...a voz é o veículo por meio do
qual o escritor se expressa como entidade
viva.
A. Alvarez in A Voz do Escritor
A primeira
vez que pisei numa sala de aula como professora foi em 2012. Ainda era
estudante de Letras (manhã), fazia também o Mestrado em Literatura (tarde) e
atendia alguns pacientes (noite). Nunca na vida estive tão pobre, tão atarefada
e tão produtiva. Diante da obrigatoriedade de um estágio inútil (em outro texto
falaremos sobre a formação deficitária oferecida aos professores) e da
possibilidade de ganhar uma grana extra, fui ser a famosa ‘eventual’ numa
escola pública estadual na zona leste de São Paulo, onde nasci e vivo.
Lembro-me
de entrar por um portão automático de ferro, percorrer um longo corredor e
parar diante da porta fechada do 5º. ano C, onde daria a primeira (das sempre
muitas e absenteísmo será outro tema discutido por aqui) aula do dia e da minha
vida.
Antes de
nada, acho importante contar de forma rápida o que me levou a escolher a
carreira profissional mais ingrata deste país (neste ponto você pode achar exagero,
mas bastaria um mês ou dois numa escola de risco, numa Itaquera ou Capela do
Socorro da Vida e me daria total razão).
Minha
primeira formação é em Psicologia Clínica. Estudei Psicoterapia Infantil e de Adolescentes
no CEAPIA de Porto Alegre e durante anos trabalhei só em consultório. Quando
voltei para São Paulo, porém, precisando dar uma espairecida e de algo mais
leve (do ponto de vista da miséria humana, não do conteúdo de trabalho), dei
uma passada de 3 anos e meio no mundo do comércio, na Livraria Cultura para ser
mais exata, onde, além de comprar quase toda minha biblioteca e conhecer muita
gente legal, ainda tive a honra de trabalhar como CAC (ou apagador de incêndios
do varejo). Dessa experiência guardo os resultados de importantes descobertas
sobre mim mesma e um certo vício em uma atividade frenética, vibrante e
coletiva.
Quando
voltei para o consultório em 2010-2011, fui ficando cada vez mais injuriada de
passar, muitas vezes, 11 horas por dia, sentada, falando baixinho, confortando
e ouvindo pessoas com as mais diversificadas dores de alma. Percebi que eu era
boa como psicoterapeuta, que não queria deixar de ser uma, mas que se não
tivesse outro tipo de atividade para compensar toda essa energia, minha
carreira como psicóloga estaria com os dias contados.
A escola
então entrou na minha vida para me dar um pouco de extroversão e alegria. E ela
me dá isso, todos os dias, apesar de todos os conflitos, dramas e incertezas.
Voltando àquela
segunda de fevereiro de 2012.
A porta se abriu
e a professora anterior saiu. Assustei-me um pouco com sua aparência física. É
fato que não sou a pessoa mais atenta do mundo no que tange ao modo das outras pessoas
se vestirem, mas aquele aspecto desleixado, sujo e meio desesperado, só tinha
visto antes quando fazia estágio em hospital psiquiátrico.
Ela passou
por mim, me cumprimentou com um grunhido e eu entrei. Entrei para ver uma das
cenas mais bizarras da minha vida: O tumulto generalizado não seria tão
impactante se a primeira criança que consegui diferenciar não estivesse
chorando e com o braço todo ensanguentado, o menino boliviano, com seu ‘portunhol’
muito truncado, chorava e tentava explicar como o outro menino, naquele mesmo
momento sendo agredido por uma garota que tentava enfiar sua cabeça na gaveta
embaixo da mesa, havia arranhado seu braço com uma tesoura. Não havia um único
aluno sentado. Dois ou três meninos desenhavam coisas na lousa e entre
tentativas de Naruto, saíam alguns pênis cubistas ou expressionistas. Outro
grupo brincava de pega a pega, enquanto três meninas dançavam e cantavam funk
em cima das carteiras. O barulho era tão esmagador e o ambiente tão pesado, que
saí e fechei a porta pelo lado de fora. Respirei fundo umas três ou quatro
vezes. Pensei que aquilo não era para mim, que eu não iria conseguir, que se a
sala com crianças de 11 anos parecia um quadro do Bosch girando num
caleidoscópio, eu jamais daria conta de um ensino médio no noturno. Como uma
pessoa que se acostumou a falar baixo e da forma mais acolhedora possível teria
voz para organizar aquele manicômio infantil?
Não, eu não
desisti.
Fiz a maior
cara de brava possível e entrei na sala de novo. Atravessei até a mesa
destinada ao professor, fechei bem a caixinha de giz e bati com ela na mesa com
toda a força que pude arranjar. Todas as crianças olharam para mim ao mesmo
tempo, era a minha deixa, concentrei toda minha atitude no tom da minha voz e
gritei: - Sentados !!!!!!!!! A cena a seguir iria se repetir inúmeras vezes
pelos dias que se seguiriam, tanto nas salas de aula quanto nos pátios e lembro
bem de uma professora sinistra (que tirava duas licenças todos os anos e só aparecia
um dia ou dois na escola entre elas) comentando conosco numa vez: - Eles não
parecem um monte de ratos correndo para o bueiro?
Assim que
todos se sentaram, me apresentei e propus a atividade do dia. “Não dê um
sorriso. Se eles perceberem que você é legal, você está morta. No quinto ano você
tem que escolher entre ser a Malévola ou a Cruela. Se for princesa eles te
engolem.” Aconselhou uma professora veterana ao me conhecer. O que nos leva ao
primeiro grande tema a ser abordado aqui: Qual é o limite entre disciplina e
punição? Por que as crianças só respondem positivamente ao serem abordadas com
severidade? Como adquirir um senso de autoridade que nos torne de fato ouvidos?
O fato é
que em meu primeiro ano como professora tive aulas nos cinco quintos anos da
escola, quase todos os dias. Acreditem vocês ou não, mas até lidar com os
maconheiros do Ensino Médio era mais fácil. A maioria não sabia ler direito,
escreviam mal, não acompanhavam as aulas e, portanto, faziam bagunça.
E aqui vai
uma dica para pais e professores jovens: A maioria das crianças que
tumultuam as aulas são crianças com dificuldades de aprendizagem. Investiguem!
Essa dificuldade pode ser causada por problemas emocionais, quase regra nos
dias de hoje, tanto na escola pública, quanto na particular, ou por problemas
de ordem física ou mental mesmo. Eles fazem bagunça para não terem que lidar
com a própria limitação. Ao se tornarem líderes da confusão se sentem aceitos
pelo grupo, que geralmente serve de plateia, e boicotam não só as aulas, como a
própria aprendizagem. Precisam de ajuda!
Já se passaram 6 anos desde que entrei no 5º.C pela primeira vez e a realidade de se perder uns 20 minutos de aula, no mínimo, organizando a sala para aprender, é posta e diária. A maioria das crianças de hoje, dentro das escolas, não cuidam de si mesmas (no sentido de se preservar), não cuidam de seu material escolar, não tem o menor prazer com o aprendizado, não respeitam os professores nem os colegas, não se localizam direito no tempo e no espaço e são extremamente agressivas, tanto verbalmente quanto fisicamente. Em todas as escolas que passei, e foram 5 até agora (3 públicas e 2 particulares), o dilema da falta de limites permanece e predomina.
Lembro nessa hora da aula de psicodiagnóstico - A criança superprotegida ou a criança abandonada apresentam os mesmos sintomas de Transtorno de Conduta. Na escola temos os dois tipos. De um lado temos os alunos ‘snowflake’ cujas mães comparecem quase diariamente para reclamar de broncas ou de notas baixas (tive uma que escreveu na prova: ‘Nota cancelada pela mãe’...rs..) e que serão aqueles adultos cujos progenitores irão à reunião de pais dos filhos na faculdade (como andam fazendo algumas faculdades particulares). Do outro temos as crianças em situação real de risco, muitas vezes filhos de presidiários ou até crianças de abrigo mesmo, abandonadas. No meio temos os autistas, os deficientes mentais e os físicos. Ao redor, as crianças mais preservadas, tentando adquirir algum conteúdo nas brechas que essa dinâmica insana deixa para o professor ensinar. É cansativo, é caótico, é desalentador e o sistema não facilita em nada.
Resolvi
criar esse blog para contar do nosso nado livre contra a corrente. De como
existem sim, apesar dos pilantras e deslocados, muitos professores realmente sérios,
sufocados pela horda de incompetência, burocracia e políticas ruins, dentro da
escola pública; ou castrados em toda sua autonomia e criatividade, por meio do ‘empreendedorismo
mercantil’ da escola particular. Também para relatar como testemunha, não como
juíza, toda desestrutura das famílias, o sofrimento das crianças e dos
adolescentes e a consequência dessa situação para o ambiente escolar e para o
processo de ensino-aprendizagem. Naturalmente jamais existirão nomes próprios por
aqui, a privacidade (que quase não temos mais) é essencial ao ser humano e será
plenamente respeitada sempre em meus relatos. As discussões são muitas e os
problemas também, irei falando deles aos poucos. Sintam-se a vontade para
seguir, comentar e perguntar! Discutir a escola é urgente e fundamental! Ainda
sou muito jovem na escola para ter soluções, embora os mais antigos também não
as tenham ainda, mas tenho uma voz e pretendo usá-la, entre outras coisas, em prol
da educação.
Parabéns pela iniciativa!
ResponderExcluirObrigada!
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