A capacidade da mente
racional de enganar,
manipular, esquematizar,
fraudar,
falsificar, minimizar,
desorientar, trair,
prevaricar, negar, omitir,
racionalizar,
polarizar, exagerar e
obscurecer é tão infinita,
tão extraordinária, que os
séculos de pensamento
pré-científico, concentrados
em esclarecer a
natureza do esforço moral, a
consideram nitidamente
demoníaca. E não por causa
da própria racionalidade
como processo. Esse processo
pode produzir clareza
e progresso. Mas porque a
racionalidade está
sujeita à pior tentação -
elevar o que se
sabe agora ao status de um
absoluto.
Jordan B Peterson
Veja! Diante dele toda
segurança é apenas
ilusão,pois basta alguém
vê-lo para
ficar com medo.Ninguém é tão
corajoso para
provocá-lo. Quem poderia
enfrentá-lo cara a cara?
Quem jamais
se atreveu a desafiá-lo
e saiu ileso.
Jó 41.1 e 2
(sobre o Leviatã)
O Leviatã é uma criatura que faz parte da
mitologia hebraica. Seu nome vem do hebraico liwjathan que quer dizer ‘animal que se enrosca’ e é conhecido como
um monstro marinho. Descrito em Jó 41 como um monstro pavoroso e invencível,
tem servido de metáfora para tudo aquilo que o homem não consegue enfrentar,
que o enreda, o aprisiona e o destrói.
O filme russo de mesmo nome, dirigido por
Andrey Zvyagintset, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 e
conta a história de um homem simples, com uma vida prosaica e algo inocente,
que é completa e brutalmente engolido pela burocracia do sistema russo. Sem dar
nenhum maior spoiler, recomendo, assistam, é brilhante! Lembro-me de ter saído
do cinema simplesmente embasbacada, perplexa, com um nó no estômago e uma raiva
surda, principalmente, porque vivendo num país como o nosso, lidamos com as
redes do Leviatã todo santo dia, ainda mais quando se trabalha em redes de
ensino.
Outros dois excelentes exemplos dessa gosma
abstrata que nos controla, suga nossa energia, adia e impede os nossos avanços
e progressos, são o romance O Castelo
de Kafka e o conto A Fila de Murilo
Rubião. Ambos, cada um à sua própria maneira, descrevem as angústias e, em
especial, a impotência com a qual nos deparamos quando diante de sistemas de
regras e exigências neuróticas e abusivas que nos cortam as asas da imaginação,
as pernas da mobilidade, os braços da ação e, ao final, nossa racionalidade e
com ela nossa sanidade mental e física.
Na escola são múltiplas as facetas do
Leviatã. Podem surgir com a careta abobada das ‘burrocracias’ do funcionalismo
público, criando dramas absolutamente desnecessários e inexistentes num lugar
gerido por pessoas inteligentes e podem te deixar desempregada em fevereiro
(pior época para procurar emprego na educação), como aconteceu comigo certa vez,
quando a ‘secretina’ da escola se esqueceu de avisar a diretora da data da
renovação do meu contrato e todas as minhas aulas de reforço e recuperação
paralela foram para atribuição, aparecendo na escola para requerê-las uns 30
professores com pontuação maior que a minha, afinal, era meu primeiro ano na
rede pública e eu nem era concursada. Não podendo fazer nada, a diretora apenas
se lamentou e me pediu desculpas. Embora, por incrível que pareça, apesar de
todo prejuízo que as mazelas administrativas do sistema possam te causar
individualmente, nada se compara ao poder destruidor que a faceta das políticas
de ensino de ensino equivocadas exercem no coletivo.
A primeira vez em que tive a consciência de
estar, de verdade, diante do Leviatã na escola, quando vi seus dentes, suas
costas cascudas e seu potencial de devastação, foi ao estrear num conselho de
classe e descobrir a famigerada ‘Progressão Continuada’, que é sim um sinônimo
de aprovação automática. Diz a lenda (e eu sempre acredito em lendas, faz parte
de ser uma boa professora de Literatura...rs..) que a ideia começou na França e,
na teoria, funcionaria como um meio de reduzir o número de reprovações, fazendo
o aluno ser avaliado em ciclos maiores do que um ano e em vez de ser reprovado
anualmente, poderia se recuperar por meio de reforços consecutivos. No Brasil,
começou a ser implantada quando Paulo Freire foi secretário de Educação em São
Paulo. Tudo isso com base na ideia de que o aluno ficaria desmotivado com a
reprovação e acabaria não se esforçando mais nos estudos. A adoção definitiva
se deu em 1996, no governo de FHC, por causa da Lei de Diretrizes e Bases da
Educação.
Faço questão de salientar que não duvido
que por trás dessa política tenham existido boas razões e boas intenções. Da
mesma forma que não acho que as pessoas são apenas boas, também não creio que
sejam más de todo. Acho que na teoria, em países com melhores estruturas e mais
recursos, talvez essa ideia tenha sido muito eficaz e realmente mais
interessante, mais inclusiva e até mais producente do ponto de vista das
crianças com dificuldades de aprendizagem, mas o fato é que por aqui toda
mudança é implantada sem um planejamento e preparação adequados, sem que se
criem condições para que tais políticas alcancem resultados positivos. Joga-se
a nova regra no colo das unidades escolares e é cada um por si, o resultado
sendo, de forma inequívoca, o de transformar-se algo ruim (e não podemos ser
obtusos ao ponto de achar que a escola por aqui em algum momento realmente foi
satisfatória, se tivesse sido, provavelmente teríamos evoluído como país, não
regredido tanto) em algo muito pior. Aliás, fazer a mágica do ‘nada pode ser
tão ruim que não possa piorar’ parece ser prerrogativa do brasileiro.
Na real, parece que se tratava de uma
necessidade do PSDB de aumentar o número de aprovações, garantindo que o Brasil
alcançasse certas metas e com isso se classificasse para receber algumas verbas
internacionais bastante significativas e que jamais foram aplicadas na escola e
se foram, ninguém ficou sabendo onde e como. Ao fim e ao cabo, a adoção dessa
política parece nunca ter sido mais do que uma manifestação do velho e escroto
‘jeitinho brasileiro’ para conseguir uma grana extra e estamos pagando a
consequência disso com toda uma geração de analfabetos funcionais indo para a
faculdade sem conseguir escrever um parágrafo de texto com coesão e coerência.
Na prática, com a progressão continuada
fomos acumulando mentiras em cima de mentiras. A avaliação da aprendizagem do
aluno se tornou uma mentira. Subestimando sua capacidade de lidar com as frustrações
consequentes de um possível mau desempenho, nós os tornamos uns idiotas, frágeis,
cada vez mais infantilizados e mimados, incapazes de se responsabilizar por
suas atitudes e de qualquer esforço real para aquisição de conhecimento. A
desqualificação da escola e da figura do professor galopou a passos largos, a
desautorização por parte do sistema, que o impede de avaliar de forma
verdadeira o progresso do aluno, afetou a autoestima do professor e a
credibilidade de seu papel perante as famílias e a sociedade. O resultado disso
foi a desvalorização da profissão, da qualidade da formação acadêmica, que o
MEC (já no governo PTista) fez o favor de comprometer por meio de currículos
cada vez mais pobres e com conteúdos cada vez mais fakes e sem sentido. Obviamente,
isso comprometeu a qualidade de ensino e a maioria dos alunos perdeu completamente
o interesse por qualquer contribuição de qualquer figura de autoridade, o que
tem um potencial de desestrutura e caos social extraordinário, deixando o país
todo à mercê de ideologias malucas de toda ordem e de interesses totalitários.
As notas são uma mentira, as aprovações são
uma mentira, o esforço do aluno em sala de aula é uma mentira, a dedicação do
professor virou uma mentira, a escola virou uma mentira e o resultado disso
vimos essa semana na avaliação nacional do Ensino Médio, um verdadeiro fiasco!
A
zumbificação dos adolescentes e a histeria das crianças são coisas que
presenciamos todos os dias em sala de aula e tem ficado cada vez mais
assustador para o professor minimamente consciente e que ainda tem uma mente
sã. Os alunos têm perdido paulatinamente a capacidade de ouvir, de escutar, de
se abrir para a fala do outro, principalmente se o outro for um adulto.
A mentira começa já na pré-escola. Crianças
que possuem a maior aptidão para aprendizagem de línguas a partir de 3 anos de
idade, agora são proibidas de serem alfabetizadas até 7 ou 8 anos, porque elas
devem ‘brincar’, como se aprender a ler e a escrever não pudesse ser uma grande
brincadeira (só um idiota que nunca deu aula para crianças pode achar que a
criança não se diverte ao aprender a ler). Aos 7, 8 anos, sem nenhuma
familiaridade com as letras e, provavelmente, sem nenhuma disciplina e
organização interna adquirida, já que passou anos correndo pelo pátio e
gritando desembestadamente, o pequeno começa com as letras de forma e só depois
aprenderá as de mão, nessa pedagogia retardada que o atrasa ainda mais, porque
o condena a ficar até o terceiro ano agindo como se fossem dois alfabetos
diferentes, lendo isso, mas não aquilo e usando o dobro de tempo e do esforço
para adquirir a capacidade de leitura, algo simplesmente incompreensível para
quem aos 5 anos já tinha trilhado toda ‘Caminho
Suave’ sem stress e com sucesso. By
the way, caderno de caligrafia virou sinônimo de punição e crianças com
letras ilegíveis até para si mesmas viraram a fruta da estação.
Se a professora não tem crítica pessoal, até
o 5º., 6º. ano não se trabalha de forma direta nada relacionado às regras
gramaticais. Tudo gira em torno de ‘interpretação de texto’ e textos com
conteúdos ‘conscientizadores’ que não levam em consideração o fato de que a
capacidade para o raciocínio abstrato só está madura lá pelos 17, 18 anos,
tornando tema como bulling,
gordofobia, homofobia, racismo, feminicídio, corrupção e etc, repetidos ao
extremo, em banalidades, uma vez que a criança não dimensiona ainda isso com
seu significado correto e vai adquirir um ‘discurso’ de imitação que em sua
consciência íntima não representa nada. O
aluno tem chegado ao final do Ensino Fundamental 2 sem real capacidade de
manejo da linguagem, com uma capacidade limitadíssima para produção de textos,
raros tem hábitos de leitura que ultrapassem as legendas dos games, mais raros
ainda os que tem algum interesse real em aprender qualquer coisa. Pelo menos
essas são as queixas que ouço todos os dias na sala dos professores.
Fica a pergunta: Qual é a profundidade de
uma interpretação de texto para um aluno que não domina a língua?
O sistema também nos engole quando
matricula 60 crianças com necessidades especiais numa escola sem estrutura, sem
treinamento, sem pessoal suficiente e sem recursos reais de atendimento a essa
população, mas disso falaremos em outro texto.
O sistema também trucida a escola
particular, na medida em que o interesse empresarial suplanta o educacional e,
na ânsia por manter alunos pagantes a qualquer custo, usa-se de mentiras para
mimar pais de alunos mimados que não podem ser repreendidos, nem tirar notas
baixas e nem ser contrariados, afinal, os alunos ‘pagam’ o salário do
professor’. Tive uma mãe maluca que devolveu a prova corrigida da filha com a
inscrição em vermelho “nota cancelada pela mãe”. Naturalmente, não cedi e a
coordenadora resolveu o caso, mas sim, como toda escola pequena e de periferia,
faziam mil absurdos para segurar pais e chegava a ser desprezível. Por esse e
por outros motivos que aos poucos irei contando, dei graças a Deus quando
passei no concurso da prefeitura.
Algo que a escola pública te dá, a despeito
de todos os problemas, é espaço para criar e autonomia na escolha de material e
de métodos de ensino. Não aguentava mais dar aula numa escola que tinha lousa
digital, mas que não tinha sequer dicionário na biblioteca, biblioteca essa que
funcionava de enfeite porque os alunos não podiam pegar livros emprestados
nela. Fora aquelas apostilas chatíssimas e mal feitas, as quais você é obrigado
a trabalhar cada vírgula, mesmo que seja uma idiotice, porque como os pais
pagaram, querem ter certeza de que o filho passou por ali. A impressão que se
tem é que você está alimentando um doente com sonda. Não existe espaço para
alegria no processo de ensino-aprendizagem, não existe espaço para criar nada,
não existe espaço para a busca da excelência ou pelo menos para se buscar um
meio alternativo mais interessante de abordagem de conteúdos. Na escola
particular o Leviatã tem a forma do tédio, da angústia e da mediocridade. O
aluno da escola particular, via de regra, cresce para ser um burocrata, um
filhote do sistema e se não tiver a habilidade para pensar por si mesmo e
escolher seu próprio futuro, viverá para repetir esse modelo.
Tenho um amigo, certamente o melhor
professor de Língua Portuguesa que conheço, que foi demitido de uma escola onde
trabalhava há anos, por não aceitar uma prova feita a lápis, de uma aluna do
Ensino Médio, mesmo depois de ter avisado que não aceitaria. O pai da garota
fazia várias doações à escola, que também era vinculada a campeonatos
esportivos e etc e tal. Diz a lenda que até hoje não conseguiram um professor
do seu nível para a escola. Meu amigo, obviamente, já está muito bem empregado.
Jordan B. Peterson[1],
meu atual teórico favorito na Psicologia, diz que “A verdade reduz a terrível
complexidade de um homem à simplicidade. A verdade faz com que o passado seja
verdadeiramente o passado e faz o melhor uso das possibilidade futuras. A
verdade é o recurso natural máximo e inesgotável. É a luz na escuridão.”
Ele nos recomenda a enxergar a verdade e
dizer a verdade. Diz que a verdade não vem disfarçada de opiniões
compartilhadas com os outros, mas que ela será PESSOAL. Orienta a que nos
comuniquemos de forma cuidadosa, de forma articulada, conosco mesmos e com os
outros. ”Isso garantirá sua segurança e tornará sua vida mais abundante agora,
enquanto você habita a estrutura de suas crenças atuais. Isso garantirá a
benevolência do futuro, divergente como puder ser das certezas do passado.”
Porque a verdade floresce renovada das fontes mais profundas do nosso ser, ela
evitará que nossa alma murche e morra enquanto passamos pela tragédia da vida.
“Se sua vida não é o que poderia ser,
experimente dizer a verdade. Se você se prende demais a uma ideologia ou se
remói no niilismo, experimente dizer a verdade. (...) Diga a verdade, ou pelo
menos não minta.” (p.241) Ao lidar com a verdade, da maneira como ela se revela
a você, terá de aceitar e lidar com os conflitos que esse modo de SER gera. Ao fazer isso, você amadurecerá e se
tornará responsável de formas pequenas e grandes por aquilo que você é e vive.
Ao nos tornarmos responsáveis, cuidamos melhor de nós mesmos e de tudo ao nosso
redor. Esse cuidado faz o perímetro ao qual nossa atuação pertence uma
instância melhor. Se cada um aprender a arrumar seu próprio quarto, podemos dar
nossa contribuição efetiva para o desenvolvimento de tudo ao nosso redor. Logo,
mudanças pequenas e pontuais funcionam melhor que mudanças genéricas, gigantes
e difíceis de se implantar. A iniciativa individual é o que potencializa a transformação
coletiva. E NUNCA nada baseado em mentiras pode resultar em bons frutos.
ABSOLUTAMENTE NADA.
[1] 12
regras para a vida - um antídoto para o caos (livro com nome de manual de
auto-ajuda que quase aposentei na estante sem ler por puro preconceito e que se
mostrou um néctar dos deuses no meio do deserto intelectual da atualidade)
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