quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O Sistema




A capacidade da mente racional de enganar,
manipular, esquematizar, fraudar,
falsificar, minimizar, desorientar, trair,
prevaricar, negar, omitir, racionalizar,
polarizar, exagerar e obscurecer é tão infinita,
tão extraordinária, que os séculos de pensamento
pré-científico, concentrados em esclarecer a
natureza do esforço moral, a consideram nitidamente
demoníaca. E não por causa da própria racionalidade
como processo. Esse processo pode produzir clareza
e progresso. Mas porque a racionalidade está
sujeita à pior tentação - elevar o que se
sabe agora ao status de um absoluto.
Jordan B Peterson

Veja! Diante dele toda segurança é apenas
ilusão,pois basta alguém vê-lo para
ficar com medo.Ninguém é tão corajoso para
provocá-lo. Quem poderia
enfrentá-lo cara a cara? Quem jamais
se atreveu a desafiá-lo
e saiu ileso.
Jó 41.1 e 2
(sobre o Leviatã)



     O Leviatã é uma criatura que faz parte da mitologia hebraica. Seu nome vem do hebraico liwjathan que quer dizer ‘animal que se enrosca’ e é conhecido como um monstro marinho. Descrito em Jó 41 como um monstro pavoroso e invencível, tem servido de metáfora para tudo aquilo que o homem não consegue enfrentar, que o enreda, o aprisiona e o destrói.

     O filme russo de mesmo nome, dirigido por Andrey Zvyagintset, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 e conta a história de um homem simples, com uma vida prosaica e algo inocente, que é completa e brutalmente engolido pela burocracia do sistema russo. Sem dar nenhum maior spoiler, recomendo, assistam, é brilhante! Lembro-me de ter saído do cinema simplesmente embasbacada, perplexa, com um nó no estômago e uma raiva surda, principalmente, porque vivendo num país como o nosso, lidamos com as redes do Leviatã todo santo dia, ainda mais quando se trabalha em redes de ensino.



     Outros dois excelentes exemplos dessa gosma abstrata que nos controla, suga nossa energia, adia e impede os nossos avanços e progressos, são o romance O Castelo de Kafka e o conto A Fila de Murilo Rubião. Ambos, cada um à sua própria maneira, descrevem as angústias e, em especial, a impotência com a qual nos deparamos quando diante de sistemas de regras e exigências neuróticas e abusivas que nos cortam as asas da imaginação, as pernas da mobilidade, os braços da ação e, ao final, nossa racionalidade e com ela nossa sanidade mental e física.

     Na escola são múltiplas as facetas do Leviatã. Podem surgir com a careta abobada das ‘burrocracias’ do funcionalismo público, criando dramas absolutamente desnecessários e inexistentes num lugar gerido por pessoas inteligentes e podem te deixar desempregada em fevereiro (pior época para procurar emprego na educação), como aconteceu comigo certa vez, quando a ‘secretina’ da escola se esqueceu de avisar a diretora da data da renovação do meu contrato e todas as minhas aulas de reforço e recuperação paralela foram para atribuição, aparecendo na escola para requerê-las uns 30 professores com pontuação maior que a minha, afinal, era meu primeiro ano na rede pública e eu nem era concursada. Não podendo fazer nada, a diretora apenas se lamentou e me pediu desculpas. Embora, por incrível que pareça, apesar de todo prejuízo que as mazelas administrativas do sistema possam te causar individualmente, nada se compara ao poder destruidor que a faceta das políticas de ensino de ensino equivocadas exercem no coletivo.

     A primeira vez em que tive a consciência de estar, de verdade, diante do Leviatã na escola, quando vi seus dentes, suas costas cascudas e seu potencial de devastação, foi ao estrear num conselho de classe e descobrir a famigerada ‘Progressão Continuada’, que é sim um sinônimo de aprovação automática. Diz a lenda (e eu sempre acredito em lendas, faz parte de ser uma boa professora de Literatura...rs..) que a ideia começou na França e, na teoria, funcionaria como um meio de reduzir o número de reprovações, fazendo o aluno ser avaliado em ciclos maiores do que um ano e em vez de ser reprovado anualmente, poderia se recuperar por meio de reforços consecutivos. No Brasil, começou a ser implantada quando Paulo Freire foi secretário de Educação em São Paulo. Tudo isso com base na ideia de que o aluno ficaria desmotivado com a reprovação e acabaria não se esforçando mais nos estudos. A adoção definitiva se deu em 1996, no governo de FHC, por causa da Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

     Faço questão de salientar que não duvido que por trás dessa política tenham existido boas razões e boas intenções. Da mesma forma que não acho que as pessoas são apenas boas, também não creio que sejam más de todo. Acho que na teoria, em países com melhores estruturas e mais recursos, talvez essa ideia tenha sido muito eficaz e realmente mais interessante, mais inclusiva e até mais producente do ponto de vista das crianças com dificuldades de aprendizagem, mas o fato é que por aqui toda mudança é implantada sem um planejamento e preparação adequados, sem que se criem condições para que tais políticas alcancem resultados positivos. Joga-se a nova regra no colo das unidades escolares e é cada um por si, o resultado sendo, de forma inequívoca, o de transformar-se algo ruim (e não podemos ser obtusos ao ponto de achar que a escola por aqui em algum momento realmente foi satisfatória, se tivesse sido, provavelmente teríamos evoluído como país, não regredido tanto) em algo muito pior. Aliás, fazer a mágica do ‘nada pode ser tão ruim que não possa piorar’ parece ser prerrogativa do brasileiro.

     Na real, parece que se tratava de uma necessidade do PSDB de aumentar o número de aprovações, garantindo que o Brasil alcançasse certas metas e com isso se classificasse para receber algumas verbas internacionais bastante significativas e que jamais foram aplicadas na escola e se foram, ninguém ficou sabendo onde e como. Ao fim e ao cabo, a adoção dessa política parece nunca ter sido mais do que uma manifestação do velho e escroto ‘jeitinho brasileiro’ para conseguir uma grana extra e estamos pagando a consequência disso com toda uma geração de analfabetos funcionais indo para a faculdade sem conseguir escrever um parágrafo de texto com coesão e coerência.

     Na prática, com a progressão continuada fomos acumulando mentiras em cima de mentiras. A avaliação da aprendizagem do aluno se tornou uma mentira. Subestimando sua capacidade de lidar com as frustrações consequentes de um possível mau desempenho, nós os tornamos uns idiotas, frágeis, cada vez mais infantilizados e mimados, incapazes de se responsabilizar por suas atitudes e de qualquer esforço real para aquisição de conhecimento. A desqualificação da escola e da figura do professor galopou a passos largos, a desautorização por parte do sistema, que o impede de avaliar de forma verdadeira o progresso do aluno, afetou a autoestima do professor e a credibilidade de seu papel perante as famílias e a sociedade. O resultado disso foi a desvalorização da profissão, da qualidade da formação acadêmica, que o MEC (já no governo PTista) fez o favor de comprometer por meio de currículos cada vez mais pobres e com conteúdos cada vez mais fakes e sem sentido. Obviamente, isso comprometeu a qualidade de ensino e a maioria dos alunos perdeu completamente o interesse por qualquer contribuição de qualquer figura de autoridade, o que tem um potencial de desestrutura e caos social extraordinário, deixando o país todo à mercê de ideologias malucas de toda ordem e de interesses totalitários.

     As notas são uma mentira, as aprovações são uma mentira, o esforço do aluno em sala de aula é uma mentira, a dedicação do professor virou uma mentira, a escola virou uma mentira e o resultado disso vimos essa semana na avaliação nacional do Ensino Médio, um verdadeiro fiasco!

      A zumbificação dos adolescentes e a histeria das crianças são coisas que presenciamos todos os dias em sala de aula e tem ficado cada vez mais assustador para o professor minimamente consciente e que ainda tem uma mente sã. Os alunos têm perdido paulatinamente a capacidade de ouvir, de escutar, de se abrir para a fala do outro, principalmente se o outro for um adulto.

     A mentira começa já na pré-escola. Crianças que possuem a maior aptidão para aprendizagem de línguas a partir de 3 anos de idade, agora são proibidas de serem alfabetizadas até 7 ou 8 anos, porque elas devem ‘brincar’, como se aprender a ler e a escrever não pudesse ser uma grande brincadeira (só um idiota que nunca deu aula para crianças pode achar que a criança não se diverte ao aprender a ler). Aos 7, 8 anos, sem nenhuma familiaridade com as letras e, provavelmente, sem nenhuma disciplina e organização interna adquirida, já que passou anos correndo pelo pátio e gritando desembestadamente, o pequeno começa com as letras de forma e só depois aprenderá as de mão, nessa pedagogia retardada que o atrasa ainda mais, porque o condena a ficar até o terceiro ano agindo como se fossem dois alfabetos diferentes, lendo isso, mas não aquilo e usando o dobro de tempo e do esforço para adquirir a capacidade de leitura, algo simplesmente incompreensível para quem aos 5 anos já tinha trilhado toda ‘Caminho Suave’ sem stress e com sucesso. By the way, caderno de caligrafia virou sinônimo de punição e crianças com letras ilegíveis até para si mesmas viraram a fruta da estação.

     Se a professora não tem crítica pessoal, até o 5º., 6º. ano não se trabalha de forma direta nada relacionado às regras gramaticais. Tudo gira em torno de ‘interpretação de texto’ e textos com conteúdos ‘conscientizadores’ que não levam em consideração o fato de que a capacidade para o raciocínio abstrato só está madura lá pelos 17, 18 anos, tornando tema como bulling, gordofobia, homofobia, racismo, feminicídio, corrupção e etc, repetidos ao extremo, em banalidades, uma vez que a criança não dimensiona ainda isso com seu significado correto e vai adquirir um ‘discurso’ de imitação que em sua consciência íntima não representa nada.   O aluno tem chegado ao final do Ensino Fundamental 2 sem real capacidade de manejo da linguagem, com uma capacidade limitadíssima para produção de textos, raros tem hábitos de leitura que ultrapassem as legendas dos games, mais raros ainda os que tem algum interesse real em aprender qualquer coisa. Pelo menos essas são as queixas que ouço todos os dias na sala dos professores.

     Fica a pergunta: Qual é a profundidade de uma interpretação de texto para um aluno que não domina a língua?

     O sistema também nos engole quando matricula 60 crianças com necessidades especiais numa escola sem estrutura, sem treinamento, sem pessoal suficiente e sem recursos reais de atendimento a essa população, mas disso falaremos em outro texto.

     O sistema também trucida a escola particular, na medida em que o interesse empresarial suplanta o educacional e, na ânsia por manter alunos pagantes a qualquer custo, usa-se de mentiras para mimar pais de alunos mimados que não podem ser repreendidos, nem tirar notas baixas e nem ser contrariados, afinal, os alunos ‘pagam’ o salário do professor’. Tive uma mãe maluca que devolveu a prova corrigida da filha com a inscrição em vermelho “nota cancelada pela mãe”. Naturalmente, não cedi e a coordenadora resolveu o caso, mas sim, como toda escola pequena e de periferia, faziam mil absurdos para segurar pais e chegava a ser desprezível. Por esse e por outros motivos que aos poucos irei contando, dei graças a Deus quando passei no concurso da prefeitura.

     Algo que a escola pública te dá, a despeito de todos os problemas, é espaço para criar e autonomia na escolha de material e de métodos de ensino. Não aguentava mais dar aula numa escola que tinha lousa digital, mas que não tinha sequer dicionário na biblioteca, biblioteca essa que funcionava de enfeite porque os alunos não podiam pegar livros emprestados nela. Fora aquelas apostilas chatíssimas e mal feitas, as quais você é obrigado a trabalhar cada vírgula, mesmo que seja uma idiotice, porque como os pais pagaram, querem ter certeza de que o filho passou por ali. A impressão que se tem é que você está alimentando um doente com sonda. Não existe espaço para alegria no processo de ensino-aprendizagem, não existe espaço para criar nada, não existe espaço para a busca da excelência ou pelo menos para se buscar um meio alternativo mais interessante de abordagem de conteúdos. Na escola particular o Leviatã tem a forma do tédio, da angústia e da mediocridade. O aluno da escola particular, via de regra, cresce para ser um burocrata, um filhote do sistema e se não tiver a habilidade para pensar por si mesmo e escolher seu próprio futuro, viverá para repetir esse modelo.


     Tenho um amigo, certamente o melhor professor de Língua Portuguesa que conheço, que foi demitido de uma escola onde trabalhava há anos, por não aceitar uma prova feita a lápis, de uma aluna do Ensino Médio, mesmo depois de ter avisado que não aceitaria. O pai da garota fazia várias doações à escola, que também era vinculada a campeonatos esportivos e etc e tal. Diz a lenda que até hoje não conseguiram um professor do seu nível para a escola. Meu amigo, obviamente, já está muito bem empregado.

     Jordan B. Peterson[1], meu atual teórico favorito na Psicologia, diz que “A verdade reduz a terrível complexidade de um homem à simplicidade. A verdade faz com que o passado seja verdadeiramente o passado e faz o melhor uso das possibilidade futuras. A verdade é o recurso natural máximo e inesgotável. É a luz na escuridão.”

     Ele nos recomenda a enxergar a verdade e dizer a verdade. Diz que a verdade não vem disfarçada de opiniões compartilhadas com os outros, mas que ela será PESSOAL. Orienta a que nos comuniquemos de forma cuidadosa, de forma articulada, conosco mesmos e com os outros. ”Isso garantirá sua segurança e tornará sua vida mais abundante agora, enquanto você habita a estrutura de suas crenças atuais. Isso garantirá a benevolência do futuro, divergente como puder ser das certezas do passado.” Porque a verdade floresce renovada das fontes mais profundas do nosso ser, ela evitará que nossa alma murche e morra enquanto passamos pela tragédia da vida.

     “Se sua vida não é o que poderia ser, experimente dizer a verdade. Se você se prende demais a uma ideologia ou se remói no niilismo, experimente dizer a verdade. (...) Diga a verdade, ou pelo menos não minta.” (p.241) Ao lidar com a verdade, da maneira como ela se revela a você, terá de aceitar e lidar com os conflitos que esse modo de SER gera. Ao fazer isso, você amadurecerá e se tornará responsável de formas pequenas e grandes por aquilo que você é e vive. Ao nos tornarmos responsáveis, cuidamos melhor de nós mesmos e de tudo ao nosso redor. Esse cuidado faz o perímetro ao qual nossa atuação pertence uma instância melhor. Se cada um aprender a arrumar seu próprio quarto, podemos dar nossa contribuição efetiva para o desenvolvimento de tudo ao nosso redor. Logo, mudanças pequenas e pontuais funcionam melhor que mudanças genéricas, gigantes e difíceis de se implantar. A iniciativa individual é o que potencializa a transformação coletiva. E NUNCA nada baseado em mentiras pode resultar em bons frutos. ABSOLUTAMENTE NADA.





[1] 12 regras para a vida - um antídoto para o caos (livro com nome de manual de auto-ajuda que quase aposentei na estante sem ler por puro preconceito e que se mostrou um néctar dos deuses no meio do deserto intelectual da atualidade)

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ameaças de Morte




Terremotos, enchentes, pobreza, câncer - somos fortes o suficiente para suportar tudo isso. Mas o mal humano adiciona uma dimensão totalmente nova de sofrimento ao mundo. É por essa razão que o surgimento da autoconsciência e sua consequente percepção de mortalidade e conhecimento do Bem e do Mal são apresentados nos primeiros capítulos do Gênesis (e na vasta tradição que os cerca) como um cataclismo de magnitude cósmica. A malevolência humana consciente pode quebrar o espírito que até mesmo a tragédia não consegue abalar. (...) o mal voluntário que fazemos uns aos outros pode ser profunda e permanentemente prejudicial mesmo para os fortes. (...) A vida é, realmente, ‘sórdida, brutal e curta’, como o filósofo inglês Thomas Hobbes tão memoravelmente observou. Mas a capacidade do homem para o mal a piora. (Jordan B. Peterson, 2018, p.185-186)


Foram duas.

Uma de um menino negro de 11 anos do 5º.ano A.

Outra de um rapaz branco, repetente no 2º.ano Médio noturno.

A primeira foi violenta, impulsiva e direta, mas facilmente contornada, até porque feita por uma criança.

A segunda foi sutil, premeditada, covarde e maliciosa e se não fosse a Providência Divina poderia ter tido consequências muito piores.

Fiz questão de destacar a cor de pele desses garotos, não porque isso seja particularmente importante para mim, mas para mostrar que violência, desestrutura social e familiar e pobreza não tem cor no Brasil. Pelo menos não na periferia de São Paulo.

P era um menino muito pobre, alto para a idade, mas muito magro, sempre de bermuda e chinelo de dedo mesmo em dia frio. Como ‘desgraça pouca é bobagem’, P era também cego de um olho. Depois do ocorrido, quando passei a investigar sua condição de vida, descobri que ficou cego devido a um tijolo, lançado em seu rosto pela própria irmã mais velha num momento de fúria. Não frequentava a escola de forma muito assídua, mas sempre que vinha todos já sabíamos que a tarde seria complicada. Pertencia a uma família enorme, com irmãos e meio irmãos de muitas mães e pais diferentes, seu pai estava preso e a mãe, que raramente comparecia às convocações da escola, era viciada em drogas. O ‘santo’ de P não bateu com o meu desde a primeira vez em que nos encontramos.

Aquilo que chamo de ‘meu estilo pedagógico’ parte sempre de um período inicial de organização da sala e dos alunos para que juntos possamos desenvolver uma atividade humanamente compreensível. Nunca estudei Pedagogia e nem pretendo, acho uma chatice e até hoje não conversei com um pedagogo ou pedagoga que não diga ou demonstre por sua incompetência ou demagogia que só aprendeu teorias banais e impraticáveis, com exceção talvez da Montessori e alguns pontos do Piaget. Acho também que a Pedagogia, de forma geral, insiste em não dialogar com a Psicologia e a Neurociência e propostas absurdas, como a ‘não-alfabetização’ de crianças até 8 anos, simplesmente ignoram uma infinidade de pesquisas científicas que destacam a imensa habilidade linguística das crianças a partir de 3 anos de idade. Também acho completamente PSICOTIZANTE uma educação que não priorize limites e regras básicas de convivência em sociedade. Sendo assim, primeiro eu estruturo e organizo, depois, quando estão prontos para isso, invisto em liberdade e individualidade. JAMAIS O CONTRÁRIO! Afinal, como aprendi com uma excelente professora de Artes na minha primeira escola municipal (Dri, é vc mesmo, linda!), não tem como ensinar a desconstruir se você não ensinou primeiro a construir.

Sendo assim, P, que vivia num universo familiar caótico e violento, reagia de imediato a qualquer tentativa minha de estabelecer ordem em sua sala.

Foram várias tardes difíceis e exaustivas, tanto para ele quanto para mim, mas geralmente, lá pelas tantas, acabávamos chegando a algum tipo de acordo.

Aqui abro um parêntese para destacar que nenhum professor, a não ser que seja um ‘sociopata’, gosta de ficar dando broncas e sendo chato, bravo e exigente o tempo inteiro. É óbvio que seria muito mais fácil e conveniente (e acreditem, muitos fazem isso e eu já vi) simplesmente sentar na cadeira e deixar o circo pegar fogo! Como todo professor acaba dizendo em algum momento, já somos formados e receberemos aquela aula de qualquer jeito, se o aluno não quiser aprender, o problema é 100% dele. Inúmeras vezes nos sentimos lançando pérolas para porcos, principalmente quando você descobre que o sujeitinho está de fone de ouvido, ouvindo ‘funk putaria’ e rindo da sua cara enquanto você explica o conteúdo, mas na real, a maioria de nós não consegue apenas abstrair e tocar o barco até o sinal bater. Algo por dentro nos impulsiona a instar o aluno a se abrir para o aprendizado, ainda que não tenhamos sempre estratégias brilhantes ou sucesso - talvez autoestima, talvez consciência de que esses carinhas sentados de costas fofocando com os amigos serão os próximos eleitores do país, ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, sábios ou ignorantes, sejam quem forem, serão os responsáveis por aquilo que eu e você viveremos no futuro. Isso assusta bastante e nos faz mais conscientes de nossa imensa responsabilidade com essa ‘ alma perdida’...rs..

Naquela tarde em especial, P mostrava-se mais agitado que o normal. Estávamos no final do verão e o sol entrava pela janela sem dó ou piedade, dando de cara com as ‘menininhas de rosa’[1] da classe, que se abanavam, dizendo estar passando mal. P começou então a subir nas carteiras e empurrar as cortinas para cima do varão, tornando impossível que alguém pegasse as cortinas sem subir nas carteiras e deixando o sol entrar de vez pela sala, aumentando a temperatura e o mal estar de todos uns 200%. A indignação das outras crianças foi tanta que eu sequer conseguia chegar até onde ele estava para fazer com que soltasse as cortinas e descesse de cima da carteira. Depois de várias solicitações em vão, falei que chamaria sua mãe e me dirigi para a porta. Em poucos segundos ouvi um estrondo e uma gritaria atrás de mim. Quando me virei, P tinha descido, arrancado o tampo da carteira com as próprias mãos e estava vindo com ele em minha direção, gritando vários palavrões, dizendo que ninguém xingaria sua mãe e que eu iria acordar com a boca cheia de formigas. 

O barulho foi tamanho que a inspetora entrou correndo na sala. Ela e mais 2 alunos seguraram os braços de P que espumava pela boca e tinha uma força absurda para um menino de sua idade. Depois de terem conseguido desarmá-lo, eu o mandei para a diretoria, mas P sentou-se em cima de uma das meninas e recusou-se a sair. Como não podemos tocar em alunos, nem eu, nem a vice-diretora, nem a própria diretora conseguimos retirá-lo da sala de aula.

Já desorientados diante da impossibilidade de resolver a situação, uma vez que P se recusava a sair e sua mãe não estava sendo encontrada, ficamos mais perplexos ainda quando O, do 5º ano B, famoso por ser filho do chefe do tráfico da região e que, embora tivesse suas próprias demandas comportamentais (como ter seus próprios capangas mirins com quem, no recreio, cobrava ‘pedágio’ de meninos menores, fingindo fumar um lápis branco com a ponta pintada de amarelo para parecer um cigarro), gostava muito de mim, entrou pela sala a dentro, pegou P pelo colarinho e o arrastou até a diretoria dizendo: - Onde já se viu ameaçar professora de morte, moleque! Você vai se ver agora é comigo...

P, que além de cego de um olho, pelo visto também era meio surdo, foi suspenso por vários dias e acabou vindo cada vez menos para a escola. Sua situação familiar precária acabou virando caso de conselho tutelar quando a avó, que apesar da idade avançada, era a única a cuidar dele um pouco, faleceu. Quando passei a dar aulas a noite não soube mais dele. Ficou só o relato dessa experiência bizarra de um dia escaldante num 5º ano maluco.

Isso é outro detalhe da realidade do professor: muitos alunos apenas passam por nós, raramente guardamos deles mais que boas histórias, algum nome ou fisionomia, mas a maioria dos alunos lembrará de seus professores, para o bem ou para o mal. Um professor ruim pode simplesmente destruir para sempre a imagem da escola, do processo ensino-aprendizagem e da própria aquisição de conhecimento na mente de um aluno. E a injustiça está no fato de que a criança pode passar por 10 professores bons, razoáveis ou pelo menos decentes, mas vai ser o ruim que deixará as maiores impressões, SEMPRE.

A primeira vez que vi J, ele estava chorando na porta da secretaria porque tinham roubado seu tênis na rua da escola. Segundo soube, tratava-se de um par de tênis muito caro, chamativo e incoerente não só com o bairro onde a escola se localizava, mas também com a realidade de vida daquele garoto. Ainda assim, apesar das orientações da diretora e do policial da ronda escolar a respeito disso, dois dias depois J estava na escola outra vez, com outro par igualmente caro.

Lembro-me de uma professora comentando, na nossa sala, que a maior parte dos meninos que se envolvem com tráfico de drogas não o fazem para colocar comida em casa ou para lidar com as demandas de pobreza familiar, mas por causa de roupas de marca, da vontade de comprar carros bons e pegar menininhas mais bonitas sem ficar anos trabalhando como camelos para isso. O fato é que do mesmo lugar que eles também saíam os meninos que acordavam cedo para trabalhar, ganhando quase sempre um salário mínimo, chegando cansados e famintos na escola para jantar a merenda e dormir nas aulas, gente honesta, do bem, batalhadora.

Na sala de aula, J era até bastante amigável. Nunca gostei muito dos apelidos que me dava, coisas como ‘filha de açougueiro’ e ‘professora bifinho’ soam particularmente desrespeitosos saindo da boca de meninos maiores do que você, mas, como ele sempre parava quando eu o repreendia, nunca dei maior importância ao caso.

A verdade é que passei a encontrá-lo na rua da minha casa, que não era perto da escola, também na estação do metrô que eu usava e até em algumas esquinas de lugares que eu frequentava nos finais de semana. 

J se mostrava sempre muito surpreso e gentil nesses encontros, me chamava de professora e perguntava brincando se eu o estava seguindo. Nunca mesmo imaginei nada a respeito daquilo. Considerava mera coincidência e seguia meu caminho inocentemente, achando engraçado.

No ano seguinte, quando já nem estava mais lecionando no estado, recebi em casa, da minha mãe, que na época era coordenadora lá, a notícia de que ele tinha sido assassinado, provavelmente em algum acerto de contas do tráfico.

Mal sabia eu que meu choque inicial pela notícia não seria nada perto do que me seria revelado.

Entre lágrimas que revelavam o quanto essa situação a tinha ferido, soubemos que J passou meses chantageando-a.

Segundo minha mãe me contou, J entrou na sala dela uma noite fingindo pedir ajuda para um problema pessoal, fechou a porta atrás de si, fez mil elogios à minha pessoa e à minha beleza, disse que imaginava que eu era uma filha muito querida e especial e após minha mãe confirmar tudo isso, super orgulhosa da filha professora, J começou a dizer que ela não fazia ideia do tipo de gente com quem ele andava, que ele sabia onde eu morava, onde eu estudava, onde eu pegava metrô, onde eu costumava ir para me divertir e que se minha mãe não desse dinheiro a ele e se tentasse avisar a polícia, simplesmente ela não me veria mais.

Não preciso nem dizer o terror a que minha mãe foi submetida nos meses que se seguiram. Minha mãe, que é uma mulher muito inteligente e corajosa, não conseguiu lidar com as evidências de que ele realmente poderia me machucar se quisesse. O garoto começou pedindo pouco dinheiro, mas como viu que ela cedia, passou a pedir cada vez mais. Minha mãe conta que o cinismo, o bom humor e a capacidade de articulação desse menino durante as ‘negociações’ eram dignas de um psicopata, sua voz a deixava arrepiada da cabeça aos pés. Na época meu pai estava muito doente, com problemas cardíacos e minha mãe teve medo de contar a ele e prejudicá-lo, também não me contou porque sabia que eu ligaria para a polícia e tentaria resolver as coisas de forma direta, que jamais admitiria essa chantagem absurda e ficou apavorada que ele tivesse cúmplices e a coisa realmente acabasse em tragédia.

Só sei que após alguns meses de chantagem e extorsão que prejudicaram infinitamente a vida financeira da minha mãe, que obviamente não é rica, o indivíduo foi assassinado e, seguramente, deve ter sido a primeira vez na vida que minha mãe sentiu alívio pela morte de outro ser humano. E pensar que se tratava apenas de um garoto! Lembro dele com tristeza e pesar, mas também com certa gratidão, por tamanho livramento e porque esse caso me fez ficar muito mais atenta e menos inocente na vida e na escola. A maldade está aí, mesmo no coração das crianças, especialmente das que crescem em realidades de violência e privação e não podemos ser tolos diante dessa realidade. Podemos e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para mudar essas circunstâncias promotoras de violência, mas também podemos e devemos ser inteligentes, responsáveis, nos proteger e nos preservar. Discurso bonito e boa intenção não resolvem anos de deformação de caráter, nem curam psicopatia.

Como bem disse Jesus Cristo, devemos ser simples como as pombas, mas astutos como as serpentes.

Nem sei que tipo de consequências isso teve no emocional da minha mãe, uma das melhores pessoas que conheço e que jamais deveria ter sido submetida a uma situação dessas. Tamanha injustiça só dá para depositar aos pés de Deus e pedir que Ele seja o Vingador, como Ele realmente foi neste caso e pedir que nos proteja de outra situação medonha como essa. Só sei que a escola em que ela trabalha, que inclusive foi roubada alguns finais de semana atrás (levaram praticamente tudo, só deixaram a geladeira, no meio do pátio, porque talvez não coubesse mais nada na perua velha que usaram para o roubo), até hoje não foi considerada perigosa o suficiente para receber ajuda especial do governo do Estado.

Escrevo tudo isso apenas para esclarecer que existem inimigos ainda maiores nos atacando dentro das escolas do que a ignorância, a crise educacional ou a pobreza que assalta boa parte dos alunos de uma escola pública. O Mal, essa presença certa em tudo que envolve a raça humana, é sempre o primeiro a chegar numa escola de manhã, comparecendo assiduamente nas suas mais diversas formas, que vão desde a fofoquinha malvada da sala dos professores contra os novatos ou contra os que causam inveja, por razões reais ou imaginárias, até as atitudes perversas e criminosas propriamente ditas. Uma escola é um ambiente extremamente democrático, no sentido de que ali dentro coexistem todos os tipos de pessoas, das mais diversas origens e formações, isso acontece para o bem e para o mal.

Acredito que todo professor que se preze precisa exercer uma auto-crítica constante que lhe permita neutralizar o máximo possível seu próprio potencial para o Mal. Isso precisa acontecer não só por uma questão moral, mas também porque as crianças aprendem muito mais com nossas atitudes do que com nossas palavras. Um professor que é obcecado por falar sobre bulling e ele mesmo é o maior fofoqueiro e encrenqueiro da escola, prejudicando a reputação de vários colegas, única e exclusivamente por neurose e dificuldades de lidar com seu ego frágil, definitivamente é o maior demagogo que se pode encontrar. Um professor que levanta a bandeira contra o racismo, mas discrimina pessoas simplesmente por terem uma origem e uma opinião diferente da dele é quase um esquizofrênico em sua percepção da realidade e de si mesmo, e por aí vai...



[1] Termo que uso para nomear as garotas de 11 anos típicas, sempre de cabelos muito compridos, penduricalhos de toda ordem, muita maquiagem e ornamentos, delicadas e extremamente femininas, com cadernos lindos e coloridos. Fofas, frágeis e  emotivas o tempo inteiro, ainda brincam de bonecas e coisas de criança, embora possam escrever cartinhas de amor para meninos e brigar por eles...kkkkk..

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Professores[1] adoecem...




Acídia:
Estado da alma decorrente da
Contemplação de si mesmo e do mundo.
Abandonada à reflexão profunda,
a alma indaga sobre o sentido das coisas,
do ser e da existência. Tal consciência
é algo tão terrível que o ser humano
tende, até inconscientemente, a fugir dela.

E muito.

Lembro bem da minha tia, professora aposentada de EMEI, me avisando no começo: - Se prepara porque você vai pegar um monte de doenças das crianças! Nos últimos dois anos foram 6 viroses, 2 gripes fortes e 1 pneumonia. É sempre repentino e no pior momento, você simplesmente acorda de manhã ou até no meio da noite e a coisa te domina, bagunçando seu dia, sua semana, por vezes até seu mês...

Além dos vírus e bactérias que compartilhamos todos os dias com centenas de pessoas, em salas fechadas e com pouca ventilação (ano passado boa parte da minha comunidade escolar teve que ser medicada contra meningite porque uma aluna frequentou a escola doente por quase uma semana), temos toda uma demanda energética e emocional altamente extenuante a nos consumir dia após dia.

É necessário que você entenda que ser professor é um reinventar-se constante. Uma sala não é igual a outra, cada grupo exige um professor diferente, uma linguagem diferente, uma atitude diferente. Cada aluno te aborda de uma maneira única e o professor é instado a reagir de forma coerente, por mais comum e desinteressado que ele seja. No meu caso específico, muitas vezes acabo de dar uma aula num 1º.ano, para crianças de 6 anos ainda sendo alfabetizadas, que precisam aprender de TUDO e exigem um tratamento mais carinhoso e paciente, e vou para uma sala de 9º.ano, com caras maiores que eu, cujo tratamento precisa ser polido, mas muito assertivo, o conteúdo interessante e a disciplina firme (Você praticamente vai de Branca de Neve a Sniper Americano em 5 minutos...rs...) Isso demanda uma energia absurda que somando-se ao todo das tarefas burocráticas e acadêmicas, faz você chegar no final do dia um trapo, mesmo quando o dia é bom - E dias realmente bons não são nem de longe a maioria. Vale lembrar que 32% dos professores afastados por motivos de saúde estão em licença psiquiátrica - isso é algo a se levar em conta.

Afora todas essas questões insalubres existe o drama da inconformidade diante das realidades que se nos apresentam. Nenhum ser humano normal consegue ficar indiferente diante de uma criança ou adolescente em sofrimento, em reais situações de risco.

É muito nítido para cada professor sensível e inteligente que conheço aquele ponto crucial em que se não houver uma intervenção, uma atitude eficaz, um real envolvimento da escola, aquela vida vai se perder. Aqui não é força de expressão ou drama, de fato nos deparamos com adolescentes bem na bifurcação entre se tornar um bandido ou uma pessoa decente, muitas vezes com vidas tão sofridas que pouco pode ser dito diante de suas experiências, mas, sabe-se lá porque, é dado ao professor, por mais despreparado e inexperiente que possa ser, com todas as suas limitações e dificuldades pessoais, o poder e a oportunidade de, com uma atitude, uma demonstração de afeto e envolvimento, uma denúncia ao conselho tutelar, muitas vezes umas poucas palavras acertadas, virar o jogo, oferecer a esse menino ou menina a razão para continuar lutando, para buscar uma vida melhor (e aqui sempre me lembro do filme ‘O Substituto’). Todos nós sabemos disso e o peso da responsabilidade é esmagador porque nem sempre estamos dispostos e inspirados, nem sempre acreditamos que a vida vale a pena, nem sempre temos a energia e a sensibilidade necessárias para tal tarefa. Ao fim e ao cabo também somos homens e mulheres mortais, com crises e lutas particulares e nadando contra a corrente o tempo inteiro.

Os deveres e as obrigações de um professor são imensos e mesmo que aos trancos e barrancos, nem sempre da forma mais acertada ou interessante, muitas vezes sem quase nenhum sucesso, ensinamos o conteúdo de nossas disciplinas, ensinamos cidadania e, em tempos de desestrutura familiar, ensinamos também como se tornar gente e regras básicas de educação elementar. Vivemos em embate constante com a natureza selvagem de nossas crianças. Muitas vezes gostaríamos de ser o ‘tio legal’ que só brinca e dá risada, mas nos foi legado a parte da austeridade, da severidade e da disciplina, sem a qual não existe civilização e NÓS SABEMOS que para muitos dos nossos alunos, somos a única chance de terem algum preparo para a vida. Ainda assim, temos sido mal formados, mal remunerados, desvalorizados, desrespeitados pelo nosso país, pelas famílias e pela sociedade. Trabalhamos demais para pagar contas e nos sustentar. Quem tem filhos e família, então, nem se fala. No estado conheci um professor que caminhava 15 KM de manhã e a tarde para ir trabalhar porque se gastasse com transporte público não pagaria o aluguel. Conheço professor que vende caldo de cana nos finais de semana, outros que fazem turno duplo ou triplo. Não sei como aguentam. Mal dou conta de um cargo só. A escola nunca esteve tão mal e nosso país nunca foi tão ruim. Não deve ser coincidência!

Ainda assim eu insisti e insisto. Porque nenhum outro trabalho, a exceção da Medicina, talvez, te dá essa experiência tão plena e intensa de vida. Ser professor é um exercício total de espontaneidade, exposição e verdade. Você é observado, avaliado, aproveitado, criticado, admirado, amado, odiado, xingado, apoiado, acompanhado, copiado, o tempo todo! Não existe meio termo. Não há outra profissão que te ofereça maior possibilidade de construir e de destruir outro ser humano como o magistério. O poder disso é inebriante e muito estimulante. E eu sou intensa, preciso de intensidade para me sentir viva. Coisas meia boca me enojam, me entojam, me cansam. Eu realmente gosto da efervescência da escola e da oportunidade de entrar de sola na vida daquelas crianças todo dia.

Ano passado, em minha primeira experiência na rede municipal conheci uma aluna e uma professora que me tiraram do ceticismo absoluto e essa experiência ainda mantém acesa uma chama pequena, mas forte em meu peito.

A primeira vez em que vi M nos corredores da escola levei um baita susto. Minha experiência prévia como psicóloga clínica, se por um lado me prepara melhor para diagnósticos e prognósticos, por outro me dá uma percepção acurada e um tanto alarmante que tende a se tornar um pouco fatalista. Aquela criança raquítica, minúscula, com cabelo desgrenhado, olheiras profundas e andando nas pontas dos pés como um autista severo, não causava a menor boa impressão. M caminhava pelos cantos, sempre apoiando as mãos nas paredes, frequentemente atropelada pelos maiores e mais agitados, sempre correndo e se empurrando pelas escadas, confusa e em completo abandono. Sua fala era gutural, seu aproveitamento escolar nulo, não parecia se orientar no tempo e no espaço, na verdade não parecia sequer saber o que fazia ali. Eu a vi, inúmeras vezes, tendo brinquedos arrancados das mãos sem sequer fazer menção de reagir, sendo rejeitada e ofendida por outras crianças sem sequer parecer perceber o que estava lhe acontecendo, completamente apática, indiferente, habitante em outro mundo.

Investigando um pouco com outros professores, descobri que tinha 8 anos, embora parecesse ter uns 4. Estava na escola fazia seis meses, era uma criança de abrigo e já tinha inclusive melhorado muito a tão falada ‘socialização’. Fiquei imaginando o que devia ter sido seu início na escola.

Aos poucos fui me aproximando dela quando visitava sua sala com a outra professora de inglês. A vantagem da aula compartilhada é que enquanto uma se encarrega das tarefas e conteúdos, a outra pode se relacionar com os alunos, ajudar quem tem dificuldades e (no meu caso) investigar. Logo percebi que M não era autista, mas estava longe de ser uma criança normal. Depois de vários encontros passou a me reconhecer, me abraçar, sentar no meu colo e pedir coisas como lápis, papel e algum brinquedo. Achei tão espantosa a velocidade de sua evolução que comecei de fato a fazer perguntas, pedir para ver prontuários e para conhecer sua professora.

O fato é que M, bem como sua irmã mais velha, foram encontradas vivendo com sua mãe e avó, ambas depressivas graves e acumuladoras, numa casa que mais parecia uma caverna de lixo do que um lar, após a mais velha pular a janela da casa para ir atrás de comida. Ambas estavam raquíticas, nunca haviam frequentado escola, não tomavam sol, viviam como morceguinhos numa gruta escura, apinhada de tranqueiras que sua mãe e avó, ambas pacientes psiquiátricas graves, recolhiam das ruas. Obviamente foram entregues ao conselho tutelar, abrigadas e matriculadas na escola.

Devido a essas políticas educacionais ‘geniais’, que são incapazes de enxergar o ser humano como indivíduo, mas nos colocam a todos numa massa informe, em nome do pragmatismo, M foi colocada numa sala de 2º. ano, devido à sua faixa etária.

Para uma criança que sequer tinha visto um lápis na vida, não possuía qualquer coordenação motora fina, nunca tinha sido estimulada de forma intencional por nenhum adulto e estava tendo, pela primeira vez, a oportunidade de conviver com outras pessoas, aquilo tudo era absurdamente insano.

Ainda assim, e com mais 30 alunos na sala de aula, alguns também com dificuldades de aprendizagem, sua professora, que já tinha 20 e poucos anos de escola pública e teria todos os motivos do mundo para ser uma profissional cansada, medíocre e acomodada, apenas esperando a aposentadoria chegar (como vemos muitos por aí), fez um trabalho simplesmente maravilhoso com essa menina e em 6 meses eu já a via tentando escrever letras, desenhando e colorindo, muito mais presente, participativa e orientada, inclusive já interagindo e até brigando com seus colegas quando se sentia agredida ou desrespeitada. Apesar de estar num abrigo para crianças maiores para não ser separada da irmã, que não conheci pessoalmente por estudar em outro período, o que nunca é muito recomendável nesses casos, M parecia com melhor aparência geral e desabrochando.

Para mim, o momento mais marcante dessa história, para o bem e para o mal, foi o último conselho de classe do qual participei nessa escola. Como professores de Inglês, Artes e Educação Física entram tanto nas salas de Fundamental 1 quanto na de 2, somos chamados a opinar em vários conselhos. O último conselho acaba sendo uma espécie de preparação para o próximo ano, alunos são avaliados, dependendo da série até reprovados (E sim, dedicarei um texto à famigerada ‘aprovação automática’ e como ela assassinou a educação), professoras fazem escolhas de sala para o ano seguinte, dividem os alunos, trocam de sala quando necessário, etc.

Ao falar de M a comoção foi geral. Todos os professores que tinham tido contato com ela queriam comentar e opinar, todos felizes com sua evolução. Sua professora veio então com uma sugestão que, a meu ver e na opinião de todos os outros professores, não era apenas brilhante, era PERFEITA para o caso - traria todo o ajuste necessário para que M retomasse o seu desenvolvimento num ritmo adequado e, realmente, tivesse uma chance, de em curto prazo, retomar uma evolução normal, afinal já tínhamos nos dado conta que seu problema tinha sido tão somente o mau trato e a falta de estimulação, não uma falha cognitiva ou transtorno mental.

Sua atual professora, com quem M tinha feito um ótimo vínculo afetivo e de confiança, estava migrando para o 1º.ano, com toda a razão do mundo ela acreditava que se M fosse colocada no 1º.ano, em vez de ir para o 3, como o sistema pedia, poderia aprender as coisas do começo, junto com as outras crianças, num ritmo adequado para sua aprendizagem e, então seguir em frente, ainda que um pouco atrasada, mas sem prejuízo real. A professora se dispunha a continuar com ela, uma vez que já a conhecia e tudo mais. Todos obviamente aplaudimos sua ideia e eu, particularmente, já tinha isso como aprovado, afinal a coordenadora tinha um discurso sempre tão progressista, tão politicamente correto e modernoso, tão em prol dos ‘oprimidos' e, agora eu vejo bem, tão falso.

Foi aí que mais uma vez me deparei com o vício brasileiro por excelência - A DEMAGOGIA.

(E aqui abro um parêntese para você que vive em prol de discurso e doutrinação, seja ela política ou religiosa - Tudo que você defende não passa de uma abstração vazia! Abstrações não tem nome, não tem cheiro, não tem pele e não respiram. Abstrações não te abraçam, nem dão risada com você, não te fazem companhia nas horas boas e ruins, abstrações não tem nada a ver com a VIDA REAL, não tem a ver com ESPONTANEIDADE, com VERDADE. Tudo o que vc faz quando entrega sua alma, sua vontade e sua vida, à essas amarras das ‘pseudo-causas’ que te apresentam é boicotar sua própria existência e, no caso de quem leva isso para a escola ou para a igreja, a de centenas de outras pessoas. No fim das quantas o que realmente conta é o que de verdadeiro você viveu, as pessoas que pode amar e ajudar a viver melhor. Toda essa lenga-lenga doutrinária, fruto de mentes neuróticas e infelizes, cheias de regras e ideias de Jerico que na prática nunca funcionam, são apenas redes nas quais você se aprisionou para continuar se encastelando e não precisar se arriscar a viver, vencer o seu medo de amar, de compartilhar da sua existência com outros seres humanos reais. Deus não está nisso! Justiça não está nisso! Vida não está nisso! A solidão é toda sua, não minha, nem das outras pessoas que são capazes de amar e de se entregar em relações verdadeiras com pessoas de carne e osso, com dilemas reais de existência. A solidão é toda sua e não se iluda, ela não te faz uma pessoa melhor, só te faz uma pessoa fria, vazia, amarga e louca. #ficaadica)

A coordenadora, não só foi irredutivelmente contra a ideia, como praticamente nos acusou de protecionismo. Disse que leis devem ser seguidas, que nenhum outro aluno com dificuldades tinha tido tal vantagem e que M não era melhor do que ninguém para ter privilégios. Achei aquilo tão absurdo e desproporcional que não pude ficar quieta. Falei que nossa escola era pequena, que poderíamos facilmente explicar o caso para a supervisora, que M não precisava ser formalmente matriculada no 1º. ano se isso traria problemas para a escola, que arranjos poderiam ser feitos entre a atual professora de M e a do 3ª. ano e todos concordaram comigo. A coordenadora me olhou como se eu estivesse sugerindo algum tipo de crime ou sei lá, foi extremamente grosseira, insensível e mesmo diante das lágrimas da professora de M continuou negando àquela menina desfavorecida ao extremo uma chance de alavancar sua vida e seu desenvolvimento. Saiu da sala com sua empáfia e nos deixou sem fala, sem direito à réplica, impotentes.

Nunca na vida vou esquecer o choro daquela professora.

Era verdadeiro.

Era sentido.

Era de quem tem consciência da responsabilidade em seus ombros.
Eu a abracei e agradeci por ter resgatado minha esperança na educação e na escola pública. Ela apenas deu um meio sorriso e disse: - É difícil, prô! É muito difícil.

Não sei o que foi feito de M., tive que me mudar de escola no final do ano. Provavelmente as professoras devem ter feito algum arranjo clandestino que sequer vai ser notado pela tal coordenadora, afinal ela pouco subia nas salas mesmo, mas aposto que ninguém desistiu dela.

Hoje trabalho numa escola com uma população gigantesca de inclusão. Exceções são feitas todos os dias, simplesmente porque a realidade se impõe e não somos idiotas. De tudo isso fica o fato de que professor é gente, se envolve, se cansa, se machuca e adoece, muitos estão desistindo, poucos jovens ambicionam essa carreira profissional, mas a escola continua aberta, as crianças chegam aos borbotões e esse carrossel não para e não vai parar! Se o país como um todo, se cada cidadão adulto e responsável, não se conscientizar da necessidade de uma escola robusta, com estrutura física, humana e acadêmica decentes, não existirá futuro para o Brasil - o presente já destruímos, vocês sabem!








[1] E aqui falarei sempre daqueles que de fato SÃO PROFESSORES, não dos pilantras e oportunistas que vivem nos sobrecarregando com suas licenças médicas falsas e trabalhos mal feitos, esses pagarão por sua canalhice no momento oportuno e não perderei tempo escrevendo sobre essa gente.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Começando do começo ou de como adquiri uma voz




...a voz é o veículo por meio do
qual o escritor se expressa como entidade viva.
A. Alvarez in A Voz do Escritor



A primeira vez que pisei numa sala de aula como professora foi em 2012. Ainda era estudante de Letras (manhã), fazia também o Mestrado em Literatura (tarde) e atendia alguns pacientes (noite). Nunca na vida estive tão pobre, tão atarefada e tão produtiva. Diante da obrigatoriedade de um estágio inútil (em outro texto falaremos sobre a formação deficitária oferecida aos professores) e da possibilidade de ganhar uma grana extra, fui ser a famosa ‘eventual’ numa escola pública estadual na zona leste de São Paulo, onde nasci e vivo.

Lembro-me de entrar por um portão automático de ferro, percorrer um longo corredor e parar diante da porta fechada do 5º. ano C, onde daria a primeira (das sempre muitas e absenteísmo será outro tema discutido por aqui) aula do dia e da minha vida.

Antes de nada, acho importante contar de forma rápida o que me levou a escolher a carreira profissional mais ingrata deste país (neste ponto você pode achar exagero, mas bastaria um mês ou dois numa escola de risco, numa Itaquera ou Capela do Socorro da Vida e me daria total razão).

Minha primeira formação é em Psicologia Clínica. Estudei Psicoterapia Infantil e de Adolescentes no CEAPIA de Porto Alegre e durante anos trabalhei só em consultório. Quando voltei para São Paulo, porém, precisando dar uma espairecida e de algo mais leve (do ponto de vista da miséria humana, não do conteúdo de trabalho), dei uma passada de 3 anos e meio no mundo do comércio, na Livraria Cultura para ser mais exata, onde, além de comprar quase toda minha biblioteca e conhecer muita gente legal, ainda tive a honra de trabalhar como CAC (ou apagador de incêndios do varejo). Dessa experiência guardo os resultados de importantes descobertas sobre mim mesma e um certo vício em uma atividade frenética, vibrante e coletiva.

Quando voltei para o consultório em 2010-2011, fui ficando cada vez mais injuriada de passar, muitas vezes, 11 horas por dia, sentada, falando baixinho, confortando e ouvindo pessoas com as mais diversificadas dores de alma. Percebi que eu era boa como psicoterapeuta, que não queria deixar de ser uma, mas que se não tivesse outro tipo de atividade para compensar toda essa energia, minha carreira como psicóloga estaria com os dias contados.
A escola então entrou na minha vida para me dar um pouco de extroversão e alegria. E ela me dá isso, todos os dias, apesar de todos os conflitos, dramas e incertezas.

Voltando àquela segunda de fevereiro de 2012.

A porta se abriu e a professora anterior saiu. Assustei-me um pouco com sua aparência física. É fato que não sou a pessoa mais atenta do mundo no que tange ao modo das outras pessoas se vestirem, mas aquele aspecto desleixado, sujo e meio desesperado, só tinha visto antes quando fazia estágio em hospital psiquiátrico.

Ela passou por mim, me cumprimentou com um grunhido e eu entrei. Entrei para ver uma das cenas mais bizarras da minha vida: O tumulto generalizado não seria tão impactante se a primeira criança que consegui diferenciar não estivesse chorando e com o braço todo ensanguentado, o menino boliviano, com seu ‘portunhol’ muito truncado, chorava e tentava explicar como o outro menino, naquele mesmo momento sendo agredido por uma garota que tentava enfiar sua cabeça na gaveta embaixo da mesa, havia arranhado seu braço com uma tesoura. Não havia um único aluno sentado. Dois ou três meninos desenhavam coisas na lousa e entre tentativas de Naruto, saíam alguns pênis cubistas ou expressionistas. Outro grupo brincava de pega a pega, enquanto três meninas dançavam e cantavam funk em cima das carteiras. O barulho era tão esmagador e o ambiente tão pesado, que saí e fechei a porta pelo lado de fora. Respirei fundo umas três ou quatro vezes. Pensei que aquilo não era para mim, que eu não iria conseguir, que se a sala com crianças de 11 anos parecia um quadro do Bosch girando num caleidoscópio, eu jamais daria conta de um ensino médio no noturno. Como uma pessoa que se acostumou a falar baixo e da forma mais acolhedora possível teria voz para organizar aquele manicômio infantil?

Não, eu não desisti.

Fiz a maior cara de brava possível e entrei na sala de novo. Atravessei até a mesa destinada ao professor, fechei bem a caixinha de giz e bati com ela na mesa com toda a força que pude arranjar. Todas as crianças olharam para mim ao mesmo tempo, era a minha deixa, concentrei toda minha atitude no tom da minha voz e gritei: - Sentados !!!!!!!!! A cena a seguir iria se repetir inúmeras vezes pelos dias que se seguiriam, tanto nas salas de aula quanto nos pátios e lembro bem de uma professora sinistra (que tirava duas licenças todos os anos e só aparecia um dia ou dois na escola entre elas) comentando conosco numa vez: - Eles não parecem um monte de ratos correndo para o bueiro?

Assim que todos se sentaram, me apresentei e propus a atividade do dia. “Não dê um sorriso. Se eles perceberem que você é legal, você está morta. No quinto ano você tem que escolher entre ser a Malévola ou a Cruela. Se for princesa eles te engolem.” Aconselhou uma professora veterana ao me conhecer. O que nos leva ao primeiro grande tema a ser abordado aqui: Qual é o limite entre disciplina e punição? Por que as crianças só respondem positivamente ao serem abordadas com severidade? Como adquirir um senso de autoridade que nos torne de fato ouvidos?

O fato é que em meu primeiro ano como professora tive aulas nos cinco quintos anos da escola, quase todos os dias. Acreditem vocês ou não, mas até lidar com os maconheiros do Ensino Médio era mais fácil. A maioria não sabia ler direito, escreviam mal, não acompanhavam as aulas e, portanto, faziam bagunça.

E aqui vai uma dica para pais e professores jovens: A maioria das crianças que tumultuam as aulas são crianças com dificuldades de aprendizagem. Investiguem! Essa dificuldade pode ser causada por problemas emocionais, quase regra nos dias de hoje, tanto na escola pública, quanto na particular, ou por problemas de ordem física ou mental mesmo. Eles fazem bagunça para não terem que lidar com a própria limitação. Ao se tornarem líderes da confusão se sentem aceitos pelo grupo, que geralmente serve de plateia, e boicotam não só as aulas, como a própria aprendizagem. Precisam de ajuda!

Já se passaram 6 anos desde que entrei no 5º.C pela primeira vez e a realidade de se perder uns 20 minutos de aula, no mínimo, organizando a sala para aprender, é posta e diária. A maioria das crianças de hoje, dentro das escolas, não cuidam de si mesmas (no sentido de se preservar), não cuidam de seu material escolar, não tem o menor prazer com o aprendizado, não respeitam os professores nem os colegas, não se localizam direito no tempo e no espaço e são extremamente agressivas, tanto verbalmente quanto fisicamente. Em todas as escolas que passei, e foram 5 até agora (3 públicas e 2 particulares), o dilema da falta de limites permanece e predomina. 

Lembro nessa hora da aula de psicodiagnóstico - A criança superprotegida ou a criança abandonada apresentam os mesmos sintomas de Transtorno de Conduta. Na escola temos os dois tipos. De um lado temos os alunos ‘snowflake’ cujas mães comparecem quase diariamente para reclamar de broncas ou de notas baixas (tive uma que escreveu na prova: ‘Nota cancelada pela mãe’...rs..) e que serão aqueles adultos cujos progenitores irão à reunião de pais dos filhos na faculdade (como andam fazendo algumas faculdades particulares). Do outro temos as crianças em situação real de risco, muitas vezes filhos de presidiários ou até crianças de abrigo mesmo, abandonadas. No meio temos os autistas, os deficientes mentais e os físicos. Ao redor, as crianças mais preservadas, tentando adquirir algum conteúdo nas brechas que essa dinâmica insana deixa para o professor ensinar. É cansativo, é caótico, é desalentador e o sistema não facilita em nada.

Resolvi criar esse blog para contar do nosso nado livre contra a corrente. De como existem sim, apesar dos pilantras e deslocados, muitos professores realmente sérios, sufocados pela horda de incompetência, burocracia e políticas ruins, dentro da escola pública; ou castrados em toda sua autonomia e criatividade, por meio do ‘empreendedorismo mercantil’ da escola particular. Também para relatar como testemunha, não como juíza, toda desestrutura das famílias, o sofrimento das crianças e dos adolescentes e a consequência dessa situação para o ambiente escolar e para o processo de ensino-aprendizagem. Naturalmente jamais existirão nomes próprios por aqui, a privacidade (que quase não temos mais) é essencial ao ser humano e será plenamente respeitada sempre em meus relatos. As discussões são muitas e os problemas também, irei falando deles aos poucos. Sintam-se a vontade para seguir, comentar e perguntar! Discutir a escola é urgente e fundamental! Ainda sou muito jovem na escola para ter soluções, embora os mais antigos também não as tenham ainda, mas tenho uma voz e pretendo usá-la, entre outras coisas, em prol da educação.