conseguem criar oportunidades e caminhos para a educação. Quanto tempo perdido, quanta gente que passa pela escola sem aprender nada de fato relevante para sua vida e quanto professor neurótico (muitos dos quais pacientes psiquiátricos) que culpabilizam a vida e a escola por suas mazelas, mas que não se dão conta de que a neurose política destruiu sua vida pessoal, sua vocação, sua criatividade, suas oportunidades de aprendizagem e crescimento.

Quando voltei da Argentina, diante do resultado das eleições, elaborei um questionário para alunos de 7º.s e 9º.s anos que começava com a seguinte pergunta: ‘O que é democracia?’ Ironicamente, numa escola onde tanto se fala de política e militância, NENHUM aluno foi capaz de definir o termo, tive que explicar em TODAS as salas para que pudessem responder o resto do questionário que falava, por exemplo, sobre as formas de um país exercer a democracia. Se esse fato não diz ALGO a você, amigo leitor, então, desculpa, talvez seja hora de você ir tratar seu vício em entorpecente político. E, por favor, se você realmente se importa com esse país e com o futuro do mundo, me deixe fazer meu trabalho em paz! Eu tenho muita coisa para ensinar aos meus alunos, não me reduza porque você não tem ou perdeu quando vendeu a alma para partidos políticos. FELIZ DIA DOS PROFESSORES! E saia do meu caminho...kkkk...








quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Palavras Mágicas




“Cada criança merece um ‘campeão’: um adulto que nunca desistirá dela, que compreenda o poder da conexão e insista que ela se torne o melhor que ela consiga ser.” Rita Pierson, Professora

            Dizem que antes do império romano chegar ao norte da Europa, os Vickings cagavam e comiam no mesmo lugar. Isso tem imensa possibilidade de ser verdade, uma vez que foram os romanos que inventaram o vaso sanitário, público e aberto, onde dizem que muitas das mais importantes decisões do senado romano foram tomadas (será que foi na privada que planejaram o assassinato do grande Júlio Cesar? De qualquer forma, a merda foi grande...rs..). Anyway, não há como negar que a importância e a influência dos romanos na civilização da Europa, romanos estes influenciados pelos gregos que, por sua vez, foram extremamente influenciados pelos egípcios, outra das maiores civilizações de todos os tempos. O fato é que, colonialismo ou não - e aqui faço uma pausa para lembrar que a humanidade nunca foi perfeita, suas sociedades sempre tiveram, têm e terão aspectos repugnantes e pecados a serem corrigidos e que, para quem acredita em Deus, só poderão ser resolvidos pela ação divina, uma vez que somos serezinhos extremamente complicados, fracos e relutantes à mudanças e a abrir mão da satisfação imediata de nossos desejos- algumas culturas acabam dominando outras, muito mais do que por uma questão bélica, por uma questão de evolução mesmo.

            Gosto sempre de exemplificar isso falando sobre a colonização do México. Para começar, diferente de nós, o México nunca foi uma colônia. Quando Cortéz chegou naquela região, não achou ali um punhado de índios ingênuos como os guaranis, Montezuma tinha um império consolidado, tão bem estruturado e complexo que a única comparação possível a ser feita é com as cidades-estado gregas. Os soldados de Montezuma eram, por exemplo, os guerreiros aguila, cuja seleção dependia que o candidato perseguisse e caçasse, sem o uso de armas, uma águia. Não sei quanto a você, mas quando vi um gavião do rabo branco descendo o canion Malacara, no parque Aparados da Serra/ Serra Geral, com suas asas abertas, cuja envergadura chega a 4 metros, meu coração quase sai pela boca, era a sombra perfeita de um dragão cobrindo nosso pequeno grupo de exploradores. Além desses, também existiam os guerreiros Guepardos, que para fazerem parte da tropa de elite de Montezuma tinham que perseguir e matar felinos gigantes. Resumo da ópera: Cortéz só venceu Montezuma porque as outras tribos, vassalas do imperador, andavam meio de saco cheio de morrer em sacrifício aos deuses astecas e acabaram se mancomunando com o diplomático espanhol. Acho que até hoje a gente fica em dúvida se era melhor para a América ter ficado com os incas (que escravizavam índios chilenos) ou maias (que escravizavam todos os outros índios da região) ou com os espanhóis (que trouxeram o homem branco, suas doenças e taras para compartilhar). De qualquer forma, até hoje no México, a cultura indígena é fortíssima e mesclada com a espanhola numa proporção tão igualitária que já deu origem a outra coisa. Culturas dominam, são dominadas ou se sobrepõem e isso tem muito a ver com a contribuição que cada uma tem a oferecer para aquele povo e contexto. Romanos civilizaram a Europa de cabo a rabo e quem vê os nórdicos hoje, reconhecidamente incluídos entre os povos mais evoluídos da Terra, imagina se teriam chegado lá sem a influência dos antigos troianos. Moral da história: Quem sabe mais, ensina! Quem sabe menos, aprende!

            Dizem também, os que acreditam na Evolução, que o que fez o homem ter consciência e começar a ‘aprender’ com a experiência foi a enorme cabeça dos Neandertais. Embora na luta pela sobrevivência tenham acabado dando espaço ao Sapiens, foi a sua imensa capacidade de memória que possibilitou que a história de uma geração fosse armazenada e compartilhada com a seguinte, de maneira que, cada tentativa e erro de uma geração, resultava em conhecimento adquirido para a seguinte e assim seguimos crescendo, errando, acertando e aprendendo. Evoluímos como espécie e como sociedade. Coisas como escravidão, que hoje de forma quase unânime (infelizmente ainda existem exceções) é considerada imoral e hedionda, até poucos séculos atrás eram parte comum da vida da maioria das pessoas. Era quase ‘lugar-comum’ que todo povo vencido na guerra viraria escravo, era direito do vencedor, seu despojo. Isso está até em relato bíblico. Logo, tendo em vista o lugar de onde viemos, vínhamos evoluindo bem, principalmente pela nossa capacidade de ouvir o mais velho e refletir sobre o que ele trazia, aprendendo com a experiência dele e produzindo, a partir disso, novas informações.

            Não sei se já notou como os velhinhos tem péssima memória de curto prazo em relação à absurda capacidade de detalhes, datas, nomes, lugares, roupas, sentimentos, pensamentos, diálogos e toda sorte de elementos que se recordam sobre qualquer evento de seu passado remoto. O octagenário pode não lembrar o que comeu há 15 minutos, mas alguns serão capazes de narrar com certeza todos os detalhes da Ceia de Natal de 1946, quando acabava a Segunda Guerra Mundial. Essa peculiaridade do idoso é um fator evolutivo da nossa espécie. A função do velho é contar ao jovem sua história, a história de sua família, de seu bairro, de sua cidade, de tudo aquilo que ele testemunhou, para que o jovem vire adulto com todas as informações que precisa para tocar a vida. As culturas orientais sabem bem disso. Eles não costumam discutir com o que faz sentido. Oriental não dá para ‘rebelde sem causa’ como nós, ocidentais, às vezes nos tornamos. Eles sabem da importância do ensinamento do velho e o respeitam. Esse ancião tem lugar de privilégio na mesa das famílias, seus filhos cuidam dele até sua morte, é honrado e ouvido (ouvidos de verdade, não só para cumprir tabela) e mesmo se doente e senil, é cuidado e reverenciado com afeto. Por aqui a gente tira sarro do idoso quando não concorda com ele, muitas vezes sequer os toleramos em casa e os trancamos em asilos, onde morrem sozinhos, contando suas histórias para completos estranhos, porque não podem parar a função que a natureza lhes deu.

De tanto minar a contribuição do idoso, acabamos por dar um tiro em nosso próprio pé. As crianças de hoje, desacostumadas a respeitar os mais velhos, a começar dos próprios pais (geralmente culpados demais pelo egoísmo que os levou a destruir a família de seus filhos), perderam a capacidade de ouvir o que o mais experiente tem a ensinar. Tratam pais e professores como lixo, não os consideram e não levam a sério suas recomendações. É mais ou menos como jogar fora o manual de instruções de um foguete e sair para o espaço com ele!
Uma das professoras lá da escola, cansada de fazer de tudo para que os alunos realmente aprendessem, fez um teste simples com uma classe, explicou um assunto por no máximo 5 minutos e a seguir começou a pedir que eles fossem à frente e repetissem o que ela tinha dito - nenhum conseguiu. As crianças de hoje NÃO OUVEM MAIS OS ADULTOS. Existem salas, especialmente dos menores, em que tenho a nítida impressão de que eles sequer falam a mesma língua que eu. Desde a orientação mais simples, como: ‘Não se pendure na grade porque você vai cair!’ até a explicação de um assunto mais complexo, o fenômeno identificado diariamente é uma inabilidade total de OUVIR.

O resultado disso, na vida da criança, é um total desgoverno. Como não identificam no adulto uma referência segura, ficam à própria sorte. É comprovado na Psicologia que criança sem limite apresenta os mesmos sintomas e comportamentos de uma criança abandonada. Para o psiquismo da criança, a informação é a mesma, a saber, ‘não existe alguém que cuida de mim, que se importa com a minha vida, que vai me proteger da minha impulsividade e da minha falta de experiência sobre a vida. Estou sozinho, logo ninguém me ama!’ Uma criança obrigada a cuidar de si mesma sofre uma pressão enorme, esse ‘empoderamento’ assusta de tal forma que não sobra energia psíquica para mais nada. A criança vai apresentar problemas de aprendizagem, com raras exceções (e como dizia meu professor de matemática, a exceção só serve para comprovar a regra), vai abominar tudo que envolve disciplina e organização, vai ser agressiva, vai ter problemas de socialização. É um bichinho desorientado jogado para os lobos! (E vejo tantos assim, todos os dias...)

É OBRIGAÇÃO DO ADULTO SER O CIVILIZADOR DA CRIANÇA. Não porque ele tem mais valor ou direitos que ela, mas porque é seu dever, sua responsabilidade para com ela! Não educar é mau trato! Não educar é abuso! E aqui uso educar no sentido amplo, que vai desde ensinar as palavras mágicas que nos permitem uma vida razoavelmente segura em sociedade (Desculpe, Por Favor, Com licença e Obrigada) até ensinar o conteúdo programático que você, professor (a), se comprometeu a ensinar quando assumiu sua sala. Crianças não vão aprender Gramática ou Operações Matemáticas olhando a lua, pelo menos não a maioria! E elas precisam desse conteúdo para viver no mundo.

Hoje enquanto olhava as crianças brincando no pátio, tentei lembrar das brincadeiras que eu fazia quando criança, que meus sobrinhos faziam e me dei conta de que a brincadeira da criança de hoje é paupérrima em simbolização. Basicamente tem sido composta por uma correria despropositada, cheia de gritaria e agressividade, sem imaginação, sem regras, sem jogos, NADA. Lembrei de O Brincar e a Realidade do Winnicott e fiquei duplamente preocupada. Para onde vamos com isso, minha gente? Precisamos intervir, precisamos ensinar essa geração a brincar, a criar, a imaginar, para que desenvolvam habilidades psíquicas próprias de um ser humano saudável. É urgente!

Dentre todas as coisas que meus pais me ensinaram, (e foram muitas, meus pais realmente se comprometeram comigo e me amaram), acho que algumas me marcaram mais que outras. Lembro, por exemplo, que minha mãe passou minha infância inteira me repreendendo cada vez que eu falava da vida de alguém, ela insistia que a vida dos outros não era assunto para conversa e que aquilo que a gente diz sobre as pessoas (especialmente quando é mentira) pode destruir a vida delas. Até hoje eu abomino fofocas e desprezo gente que faz disso o sentido da vida! Outra coisa interessante me volta à mente numa frase dela: Filha, pensa comigo, se todo mundo ao seu redor está dizendo que você está errada, você precisa, pelo menos, refletir sobre essa possibilidade! (Ok, que quase sempre estou certa...kkkkk..) Lembro dela me arrumando para ir à igreja com a minha melhor roupa, sempre limpa, linda e penteada, me ensinando que existe uma forma adequada de se apresentar em cada ocasião. São tantas pequenas e grandes coisas que aprendi com meus pais, tios e avós e que fazem de mim a pessoa que sou hoje, a professora que me tornei, a mulher que eu sou, a amiga, a irmã, a tia...E se não houvesse essas pessoas na minha vida? Obviamente que ninguém é perfeito, mas eu tenho a total certeza que minha família fez por mim aquilo de melhor que podia! A educação que me deram me fez chegar aonde cheguei - uma mulher adulta, viva e digna - isso já é mais do que muita gente consegue ser. Toda criança merece um adulto que lute para que ela seja o melhor que puder ser - um campeão, uma amazona, um guerreiro (a) que não desista dela enquanto ela não chegar a ser o que pode ser. Toda criança que nasce nesse mundo, não importa de onde venha, tem esse direito! E é seu e meu dever, cada um dentro de sua esfera de atuação, ser esse campeão.

Acabei de assistir um vídeo ridículo de um grupo que se autodenomina ‘putinhas aborteiras”. Fiquei imaginando minhas avós vendo esse vídeo. Ainda bem que uma já foi para lugar melhor e a outra não usa (e detesta) a Internet, porque acho que elas se sentiriam imensamente envergonhadas! Duas mulheres que lutaram lado a lado com seus maridos, trabalhando fora e dentro de casa, mulheres decentes e de bem, inteligentes e fortes, que NUNCA, JAMAIS, iriam gostar de ver suas filhas, netas e bisnetas se comportando daquele jeito. 

Ouçamos nossos avós, ouçamos nossos pais, se não mais por aqui, ao menos in memorian. Paremos de agir como crianças mimadas e perdidas que não sabem ouvir. Assumamos nossos erros. Corrijamos esses erros. Tudo isso para que possamos correr atrás do prejuízo e falar com nossas crianças, ensiná-las, lutar por elas! Precisamos fazer com que elas nos ouçam ou viveremos para ser um reality show do The Walking Dead e estaremos muito velhos para correr de zumbis...#ficaadica


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Boundaries[1]



Não sei se já repararam nisso, mas para mim algumas palavras parecem ser melhor formadas, soar melhor em algumas línguas do que em outras, combinar mais com seus significados. É assim, por exemplo, com disgusting (Inglês: nojento), fianceé (inglês, do francês: noivo), meimei (chinês: irmã mais nova) ou liebe (alemão: amor, amar). Isso sem contar a nossa saudade que ninguém mais tem...Parece que o som e a forma dessas palavras se encaixam de forma mais perfeita em seu significado, sei lá, só é mais adequado, em inglês a gente diria fits (encaixa) e a gente sente um bem estar ao utilizá-las! Boundarie para mim é isso - palavra intuitiva e eloquente. Todos precisamos de boundaries claros para nos organizar internamente. A qualidade e a coerência deles, a forma como são concebidos, administrados, estabelecidos e mantidos define quem somos e quem seremos. Para a criança, isso é o mapa de sua formação de caráter e das escolhas que definirão sua existência, sua vida adulta, suas contribuições pessoais para a geração em que vivem e seus relacionamentos.

Fui uma criança muito tranquila, introspectiva e completamente urbana. Nasci no Belenzinho, reduto da italianada da Zona Leste de São Paulo. Só tive a honra de conhecer uma galinha viva de perto lá pelos 16 anos de idade. Minha familiaridade com asfalto, postes de luz e o concreto armado das pontes e viadutos teria tudo para me tornar meio avessa ao mato, aos animais, aos rios, lagoas e mares, mas, inesperadamente, tenho alma de camponesa! Adoro árvores, lagoas, plantas e flores. Espaço aberto e natureza são tão necessários para a minha sobrevivência quanto momentos de silêncio e introspecção. Ar livre para mim é sinônimo de leitura, música, desenhar, pintar...Coisas das quais preciso para viver!

A opressão que sinto em lugares fechados se evidenciou em maio deste ano, quando numa viagem para as Cidades Históricas de MG, num rompante aventureiro, decidi arriscar a sorte e entrar para conhecer uma mina de ouro do sec. XVIII. Em menos de 15 minutos dentro daquele túnel apertado, baixo, escuro e úmido sai correndo em total descontrole ali de dentro. Suando frio, pálida como um cadáver, tremendo e com a boca roxa, hiperventilava enquanto uma das funcionárias do lugar me servia um quentão e segurava minha mão. Demorou uma meia-hora até que eu sentisse meu coração batendo num ritmo ok de novo. Nunca tinha me sentido daquela forma antes, aquela perda de controle me chateou bastante e não fossem as outras atrações da belíssima ‘Ouro Preto’, talvez isso tivesse de fato me estragado o dia.

Claustrofobias à parte (perfeitamente compreensíveis pela Astrologia, uma vez que sou uma libriana com ascendente em Gêmeos, combinação ar + ar que jamais poderia ficar confortável em lugares fechados...rs...), sou uma mulher adulta que muitos consideram sensata e suficientemente equilibrada, de modo que quase sempre consigo explicar a mim mesma as vicissitudes ambientais a que estou sujeita e tentar conter minhas reações ao ambiente. Agora quero que você imagine uma criança de 6, 7, 8 anos de idade, enfiada dentro de uma sala de aula pequena, mal ventilada e, muitas vezes, escura e suja, com carteiras estranhas, esbarrando cotovelos e joelhos com 30, 35, até 40 colegas, muitas vezes em dias super quentes, com pouquíssimas aulas externas, geralmente só a Educação Física, quase sempre em quadras velhas e mal cuidadas, em escolas que quase nunca têm áreas verdes e de lazer. O que você imagina que acontece com essas crianças, dia após dia, confinadas por 6 aulas neste ambiente? Think about...

É fato fatíssimo que a criança precisa de boundaries. Ao contrário do que pensava Rousseau, o homem não nasce bom e com predisposição para o bem. Nascemos todos egoístas, agressivos, cativos de desejos violentos e vontades ingovernáveis que nos levam a atitudes nem sempre positivas e é a EDUCAÇÃO que nos civiliza - a de casa e a da escola, a formal e a informal. Pelo menos quando as coisas funcionam como deveriam. O ADULTO TEM QUE SER o instrumento dessa formação. O preço da ausência de boundaries é a loucura, a total desorientação do ser no tempo e no espaço. O problema da educação formal, de forma geral, é que por alguma razão que não tive acesso, associou-se a contenção ao espaço físico e a arquitetura penitenciária que se usa na escola assusta, frustra e aprisiona.

As paredes grossas de concreto, geralmente pintadas de cores feias e pouco convidativas (trabalhei numa escola que apelidei de ‘abacatão’ porque ela era inteira verde escura e tinha um formato sugestivo) sufocam mais do que protegem. Grades de todo tipo e tamanho espalham-se por todo lado. Portões pesados e barulhentos se fecham atrás de quem entra como se anunciassem uma sentença a ser cumprida. Salas pequenas e sujas, com carteiras velhas e quebradas misturando-se às novas que chegam - tudo anuncia uma espécie de cativeiro, sair da escola é o que liberta, não entrar nela. De alguma forma (e isso talvez seja explicado pela ‘Teoria das Janelas Quebradas[2]’), mesmo os recursos novos não duram muito, o material recebido pelas crianças no início do ano mal chegam utilizáveis até agosto. O barulho é sempre intenso e doloroso, todos gritam entre si e as professoras gritam por silêncio - o que em si já é um paradoxo. Poucas escolas possuem áreas verdes e espaços externos onde se possa optar por aulas em formatos alternativos que oxigenem a mente e a alma das crianças e dos professores, que potencialize outros canais de ensino-aprendizagem e que, inclusive, possibilite uma reformulação de relações pessoais.

A aula tradicional, mesmo quando bem dada e rica em conteúdo, se perde em meio à agitação e à agressividade da verdadeira ‘panela de pressão’ que virou a sala. O ambiente insalubre, somado a uma falta de formação de base, que deveria vir de casa e que ensinasse as crianças a simplesmente respeitar os mais velhos, ser gentil com os colegas e evitar conflitos, especialmente os físicos, desnecessários, acaba criando uma atmosfera de violência latente e muitas vezes até indiscriminada. Vejo o tempo todo crianças se socando na escola, é menino contra menino, menina contra menina, menino contra menina e quando a criança é deficiente (no caso dos com necessidades especiais) ou o adolescente é marginal, a violência se vira também contra o professor, com consequências gravíssimas.

A solução que muitos encontram para essa situação que pode chegar à periculosidade, impedidos talvez pela impossibilidade de buscar recursos mais eficazes (como reformas arquitetônicas, agregação de terrenos e praças próximos que poderiam significar melhor ambiente e melhor qualidade de vida na escola) e estimulados por essa fúria discursiva que herdamos da péssima formação das universidades na atualidade é a fuga pela ideologia. Daí tudo vira gordofobia, feminicídio, racismo etc e tal...Brigas no corredor viram o patriarcado branco esbelto heterossexual contra o mundo levando as crianças a se agredirem pela escola e se você diz que todos batem em todos e que não vê, no computo geral das situações, nessa violência, algo específico que revele qualquer formação ideológica prévia, as pessoas se ofendem, se fecham em copas e não aceitam sugestões. Se você disser ainda que já ouviu 8 mil vezes essa ladainha ‘politicamente correta’, que nada disso fará sentido algum para crianças e adolescentes, simplesmente porque não tem uma relação direta com a realidade do que eles estão fazendo e porque eles não têm ainda um raciocínio abstrato totalmente formado e vão só copiar esse discurso para agradar o professor militante (só assistir A Onda e compreender o efeito catastrófico que um professor carismático é capaz de fazer na cabeça de crianças e adolescentes, mesmo quando bem intencionado), o sujeito se ofende e diz que você não está escutando (o que ele realmente quer dizer é ‘como vc não está concordando e me aplaudindo?’).

Chego a ter dó dessas pessoas, algumas muito bem intencionadas, mas que venderam a alma por uma explicação idiota de por que não se sentem bem consigo mesmas no mundo e o fato é que se vitimizar colocando a conta no passado histórico, além de ser pura neurose, não vai resolver a fúria de 400 crianças agitadas, que geralmente vivem em ‘apertamentos’ e que vêm para uma escola que mais parece uma instituição correcional, para descontar no outro a agressividade que recebem de famílias cada vez mais desestruturadas e conflituosas. NÃO, NEM TUDO É SOCIAL! A MAIOR PARTE DOS PROBLEMAS É DO INDIVÍDUO. E é tão ridículo achar que tudo se resume a racismo numa escola onde a maioria maciça é de pardos, ou machismo, numa escola gerida quase que inteiramente por mulheres fortes e independentes. Enfim...Foram feitas pesquisas com ratos em laboratório e é comprovado que ao confinar muitos ratos numa única gaiola, eles começam a matar e comer uns aos outros, mesmo estando bem alimentados, para ampliar o espaço na gaiola. A diferença entre um ser humano e um rato se limita a 5 pares de genes. #ficaadica

      Era meu segundo dia no fundamental 1. Ainda estava sob o efeito do encantamento por ter conseguido uma escola fofa, com árvores, relativamente pequena e bem organizada e perto de casa. (Para um paulistano, poder ir para o trabalho caminhando é quase como ganhar na loteria). Pelo fato de não ter muito absenteísmo nessa unidade, os professores novos podiam acompanhar as aulas dos colegas servindo de apoio. Eu ainda não sabia, mas esses meses de aulas compartilhadas seriam as mais divertidas e significativas na minha formação como professora.

     Tendo em vista que essa escola estava cercada por 4 abrigos, tínhamos uma média de 5 ou 6 crianças órfãs e abrigadas por sala. Nessa sala de 4º.ano em particular, além dos abrigados, tínhamos mais 3 crianças com necessidades especiais, 2 ou 3 com dificuldades de aprendizagem e mais umas 15 crianças normais[3]. Sendo assim a professora titular pedia que eu a acompanhasse, dando maior assistência às crianças com maiores obstáculos. Ela os deixava mais na frente e enquanto eu os atendia, ela compartilhava o conteúdo de forma expositiva com a maioria.

    Por falta de salas suficientes esse 4º.ano foi alocado no que deveria ser um laboratório de Ciências, com uma enorme bancada na frente que acabava apertando todas as carteiras do meio para o fundo, reduzindo cerca de 50% do espaço da sala, já ocupada por armários velhos e esqueletos de plástico. Apinhados todos ali dentro, esbarrando e tropeçando uns nos outros e nas carteiras, sendo obrigados a um contato físico nem sempre desejado, tentávamos dar aula e apoiar as crianças na execução das tarefas. Vez ou outra gritando para tentar conter o barulho, o que sempre se mostra muito ineficaz!

      As coisas aconteceram numa fração de segundo, eu estava de costas para o resto da sala numa ponta, focada nos cadernos dos pequenos em apuros. A outra professora estava de costas na outra ponta, falando com um grupinho que não tinha compreendido bem a tarefa. Olhei para trás mais por intuição que por necessidade e o que vi do outro lado da bancada me gelou os ossos e acelerou o coração.

      Sangue, muito sangue, sangue escorrendo pelo rosto aos borbotões, se espalhando pela blusa e pingando no chão. A., mesmo com a cabeça aberta e sangrando em profusão, segurava na mão um pequeno objeto pontiagudo (que depois soubemos se tratar da lâmina de um apontador que foi arrancada do plástico, afiada e trazida para a escola para ‘matar’ D.) e avançava com ele para cima de D., dando vários golpes no ar, quase acertando o rosto do colega. Só para constar, ambos são meninos e negros, de modo que não caberia aqui atribuir racismo ou violência de gênero.

      A outra professora, que não tinha a mesma visão da situação que eu tinha, começou a andar na direção das costas de A. e então gritei para ela parar, porque ele estava armado, lívido de raiva e eu não sabia o que poderia fazer com ela, se tentasse segurá-lo. Ao me ver tão apavorada, L. estacou.

      Respirei muito fundo, segurei a tremedeira e comecei a falar com A. na voz mais firme que consegui, pedi que olhasse para mim umas três vezes, pedi que colocasse a lâmina no balcão, afirmei umas outras tantas vezes que ele era um bom menino, que não queria machucar D. de verdade e que estava sangrando muito e precisava ser socorrido. A. olhou para mim meio atordoado, meio confuso e com lágrimas nos olhos, jogou a lâmina no chão e eu imediatamente pisei nela para evitar que alguém a pegasse. A. caiu sentado no meio da poça de sangue, D. se jogou para o outro lado, L. correu atrás do inspetor e conseguimos conter o caos.

      Foi ali, no meio daquela situação absurda, que pude comprovar que boundaries para crianças nascem da determinação e maturidade do adulto ao abordá-las. A firmeza vem da sua atitude, da sua voz, da certeza que você tem daquilo que está impondo ao pequeno. Grades e paredes, ideologias e discursos, não ensinam limites - o que ensina limite é a ATITUDE do maior que cuida do menor, o ensina e o protege. O resto é pura baboseira!

      Mais tarde, já na sala dos professores, tomando o chá mais doce que já tomei na vida, ainda tremendo e ainda em estado de choque, ouvimos da boca de algumas testemunhas o resumo da situação daquele dia: D., que era um menino de abrigo agressivo e de poucos amigos (já devolvido de lares adotivos por 9, eu disse NOVE, vezes, tendo voltado do último por iniciativa própria, porque se tratava de um casal de gays e ele queria ter uma mãe e um pai) vinha atormentando A. por meses nos corredores e no intervalo. A., filho de uma família conhecida por armar barracos em lugares públicos, confusões de toda ordem e brigas de casal após bebedeiras, cansado de apanhar, teve a ideia brilhante de ir armado com a lâmina. Ao ir para cima de D. com aquilo no meio de nossa aula, foi empurrado e caiu em cima de uma mesa, abrindo a cabeça na quina da tampa, mesmo ferido, voou para cima de D. e foi aí que peguei a coisa em desenvolvimento.

      A partir daquele dia começamos a dar aula para essa sala no pátio do recreio, na varanda com mesas de xadrez, na quadra e em qualquer lugar aberto que conseguíamos. Combinamos uma ‘tolerância zero’ diante de casos de agressão e retomávamos as regras da nossa aula religiosamente a cada novo encontro.  A coisa melhorou tanto que conseguimos organizar uma festa de Halloween super bacana e até fazer atividades com comidas, que eles sempre adoram. Obviamente escondemos todas as facas e objetos pontiagudos...rs..

      Não sei como estão as coisas por lá agora, tive que ir para outra escola, mas naquele período não houve mais nenhum episódio sangrento.



[1] Do inglês> Linha que demarca os limites de uma área, linha divisória. Margem, borda, orla, fronteira, contenção, limite.
[2] Ver Google, vale muito a pena conhecer.
[3] Defina normal.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Inclusão?





A primeira igualdade é a justiça.
Victor Hugo
(criador de Jean Valjean e Quasímodo)


       Você acorda cedinho, animada como acorda todos os dias. Você gosta da brisa fresca da aurora, gosta de sair de casa com o nascer do sol, mesmo sendo uma criatura notívaga. Porque está animada se arruma bem, usa seu cachecol favorito aproveitando o final do inverno, dá uma caprichada no make-up e até usa seu perfume para dias especiais porque quer se sentir bem. Você coloca na bolsa o novo livro de contos clássicos que comprou para as crianças do Fundamental 1 e torce para poder dar aula para eles hoje. Você está tão contente nesta manhã que até posta uma self bobinha no Instagram para popularizar seu cachecol predileto. Quando você chega à escola, as crianças, em coerência com sua animação, te abraçam no pátio, dizem que você está bonita e cheirosa e na sala dos professores você encontra seus colegas rindo descontraídos, pegando seus materiais para começar o período. Logo você descobre que vai dar aula em um segundo ano, que a professora adoeceu e que ficará fora por alguns dias. Você pensa: Ok, trouxe meus contos novos e desenhos fantásticos para colorirem. No segundo ano já podemos aproveitar a história para aprender palavras novas, talvez um pouco de ortografia, separação de sílabas, possivelmente até formação de frases. Enquanto forma a fila no pátio você começa a bolar uma atividade de matemática também, afinal o conto do ‘Isqueiro Mágico’ tem uma série de sequências numéricas que podem ser aproveitadas. Você gosta dessa liberdade de criação no módulo. Você se sente livre e inspirada. Você sorri para as crianças, algumas delas muito queridas e pensa que tem tudo para ser um dia normal, numa sala de 2º. Ano, de uma das melhores escolas públicas da região.

       Você sobe as escadas um pouco tensa porque sabe que essa sala não é nada fácil, entre os 30 alunos, existe um autista grave, um autista leve agitado, um TDHA que anda pela sala o tempo inteiro e não realiza nenhuma atividade e, em vez disso, bate nos colegas e pega seus materiais sem autorização, causando conflitos constantes, e pelos menos mais umas cinco crianças com dificuldade de aprendizagem, todas inclusive fazendo recuperação paralela no período contrário e que são bastante lentas nas tarefas, requerendo suporte o tempo todo. Você fica mais preocupada ainda quando vê que Y veio. Sem dúvida, o aluno mais problemático da sala e um dos mais perturbadores da escola, um garoto estrangeiro, que ainda não tem laudo médico, embora se suspeite de esquizofrenia ou de algum transtorno global do desenvolvimento, além de possíveis abusos físicos e até sexuais, porque o aluno apresenta comportamentos sexualizados, brincadeiras estranhas e está sempre tentando colocar as mãos dentro das roupas de algumas professoras, incluindo você. Logo de cara você percebe que, neste dia em especial, Y está muito agitado e agressivo.

       Com menos de meia-hora de aula, mesmo com o apoio da estagiária, você já teve que guardar todas as tesouras dentro de uma caixa e esconder em cima do armário porque Y já tinha lançado três delas pelo ar, uma passando rente ao rosto de outro aluno. Y, de forma inesperada, se pendura com força em seu pescoço, coloca todo o peso de seu corpo sobre você e ao ser afastado tenta arrancar sua corrente do pescoço, bem sua correntinha de São Bento favorita, que você usa há mais de dez anos, a corrente é grossa e ela não quebra, mas te machuca, graças aos céus sem muita gravidade.

       Após um período breve de tranquilidade em que se distraiu com brinquedos de montar dados para os autistas (sempre envolvidos com algum tipo de jogo ou brinquedo porque ninguém na escola tem a mais vaga ideia de como ensinar conteúdo para essas crianças ou se isso é possível), Y começa a jogar peças nas outras crianças, acertando alguns na cabeça e fazendo com que seja necessário guardar tudo, o que deixa os autistas também frustrados e causa um período tenso de gritaria e choro. No meio de tudo isso, você continua tentando dar aula e compartilhar o conto que vinha ansiosa para dividir com a sala e as crianças interessadas na atividade, crianças que tem condições de aprender e que reclamam, pedem sua atenção, puxam você pelo braço pedindo que continue a história e exigem que se coloque os causadores do tumulto para fora, outros que ainda tentam acalmar os deficientes, numa atitude generosa que acaba virando habitual e que faz com que desistam de suas próprias tarefas.

       Depois de mais um curto período de calmaria, essa mesma criança sem laudo, começa a pular de carteira em carteira, imitando um macaco e cantando o refrão de um funk pesado que você nunca ouviu na vida. Após fugir da estagiária umas três vezes, saindo da sala pela porta e correndo pelos dois andares da escola, entra em outras salas de aula, agride crianças,  chora e acaba sendo arrastado pelo corredor para não se machucar, voltando  para dentro de sua própria classe e se sentando quieto. Um pouco ofegante com a correria, sentindo-se descabelada, já sem cachecol e sem blusa, você tenta manter a serenidade e diante da pretensa quietude de Y, você se volta para escrever na lousa, tentando retomar a tarefa dada, ainda a primeira do dia, que ninguém conseguiu terminar por causa da confusão. A agitação recomeça em segundos e o mesmo aluno salta em cima das carteiras e aproveitando sua distração, se joga nas suas costas. Por uma questão de meio centímetro você não mete a cara na lousa. O aluno, menino de 8 anos grande para a idade, se pendura em suas costas e enrola suas pernas em volta de sua cintura, a estagiária tenta retirá-lo de cima de você, mas ele se agarra fortemente dificultando a tarefa. Enquanto tenta se desvencilhar do menino, você vê que uma lâmina inteira de vidro da janela caiu solta, você corre para pegar antes que fira alguém. As crianças sentadas ao lado da janela, aproveitando todo o caos, tiraram a massa fresca do vidro recém consertado para brincar de massinha e com isso derrubaram o vidro da janela. Você sai depressa da sala para chamar alguém para recolher o vidro. Não acha ninguém da manutenção, você recebe ajuda de uma professora readaptada que leva a lâmina embora.       Com alívio você percebe que o período já está terminando, você desce com as crianças para o pátio. Por duas semanas após o ocorrido você ainda terá dores nas costas, na altura da lombar, na bacia, do lado esquerdo. Você sabe que esse tipo de situação, com uma ou outra variação, é comum e independe da professora presente em sala de aula. Num suspiro você se lembra de que essa nem é a sala mais complicada da escola no que tange ao contexto de inclusão. Você sai da escola no final do período exausta, nervosa e frustrada porque tem plena consciência de não ter conseguido concluir nada do que planejou e de que as crianças pouco aprenderam de fato naquele dia. Você se sente uma fraude como professora e ainda está machucada fisicamente...Você se recupera das dores na coluna com aulas de Pilates. Aulas que obviamente você paga do próprio bolso!

       A primeira experiência profissional que tive com uma criança portadora de necessidades especiais foi durante a faculdade de Psicologia, num estágio obrigatório em ‘Psicologia do Excepcional’. Atendi durante seis meses um adolescente de 13 anos com Síndrome de Down, numa das melhores instituições para excepcionais existentes na época, com supervisão competente e estrutura adequada para atendimento. Lembro que após este tempo, no qual minha atuação terapêutica se limitou, em grande parte, a distrair meu paciente para que não se masturbasse na minha frente, o que fazia o tempo inteiro, utilizando técnicas de condicionamento comportamental. Era constrangedor, frustrante e inútil o trabalho que eu desempenhei vicariamente por 6 meses e percebi, nessa época, que eu não tinha desejo, paciência ou estrutura para trabalhar nessa área. Cumpri o estágio, tirei a nota e encerrei sem alegria ou vontade de trabalhar com essas crianças. Nessa mesma época, uma colega teve que levar 8 pontos no mamilo, porque o autista severo que atendia - filho de milionários e que passava o dia numa instituição totalmente estruturada para seus cuidados e que só tinha 4 crianças, cada uma devidamente acompanhada de seu próprio terapeuta, em período integral - virou-se inesperadamente enquanto ela o ajudava a escovar os dentes e a mordeu, travando os dentes em seu seio e só não lhe arrancou a carne porque estava frio e ela vestia uma jaqueta grossa. Lembrando que estudávamos Psicologia, éramos alunas excelentes e recebíamos supervisão semanal de professores especializados neste tipo de clientela. Quando fazia especialização em Psicoterapia de Crianças e Adolescentes em Porto Alegre, a instituição em que eu estudava, completamente bem assessorada por psiquiatras e psicólogos bem formados e treinados, mantinha uma Ambientoterapia, onde atendiam crianças com diversas patologias e síndromes, permitindo que convivessem, aprendessem e executassem tarefas de lazer e socialização juntas - CADA CRIANÇA ERA ACOMPANHADA DE UM OU DOIS TERAPEUTAS.

       Conto isso não para criar nenhum tipo de animosidade quanto ao trabalho com crianças deficientes, muito pelo contrário, conto isso para destacar a necessidade de um atendimento profissional especializado para este tipo de público, do contrário jamais terão qualquer oportunidade de um real desenvolvimento da porcentagem de autonomia possível dentro de cada quadro e de uma real possibilidade de aprendizagem, de qualquer espécie.

       A primeira vez em que estudei inclusão de uma forma mais formal foi durante o meu primeiro mestrado, que acabei abandonando exatamente por perceber que não era para mim. Uma das disciplinas, focada 100% na teoria que acabou por instalar na escola brasileira essa política ‘inclusiva’, era ministrada por um professor que se citava o tempo inteiro, uma vez que era o grande estudioso e incentivador do tema.

       Ao mesmo tempo em que eu lia textos e textos desse autor, vendo-o pessoalmente duas vezes por semana e testemunhando seu entusiasmo com o que parecia ser a instalação do ‘paraíso na Terra’ e a solução para todos os problemas de empatia e desigualdade humana a partir da escola, ouvia de minha tia professora de educação infantil e de várias amigas sobre o caos que vinham enfrentando em salas de aula com até 40 crianças de menos de 7 anos, agora contendo 5 ou 6 deficientes mentais, alguns severos e agressivos, outros ainda de fraldas e com graves dificuldades motoras, entre eles.

       Um dia, já muito confusa e cética e de saco cheio da ladainha descarada que vinha sendo enfiada por minha goela abaixo, levantei a mão e com minha boca grande perguntei: Professor, por gentileza, o senhor parece ter tantas experiências de sucesso com esse trabalho inclusivo, onde mesmo o senhor deu aula para deficientes? O honorável mestre pigarreou, olhou o relógio, pediu licença e saiu da sala como se tivesse um compromisso inadiável, deixando-nos a todos meio perplexos. Sua assistente, uma dessas puxa-saco acadêmicas de carteirinha (e como existe esse tipo de gente no meio acadêmico, pelo amor de Deus!), disse em tom se sussurro: Não, gente, sabe o que é, o professor X é um acadêmico e um teórico, ele nunca deu aula na educação básica, mas ele já foi inclusive secretário da educação do governo do Estado X, viu? Ele é super conceituado!

       Confesso que a ideia de ‘vergonha alheia’ se tornou mais clara para mim naquele dia, imediatamente senti meu rosto queimando, o que significa que devo ter ficado vermelha feito um pimentão e dali para frente nunca mais dei muita atenção para aquela aula, que acabou se tornando um dos motivos pelos quais larguei esse mestrado, mesmo tendo cumprido todos os créditos de disciplinas (para grande espanto e horror da minha mãe...rs..) e ido estudar Letras, pelo menos na Literatura quase sempre a gente tem clareza sobre o que é ficção ou não, né?

       Eu poderia dar uma de intelectual e ficar aqui discutindo mil teorias lindíssimas sobre como a ideia de educar crianças para o bem e a política  de ‘Inclusão’ são complementares, mas uma coisa que se descobre em chão de sala de aula é que educação se faz na prática, por meio de empatia, percepção e sinceridade. Educar é ‘aproveitar o momento’ e a realidade é que essa tal política de ‘Inclusão’ foi jogada no colo dos professores, dando ao fracasso mais uma oportunidade. A grande maioria nunca teve treinamento ou instrução para atender essa clientela. Nunca foram levadas em conta as demandas das salas de aula já existentes antes mesmo do ingresso dessas crianças, necessidades já imensas e sem atendimento eficaz. A mera criação de um departamento de apoio nas redes de ensino (minúsculo para o número de escolas e de casos, burocrático e demagógico, como quase tudo na escola pública, e especializado em devolver a responsabilidade para a escola local) nunca passou de um ‘cala a boca e aguenta’ por parte dos idealizadores dessa ideia de jerico, travestida de bom-mocismo e discurso fake de igualdade.

       Qualquer professor honesto e inteligente, após se esforçar muito para incluir essas crianças, porque afinal de contas somos todos humanos e compaixão e afeto precisam ser características de alguém vocacionado para ensinar, começa a se dar conta de que a inclusão sem estrutura não passa de mais um projeto de emburrecimento da população. Esses dias um colega postou no Facebook uma matéria sobre como relatos exagerados que mostram a educação num estado pior do que ela está de fato é um projeto para desacreditar o ensino brasileiro. Discordo redondamente! Primeiro que o quadro é mesmo calamitoso e se não houver denúncia não haverá conscientização e mudanças, segundo que os relatos que temos visto não são exagerados, são realistas. São relatos de gente que não desistiu de lutar, mas que não aceita maquiar a realidade em prol deste ou daquele interesse político. Esse PROJETO DE EMBURRECIMENTO não me parece recente, nem exclusivo de um partido ou de outro, da esquerda ou da direita, de uma única pessoa, mas é uma ação coordenada, sei lá se totalmente consciente, mas que está conseguindo nivelar toda população por baixo, impedindo que as camadas populares tenham acesso a uma real aprendizagem. Para quem leu Admirável Mundo Novo, parece que estamos trabalhando para a boçalização de nossos alunos, garantindo que toda uma geração de GAMAs[1] saiam das escolas.

       É importante saber que assim que a política de inclusão foi implantada, o governo do Estado declarou não ter estrutura para atender este público, de modo que ficou para as escolas da prefeitura a responsabilidade de receber essas crianças. Até onde eu sei não existe um limite adequado de número de crianças a ser recebido por escola, o que torna algumas dessas unidades escolares, seja pela existência de elevador, seja pela localização de fácil acesso ou por alguma outra questão, favoritas para este tipo de matrícula. Sendo assim, existem escolas com 10, 20% de seu público constituído por cadeirantes e deficientes de toda ordem, sem estrutura, sem material para educação especial, sem espaço físico adequado (e nosso próximo texto vai abordar a questão do espaço físico), sem treinamento especializado para professores ou qualquer tipo de recurso que torne a existência dessas crianças na escola menos prejudicial ao processo de ensino-aprendizagem das crianças sem deficiência e mais promissora do ponto de vista dos próprios deficientes.

       Já vi estagiária pedir demissão porque não aguentava mais chegar em casa toda machucada por seu aluno deficiente. Já vi professoras excelentes desistirem de dar aula em certas classes porque consideram uma hipocrisia e um acinte trabalhar sem nenhuma estrutura, sem condição de lecionar e ainda correndo risco de lesão física. Já vi salas serem trancadas por medo de serem invadidas por crianças agressivas. Já vi todo tipo de relato e reclamação serem escritos e enviados para órgãos superiores que exigem da escola um ‘plano de ação’ para o atendimento dessas crianças sem que nenhum recurso ou mudança sejam oferecidos como suporte para a situação.

       Sou uma professora e uma profissional de saúde mental, acredito no potencial de aprendizagem de qualquer se humano e, ainda que imperfeita ao extremo, tenho preservado em mim um sentido de compaixão e de humanidade que me faz abraçar essas crianças, tentar ensinar alguma coisa a elas e achar bonito a forma como as outras crianças as aceitam e tentam ajudá-las em suas dificuldades. Por outro lado tenho um cérebro e uma acuidade crítica que me permitem fazer a pergunta: Qual é a diferença entre a atenção e as tentativas desesperadas (e por que não dizer ridículas, se estamos sendo honestos aqui?) de incluir essas crianças no processo de ensino-aprendizado, feitos sem nenhum preparo, na improvisação e sem nenhum recurso, da atenção e das tentativas engraçadas de treinar nossos PETs em casa? Sei que essa pergunta vai chocar alguns e escandalizar outros, mas é uma pergunta descabida? Existe respeito quando se fecha uma escola pública especializada em crianças com Paralisia Cerebral, toda equipada com computadores, professores especializados e material adaptado que realmente permitiam o desenvolvimento dessas crianças e se jogam esses alunos para serem o mascote de um sala de aula com mais de 30 outros alunos, sem recurso algum que lhes permitam de fato serem ensinados? Quantos deficientes vc conhece em escolas públicas que tem um profissional exclusivo para atendê-los e que consiga de fato adaptar para eles cada atividade de modo a que seu tempo na escola não lhe seja inútil e não represente perda na qualidade de ensino de seus colegas e caos para todos?
      
      Na verdade, a política de ‘Inclusão’, como tem sido aplicada, é sim exclusiva e mais ainda, representa uma excelente ferramenta de emburrecimento geral da população escolar e de adoecimento dos docentes. Parece que somando a Progressão Continuada com a Inclusão obrigatória a única equidade que temos conseguido é a igualdade na bosta. O resultado já é explícito e facilmente identificado, não precisa nem ser gênio para notar, estamos deformando toda uma geração que chega no Ensino Médio semi-analfabeto e sai dele subletrado. Quanto ao deficiente, nenhuma de suas habilidades foi reforçada, seu potencial de aprendizagem foi desperdiçado, mas vamos ficar contentes porque ele fez um monte de amiguinhos na escola que o tratam com afeto, fazem gracinhas para ele rir e empurram sua cadeira de rodas na hora do recreio. Se eu fosse mãe de um deficiente ficaria muito, mas muito ferrada com isso.







[1] Referência aos seres humanos programados para serem deficientes cognitivos e talhados para todo tipo de trabalho braçal e serviços indesejáveis em ‘Admirável Mundo Novo’.