quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O Sistema




A capacidade da mente racional de enganar,
manipular, esquematizar, fraudar,
falsificar, minimizar, desorientar, trair,
prevaricar, negar, omitir, racionalizar,
polarizar, exagerar e obscurecer é tão infinita,
tão extraordinária, que os séculos de pensamento
pré-científico, concentrados em esclarecer a
natureza do esforço moral, a consideram nitidamente
demoníaca. E não por causa da própria racionalidade
como processo. Esse processo pode produzir clareza
e progresso. Mas porque a racionalidade está
sujeita à pior tentação - elevar o que se
sabe agora ao status de um absoluto.
Jordan B Peterson

Veja! Diante dele toda segurança é apenas
ilusão,pois basta alguém vê-lo para
ficar com medo.Ninguém é tão corajoso para
provocá-lo. Quem poderia
enfrentá-lo cara a cara? Quem jamais
se atreveu a desafiá-lo
e saiu ileso.
Jó 41.1 e 2
(sobre o Leviatã)



     O Leviatã é uma criatura que faz parte da mitologia hebraica. Seu nome vem do hebraico liwjathan que quer dizer ‘animal que se enrosca’ e é conhecido como um monstro marinho. Descrito em Jó 41 como um monstro pavoroso e invencível, tem servido de metáfora para tudo aquilo que o homem não consegue enfrentar, que o enreda, o aprisiona e o destrói.

     O filme russo de mesmo nome, dirigido por Andrey Zvyagintset, foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015 e conta a história de um homem simples, com uma vida prosaica e algo inocente, que é completa e brutalmente engolido pela burocracia do sistema russo. Sem dar nenhum maior spoiler, recomendo, assistam, é brilhante! Lembro-me de ter saído do cinema simplesmente embasbacada, perplexa, com um nó no estômago e uma raiva surda, principalmente, porque vivendo num país como o nosso, lidamos com as redes do Leviatã todo santo dia, ainda mais quando se trabalha em redes de ensino.



     Outros dois excelentes exemplos dessa gosma abstrata que nos controla, suga nossa energia, adia e impede os nossos avanços e progressos, são o romance O Castelo de Kafka e o conto A Fila de Murilo Rubião. Ambos, cada um à sua própria maneira, descrevem as angústias e, em especial, a impotência com a qual nos deparamos quando diante de sistemas de regras e exigências neuróticas e abusivas que nos cortam as asas da imaginação, as pernas da mobilidade, os braços da ação e, ao final, nossa racionalidade e com ela nossa sanidade mental e física.

     Na escola são múltiplas as facetas do Leviatã. Podem surgir com a careta abobada das ‘burrocracias’ do funcionalismo público, criando dramas absolutamente desnecessários e inexistentes num lugar gerido por pessoas inteligentes e podem te deixar desempregada em fevereiro (pior época para procurar emprego na educação), como aconteceu comigo certa vez, quando a ‘secretina’ da escola se esqueceu de avisar a diretora da data da renovação do meu contrato e todas as minhas aulas de reforço e recuperação paralela foram para atribuição, aparecendo na escola para requerê-las uns 30 professores com pontuação maior que a minha, afinal, era meu primeiro ano na rede pública e eu nem era concursada. Não podendo fazer nada, a diretora apenas se lamentou e me pediu desculpas. Embora, por incrível que pareça, apesar de todo prejuízo que as mazelas administrativas do sistema possam te causar individualmente, nada se compara ao poder destruidor que a faceta das políticas de ensino de ensino equivocadas exercem no coletivo.

     A primeira vez em que tive a consciência de estar, de verdade, diante do Leviatã na escola, quando vi seus dentes, suas costas cascudas e seu potencial de devastação, foi ao estrear num conselho de classe e descobrir a famigerada ‘Progressão Continuada’, que é sim um sinônimo de aprovação automática. Diz a lenda (e eu sempre acredito em lendas, faz parte de ser uma boa professora de Literatura...rs..) que a ideia começou na França e, na teoria, funcionaria como um meio de reduzir o número de reprovações, fazendo o aluno ser avaliado em ciclos maiores do que um ano e em vez de ser reprovado anualmente, poderia se recuperar por meio de reforços consecutivos. No Brasil, começou a ser implantada quando Paulo Freire foi secretário de Educação em São Paulo. Tudo isso com base na ideia de que o aluno ficaria desmotivado com a reprovação e acabaria não se esforçando mais nos estudos. A adoção definitiva se deu em 1996, no governo de FHC, por causa da Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

     Faço questão de salientar que não duvido que por trás dessa política tenham existido boas razões e boas intenções. Da mesma forma que não acho que as pessoas são apenas boas, também não creio que sejam más de todo. Acho que na teoria, em países com melhores estruturas e mais recursos, talvez essa ideia tenha sido muito eficaz e realmente mais interessante, mais inclusiva e até mais producente do ponto de vista das crianças com dificuldades de aprendizagem, mas o fato é que por aqui toda mudança é implantada sem um planejamento e preparação adequados, sem que se criem condições para que tais políticas alcancem resultados positivos. Joga-se a nova regra no colo das unidades escolares e é cada um por si, o resultado sendo, de forma inequívoca, o de transformar-se algo ruim (e não podemos ser obtusos ao ponto de achar que a escola por aqui em algum momento realmente foi satisfatória, se tivesse sido, provavelmente teríamos evoluído como país, não regredido tanto) em algo muito pior. Aliás, fazer a mágica do ‘nada pode ser tão ruim que não possa piorar’ parece ser prerrogativa do brasileiro.

     Na real, parece que se tratava de uma necessidade do PSDB de aumentar o número de aprovações, garantindo que o Brasil alcançasse certas metas e com isso se classificasse para receber algumas verbas internacionais bastante significativas e que jamais foram aplicadas na escola e se foram, ninguém ficou sabendo onde e como. Ao fim e ao cabo, a adoção dessa política parece nunca ter sido mais do que uma manifestação do velho e escroto ‘jeitinho brasileiro’ para conseguir uma grana extra e estamos pagando a consequência disso com toda uma geração de analfabetos funcionais indo para a faculdade sem conseguir escrever um parágrafo de texto com coesão e coerência.

     Na prática, com a progressão continuada fomos acumulando mentiras em cima de mentiras. A avaliação da aprendizagem do aluno se tornou uma mentira. Subestimando sua capacidade de lidar com as frustrações consequentes de um possível mau desempenho, nós os tornamos uns idiotas, frágeis, cada vez mais infantilizados e mimados, incapazes de se responsabilizar por suas atitudes e de qualquer esforço real para aquisição de conhecimento. A desqualificação da escola e da figura do professor galopou a passos largos, a desautorização por parte do sistema, que o impede de avaliar de forma verdadeira o progresso do aluno, afetou a autoestima do professor e a credibilidade de seu papel perante as famílias e a sociedade. O resultado disso foi a desvalorização da profissão, da qualidade da formação acadêmica, que o MEC (já no governo PTista) fez o favor de comprometer por meio de currículos cada vez mais pobres e com conteúdos cada vez mais fakes e sem sentido. Obviamente, isso comprometeu a qualidade de ensino e a maioria dos alunos perdeu completamente o interesse por qualquer contribuição de qualquer figura de autoridade, o que tem um potencial de desestrutura e caos social extraordinário, deixando o país todo à mercê de ideologias malucas de toda ordem e de interesses totalitários.

     As notas são uma mentira, as aprovações são uma mentira, o esforço do aluno em sala de aula é uma mentira, a dedicação do professor virou uma mentira, a escola virou uma mentira e o resultado disso vimos essa semana na avaliação nacional do Ensino Médio, um verdadeiro fiasco!

      A zumbificação dos adolescentes e a histeria das crianças são coisas que presenciamos todos os dias em sala de aula e tem ficado cada vez mais assustador para o professor minimamente consciente e que ainda tem uma mente sã. Os alunos têm perdido paulatinamente a capacidade de ouvir, de escutar, de se abrir para a fala do outro, principalmente se o outro for um adulto.

     A mentira começa já na pré-escola. Crianças que possuem a maior aptidão para aprendizagem de línguas a partir de 3 anos de idade, agora são proibidas de serem alfabetizadas até 7 ou 8 anos, porque elas devem ‘brincar’, como se aprender a ler e a escrever não pudesse ser uma grande brincadeira (só um idiota que nunca deu aula para crianças pode achar que a criança não se diverte ao aprender a ler). Aos 7, 8 anos, sem nenhuma familiaridade com as letras e, provavelmente, sem nenhuma disciplina e organização interna adquirida, já que passou anos correndo pelo pátio e gritando desembestadamente, o pequeno começa com as letras de forma e só depois aprenderá as de mão, nessa pedagogia retardada que o atrasa ainda mais, porque o condena a ficar até o terceiro ano agindo como se fossem dois alfabetos diferentes, lendo isso, mas não aquilo e usando o dobro de tempo e do esforço para adquirir a capacidade de leitura, algo simplesmente incompreensível para quem aos 5 anos já tinha trilhado toda ‘Caminho Suave’ sem stress e com sucesso. By the way, caderno de caligrafia virou sinônimo de punição e crianças com letras ilegíveis até para si mesmas viraram a fruta da estação.

     Se a professora não tem crítica pessoal, até o 5º., 6º. ano não se trabalha de forma direta nada relacionado às regras gramaticais. Tudo gira em torno de ‘interpretação de texto’ e textos com conteúdos ‘conscientizadores’ que não levam em consideração o fato de que a capacidade para o raciocínio abstrato só está madura lá pelos 17, 18 anos, tornando tema como bulling, gordofobia, homofobia, racismo, feminicídio, corrupção e etc, repetidos ao extremo, em banalidades, uma vez que a criança não dimensiona ainda isso com seu significado correto e vai adquirir um ‘discurso’ de imitação que em sua consciência íntima não representa nada.   O aluno tem chegado ao final do Ensino Fundamental 2 sem real capacidade de manejo da linguagem, com uma capacidade limitadíssima para produção de textos, raros tem hábitos de leitura que ultrapassem as legendas dos games, mais raros ainda os que tem algum interesse real em aprender qualquer coisa. Pelo menos essas são as queixas que ouço todos os dias na sala dos professores.

     Fica a pergunta: Qual é a profundidade de uma interpretação de texto para um aluno que não domina a língua?

     O sistema também nos engole quando matricula 60 crianças com necessidades especiais numa escola sem estrutura, sem treinamento, sem pessoal suficiente e sem recursos reais de atendimento a essa população, mas disso falaremos em outro texto.

     O sistema também trucida a escola particular, na medida em que o interesse empresarial suplanta o educacional e, na ânsia por manter alunos pagantes a qualquer custo, usa-se de mentiras para mimar pais de alunos mimados que não podem ser repreendidos, nem tirar notas baixas e nem ser contrariados, afinal, os alunos ‘pagam’ o salário do professor’. Tive uma mãe maluca que devolveu a prova corrigida da filha com a inscrição em vermelho “nota cancelada pela mãe”. Naturalmente, não cedi e a coordenadora resolveu o caso, mas sim, como toda escola pequena e de periferia, faziam mil absurdos para segurar pais e chegava a ser desprezível. Por esse e por outros motivos que aos poucos irei contando, dei graças a Deus quando passei no concurso da prefeitura.

     Algo que a escola pública te dá, a despeito de todos os problemas, é espaço para criar e autonomia na escolha de material e de métodos de ensino. Não aguentava mais dar aula numa escola que tinha lousa digital, mas que não tinha sequer dicionário na biblioteca, biblioteca essa que funcionava de enfeite porque os alunos não podiam pegar livros emprestados nela. Fora aquelas apostilas chatíssimas e mal feitas, as quais você é obrigado a trabalhar cada vírgula, mesmo que seja uma idiotice, porque como os pais pagaram, querem ter certeza de que o filho passou por ali. A impressão que se tem é que você está alimentando um doente com sonda. Não existe espaço para alegria no processo de ensino-aprendizagem, não existe espaço para criar nada, não existe espaço para a busca da excelência ou pelo menos para se buscar um meio alternativo mais interessante de abordagem de conteúdos. Na escola particular o Leviatã tem a forma do tédio, da angústia e da mediocridade. O aluno da escola particular, via de regra, cresce para ser um burocrata, um filhote do sistema e se não tiver a habilidade para pensar por si mesmo e escolher seu próprio futuro, viverá para repetir esse modelo.


     Tenho um amigo, certamente o melhor professor de Língua Portuguesa que conheço, que foi demitido de uma escola onde trabalhava há anos, por não aceitar uma prova feita a lápis, de uma aluna do Ensino Médio, mesmo depois de ter avisado que não aceitaria. O pai da garota fazia várias doações à escola, que também era vinculada a campeonatos esportivos e etc e tal. Diz a lenda que até hoje não conseguiram um professor do seu nível para a escola. Meu amigo, obviamente, já está muito bem empregado.

     Jordan B. Peterson[1], meu atual teórico favorito na Psicologia, diz que “A verdade reduz a terrível complexidade de um homem à simplicidade. A verdade faz com que o passado seja verdadeiramente o passado e faz o melhor uso das possibilidade futuras. A verdade é o recurso natural máximo e inesgotável. É a luz na escuridão.”

     Ele nos recomenda a enxergar a verdade e dizer a verdade. Diz que a verdade não vem disfarçada de opiniões compartilhadas com os outros, mas que ela será PESSOAL. Orienta a que nos comuniquemos de forma cuidadosa, de forma articulada, conosco mesmos e com os outros. ”Isso garantirá sua segurança e tornará sua vida mais abundante agora, enquanto você habita a estrutura de suas crenças atuais. Isso garantirá a benevolência do futuro, divergente como puder ser das certezas do passado.” Porque a verdade floresce renovada das fontes mais profundas do nosso ser, ela evitará que nossa alma murche e morra enquanto passamos pela tragédia da vida.

     “Se sua vida não é o que poderia ser, experimente dizer a verdade. Se você se prende demais a uma ideologia ou se remói no niilismo, experimente dizer a verdade. (...) Diga a verdade, ou pelo menos não minta.” (p.241) Ao lidar com a verdade, da maneira como ela se revela a você, terá de aceitar e lidar com os conflitos que esse modo de SER gera. Ao fazer isso, você amadurecerá e se tornará responsável de formas pequenas e grandes por aquilo que você é e vive. Ao nos tornarmos responsáveis, cuidamos melhor de nós mesmos e de tudo ao nosso redor. Esse cuidado faz o perímetro ao qual nossa atuação pertence uma instância melhor. Se cada um aprender a arrumar seu próprio quarto, podemos dar nossa contribuição efetiva para o desenvolvimento de tudo ao nosso redor. Logo, mudanças pequenas e pontuais funcionam melhor que mudanças genéricas, gigantes e difíceis de se implantar. A iniciativa individual é o que potencializa a transformação coletiva. E NUNCA nada baseado em mentiras pode resultar em bons frutos. ABSOLUTAMENTE NADA.





[1] 12 regras para a vida - um antídoto para o caos (livro com nome de manual de auto-ajuda que quase aposentei na estante sem ler por puro preconceito e que se mostrou um néctar dos deuses no meio do deserto intelectual da atualidade)

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