Acídia:
Estado da alma decorrente da
Contemplação de si mesmo e do mundo.
Abandonada à reflexão profunda,
a alma indaga sobre o sentido das coisas,
do ser e da existência. Tal consciência
é algo tão terrível que o ser humano
tende, até inconscientemente, a fugir dela.
E
muito.
Lembro
bem da minha tia, professora aposentada de EMEI, me avisando no começo: - Se
prepara porque você vai pegar um monte de doenças das crianças! Nos últimos
dois anos foram 6 viroses, 2 gripes fortes e 1 pneumonia. É sempre repentino e
no pior momento, você simplesmente acorda de manhã ou até no meio da noite e a
coisa te domina, bagunçando seu dia, sua semana, por vezes até seu mês...
Além
dos vírus e bactérias que compartilhamos todos os dias com centenas de pessoas,
em salas fechadas e com pouca ventilação (ano passado boa parte da minha
comunidade escolar teve que ser medicada contra meningite porque uma aluna
frequentou a escola doente por quase uma semana), temos toda uma demanda
energética e emocional altamente extenuante a nos consumir dia após dia.
É
necessário que você entenda que ser professor é um reinventar-se constante. Uma
sala não é igual a outra, cada grupo exige um professor diferente, uma
linguagem diferente, uma atitude diferente. Cada aluno te aborda de uma maneira
única e o professor é instado a reagir de forma coerente, por mais comum e
desinteressado que ele seja. No meu caso específico, muitas vezes acabo de dar
uma aula num 1º.ano, para crianças de 6 anos ainda sendo alfabetizadas, que
precisam aprender de TUDO e exigem um tratamento mais carinhoso e paciente, e
vou para uma sala de 9º.ano, com caras maiores que eu, cujo tratamento precisa
ser polido, mas muito assertivo, o conteúdo interessante e a disciplina firme (Você
praticamente vai de Branca de Neve a Sniper Americano em 5 minutos...rs...) Isso
demanda uma energia absurda que somando-se ao todo das tarefas burocráticas e
acadêmicas, faz você chegar no final do dia um trapo, mesmo quando o dia é bom
- E dias realmente bons não são nem de longe a maioria. Vale lembrar que 32%
dos professores afastados por motivos de saúde estão em licença psiquiátrica -
isso é algo a se levar em conta.
Afora
todas essas questões insalubres existe o drama da inconformidade diante das
realidades que se nos apresentam. Nenhum ser humano normal consegue ficar
indiferente diante de uma criança ou adolescente em sofrimento, em reais situações
de risco.
É
muito nítido para cada professor sensível e inteligente que conheço aquele
ponto crucial em que se não houver uma intervenção, uma atitude eficaz, um real
envolvimento da escola, aquela vida vai se perder. Aqui não é força de
expressão ou drama, de fato nos deparamos com adolescentes bem na bifurcação
entre se tornar um bandido ou uma pessoa decente, muitas vezes com vidas tão
sofridas que pouco pode ser dito diante de suas experiências, mas, sabe-se lá
porque, é dado ao professor, por mais despreparado e inexperiente que possa
ser, com todas as suas limitações e dificuldades pessoais, o poder e a
oportunidade de, com uma atitude, uma demonstração de afeto e envolvimento, uma
denúncia ao conselho tutelar, muitas vezes umas poucas palavras acertadas,
virar o jogo, oferecer a esse menino ou menina a razão para continuar lutando,
para buscar uma vida melhor (e aqui sempre me lembro do filme ‘O Substituto’).
Todos nós sabemos disso e o peso da responsabilidade é esmagador porque nem
sempre estamos dispostos e inspirados, nem sempre acreditamos que a vida vale a
pena, nem sempre temos a energia e a sensibilidade necessárias para tal tarefa.
Ao fim e ao cabo também somos homens e mulheres mortais, com crises e lutas
particulares e nadando contra a corrente o tempo inteiro.
Os
deveres e as obrigações de um professor são imensos e mesmo que aos trancos e
barrancos, nem sempre da forma mais acertada ou interessante, muitas vezes sem
quase nenhum sucesso, ensinamos o conteúdo de nossas disciplinas, ensinamos
cidadania e, em tempos de desestrutura familiar, ensinamos também como se
tornar gente e regras básicas de educação elementar. Vivemos em embate
constante com a natureza selvagem de nossas crianças. Muitas vezes gostaríamos
de ser o ‘tio legal’ que só brinca e dá risada, mas nos foi legado a parte da
austeridade, da severidade e da disciplina, sem a qual não existe civilização e
NÓS SABEMOS que para muitos dos nossos alunos, somos a única chance de terem
algum preparo para a vida. Ainda assim, temos sido mal formados, mal
remunerados, desvalorizados, desrespeitados pelo nosso país, pelas famílias e
pela sociedade. Trabalhamos demais para pagar contas e nos sustentar. Quem tem
filhos e família, então, nem se fala. No estado conheci um professor que
caminhava 15 KM de manhã e a tarde para ir trabalhar porque se gastasse com
transporte público não pagaria o aluguel. Conheço professor que vende caldo de
cana nos finais de semana, outros que fazem turno duplo ou triplo. Não sei como
aguentam. Mal dou conta de um cargo só. A escola nunca esteve tão mal e nosso
país nunca foi tão ruim. Não deve ser coincidência!
Ainda assim eu insisti e insisto. Porque nenhum outro trabalho, a exceção da Medicina,
talvez, te dá essa experiência tão plena e intensa de vida. Ser professor é um
exercício total de espontaneidade, exposição e verdade. Você é observado,
avaliado, aproveitado, criticado, admirado, amado, odiado, xingado, apoiado,
acompanhado, copiado, o tempo todo! Não existe meio termo. Não há outra
profissão que te ofereça maior possibilidade de construir e de destruir outro
ser humano como o magistério. O poder disso é inebriante e muito estimulante. E
eu sou intensa, preciso de intensidade para me sentir viva. Coisas meia boca me
enojam, me entojam, me cansam. Eu realmente gosto da efervescência da escola e
da oportunidade de entrar de sola na vida daquelas crianças todo dia.
Ano
passado, em minha primeira experiência na rede municipal conheci uma aluna e
uma professora que me tiraram do ceticismo absoluto e essa experiência ainda
mantém acesa uma chama pequena, mas forte em meu peito.
A
primeira vez em que vi M nos corredores da escola levei um baita susto. Minha
experiência prévia como psicóloga clínica, se por um lado me prepara melhor
para diagnósticos e prognósticos, por outro me dá uma percepção acurada e um
tanto alarmante que tende a se tornar um pouco fatalista. Aquela criança
raquítica, minúscula, com cabelo desgrenhado, olheiras profundas e andando nas
pontas dos pés como um autista severo, não causava a menor boa impressão. M
caminhava pelos cantos, sempre apoiando as mãos nas paredes, frequentemente
atropelada pelos maiores e mais agitados, sempre correndo e se empurrando pelas
escadas, confusa e em completo abandono. Sua fala era gutural, seu
aproveitamento escolar nulo, não parecia se orientar no tempo e no espaço, na
verdade não parecia sequer saber o que fazia ali. Eu a vi, inúmeras vezes,
tendo brinquedos arrancados das mãos sem sequer fazer menção de reagir, sendo
rejeitada e ofendida por outras crianças sem sequer parecer perceber o que
estava lhe acontecendo, completamente apática, indiferente, habitante em outro
mundo.
Investigando
um pouco com outros professores, descobri que tinha 8 anos, embora parecesse
ter uns 4. Estava na escola fazia seis meses, era uma criança de abrigo e já
tinha inclusive melhorado muito a tão falada ‘socialização’. Fiquei imaginando
o que devia ter sido seu início na escola.
Aos
poucos fui me aproximando dela quando visitava sua sala com a outra professora
de inglês. A vantagem da aula compartilhada é que enquanto uma se encarrega das
tarefas e conteúdos, a outra pode se relacionar com os alunos, ajudar quem tem
dificuldades e (no meu caso) investigar. Logo percebi que M não era autista,
mas estava longe de ser uma criança normal. Depois de vários encontros passou a
me reconhecer, me abraçar, sentar no meu colo e pedir coisas como lápis, papel
e algum brinquedo. Achei tão espantosa a velocidade de sua evolução que comecei
de fato a fazer perguntas, pedir para ver prontuários e para conhecer sua
professora.
O
fato é que M, bem como sua irmã mais velha, foram encontradas vivendo com sua
mãe e avó, ambas depressivas graves e acumuladoras, numa casa que mais parecia
uma caverna de lixo do que um lar, após a mais velha pular a janela da casa
para ir atrás de comida. Ambas estavam raquíticas, nunca haviam frequentado
escola, não tomavam sol, viviam como morceguinhos numa gruta escura, apinhada
de tranqueiras que sua mãe e avó, ambas pacientes psiquiátricas graves,
recolhiam das ruas. Obviamente foram entregues ao conselho tutelar, abrigadas e
matriculadas na escola.
Devido
a essas políticas educacionais ‘geniais’, que são incapazes de enxergar o ser
humano como indivíduo, mas nos colocam a todos numa massa informe, em nome do
pragmatismo, M foi colocada numa sala de 2º. ano, devido à sua faixa etária.
Para
uma criança que sequer tinha visto um lápis na vida, não possuía qualquer
coordenação motora fina, nunca tinha sido estimulada de forma intencional por
nenhum adulto e estava tendo, pela primeira vez, a oportunidade de conviver com
outras pessoas, aquilo tudo era absurdamente insano.
Ainda
assim, e com mais 30 alunos na sala de aula, alguns também com dificuldades de
aprendizagem, sua professora, que já tinha 20 e poucos anos de escola pública e
teria todos os motivos do mundo para ser uma profissional cansada, medíocre e
acomodada, apenas esperando a aposentadoria chegar (como vemos muitos por aí),
fez um trabalho simplesmente maravilhoso com essa menina e em 6 meses eu já a
via tentando escrever letras, desenhando e colorindo, muito mais presente,
participativa e orientada, inclusive já interagindo e até brigando com seus
colegas quando se sentia agredida ou desrespeitada. Apesar de estar num abrigo
para crianças maiores para não ser separada da irmã, que não conheci
pessoalmente por estudar em outro período, o que nunca é muito recomendável
nesses casos, M parecia com melhor aparência geral e desabrochando.
Para
mim, o momento mais marcante dessa história, para o bem e para o mal, foi o
último conselho de classe do qual participei nessa escola. Como professores de
Inglês, Artes e Educação Física entram tanto nas salas de Fundamental 1 quanto
na de 2, somos chamados a opinar em vários conselhos. O último conselho acaba
sendo uma espécie de preparação para o próximo ano, alunos são avaliados,
dependendo da série até reprovados (E sim, dedicarei um texto à famigerada
‘aprovação automática’ e como ela assassinou a educação), professoras fazem
escolhas de sala para o ano seguinte, dividem os alunos, trocam de sala quando
necessário, etc.
Ao
falar de M a comoção foi geral. Todos os professores que tinham tido contato
com ela queriam comentar e opinar, todos felizes com sua evolução. Sua
professora veio então com uma sugestão que, a meu ver e na opinião de todos os
outros professores, não era apenas brilhante, era PERFEITA para o caso - traria
todo o ajuste necessário para que M retomasse o seu desenvolvimento num ritmo
adequado e, realmente, tivesse uma chance, de em curto prazo, retomar uma
evolução normal, afinal já tínhamos nos dado conta que seu problema tinha sido
tão somente o mau trato e a falta de estimulação, não uma falha cognitiva ou
transtorno mental.
Sua
atual professora, com quem M tinha feito um ótimo vínculo afetivo e de
confiança, estava migrando para o 1º.ano, com toda a razão do mundo ela
acreditava que se M fosse colocada no 1º.ano, em vez de ir para o 3, como o
sistema pedia, poderia aprender as coisas do começo, junto com as outras
crianças, num ritmo adequado para sua aprendizagem e, então seguir em frente,
ainda que um pouco atrasada, mas sem prejuízo real. A professora se dispunha a
continuar com ela, uma vez que já a conhecia e tudo mais. Todos obviamente aplaudimos
sua ideia e eu, particularmente, já tinha isso como aprovado, afinal a
coordenadora tinha um discurso sempre tão progressista, tão politicamente
correto e modernoso, tão em prol dos ‘oprimidos' e, agora eu vejo bem, tão
falso.
Foi
aí que mais uma vez me deparei com o vício brasileiro por excelência - A
DEMAGOGIA.
(E
aqui abro um parêntese para você que vive em prol de discurso e doutrinação,
seja ela política ou religiosa - Tudo que você defende não passa de uma
abstração vazia! Abstrações não tem nome, não tem cheiro, não tem pele e não
respiram. Abstrações não te abraçam, nem dão risada com você, não te fazem
companhia nas horas boas e ruins, abstrações não tem nada a ver com a VIDA
REAL, não tem a ver com ESPONTANEIDADE, com VERDADE. Tudo o que vc faz quando
entrega sua alma, sua vontade e sua vida, à essas amarras das ‘pseudo-causas’
que te apresentam é boicotar sua própria existência e, no caso de quem leva
isso para a escola ou para a igreja, a de centenas de outras pessoas. No fim
das quantas o que realmente conta é o que de verdadeiro você viveu, as pessoas
que pode amar e ajudar a viver melhor. Toda essa lenga-lenga doutrinária, fruto
de mentes neuróticas e infelizes, cheias de regras e ideias de Jerico que na
prática nunca funcionam, são apenas redes nas quais você se aprisionou para
continuar se encastelando e não precisar se arriscar a viver, vencer o seu medo de
amar, de compartilhar da sua existência com outros seres humanos reais. Deus
não está nisso! Justiça não está nisso! Vida não está nisso! A solidão é toda
sua, não minha, nem das outras pessoas que são capazes de amar e de se entregar
em relações verdadeiras com pessoas de carne e osso, com dilemas reais de
existência. A solidão é toda sua e não se iluda, ela não te faz uma pessoa
melhor, só te faz uma pessoa fria, vazia, amarga e louca. #ficaadica)
A
coordenadora, não só foi irredutivelmente contra a ideia, como praticamente nos
acusou de protecionismo. Disse que leis devem ser seguidas, que nenhum outro
aluno com dificuldades tinha tido tal vantagem e que M não era melhor do que
ninguém para ter privilégios. Achei aquilo tão absurdo e desproporcional que
não pude ficar quieta. Falei que nossa escola era pequena, que poderíamos
facilmente explicar o caso para a supervisora, que M não precisava ser
formalmente matriculada no 1º. ano se isso traria problemas para a escola, que
arranjos poderiam ser feitos entre a atual professora de M e a do 3ª. ano e
todos concordaram comigo. A coordenadora me olhou como se eu estivesse
sugerindo algum tipo de crime ou sei lá, foi extremamente grosseira, insensível
e mesmo diante das lágrimas da professora de M continuou negando àquela menina
desfavorecida ao extremo uma chance de alavancar sua vida e seu
desenvolvimento. Saiu da sala com sua empáfia e nos deixou sem fala, sem
direito à réplica, impotentes.
Nunca
na vida vou esquecer o choro daquela professora.
Era
verdadeiro.
Era
sentido.
Era
de quem tem consciência da responsabilidade em seus ombros.
Eu
a abracei e agradeci por ter resgatado minha esperança na educação e na escola
pública. Ela apenas deu um meio sorriso e disse: - É difícil, prô! É muito
difícil.
Não
sei o que foi feito de M., tive que me mudar de escola no final do ano.
Provavelmente as professoras devem ter feito algum arranjo clandestino que
sequer vai ser notado pela tal coordenadora, afinal ela pouco subia nas salas
mesmo, mas aposto que ninguém desistiu dela.
Hoje
trabalho numa escola com uma população gigantesca de inclusão. Exceções são
feitas todos os dias, simplesmente porque a realidade se impõe e não somos
idiotas. De tudo isso fica o fato de que professor é gente, se envolve, se
cansa, se machuca e adoece, muitos estão desistindo, poucos jovens ambicionam
essa carreira profissional, mas a escola continua aberta, as crianças chegam
aos borbotões e esse carrossel não para e não vai parar! Se o país como um todo,
se cada cidadão adulto e responsável, não se conscientizar da necessidade de
uma escola robusta, com estrutura física, humana e acadêmica decentes, não
existirá futuro para o Brasil - o presente já destruímos, vocês sabem!
[1] E aqui falarei sempre daqueles que de fato
SÃO PROFESSORES, não dos pilantras e oportunistas que vivem nos sobrecarregando
com suas licenças médicas falsas e trabalhos mal feitos, esses pagarão por sua
canalhice no momento oportuno e não perderei tempo escrevendo sobre essa gente.
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