sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Boundaries[1]



Não sei se já repararam nisso, mas para mim algumas palavras parecem ser melhor formadas, soar melhor em algumas línguas do que em outras, combinar mais com seus significados. É assim, por exemplo, com disgusting (Inglês: nojento), fianceé (inglês, do francês: noivo), meimei (chinês: irmã mais nova) ou liebe (alemão: amor, amar). Isso sem contar a nossa saudade que ninguém mais tem...Parece que o som e a forma dessas palavras se encaixam de forma mais perfeita em seu significado, sei lá, só é mais adequado, em inglês a gente diria fits (encaixa) e a gente sente um bem estar ao utilizá-las! Boundarie para mim é isso - palavra intuitiva e eloquente. Todos precisamos de boundaries claros para nos organizar internamente. A qualidade e a coerência deles, a forma como são concebidos, administrados, estabelecidos e mantidos define quem somos e quem seremos. Para a criança, isso é o mapa de sua formação de caráter e das escolhas que definirão sua existência, sua vida adulta, suas contribuições pessoais para a geração em que vivem e seus relacionamentos.

Fui uma criança muito tranquila, introspectiva e completamente urbana. Nasci no Belenzinho, reduto da italianada da Zona Leste de São Paulo. Só tive a honra de conhecer uma galinha viva de perto lá pelos 16 anos de idade. Minha familiaridade com asfalto, postes de luz e o concreto armado das pontes e viadutos teria tudo para me tornar meio avessa ao mato, aos animais, aos rios, lagoas e mares, mas, inesperadamente, tenho alma de camponesa! Adoro árvores, lagoas, plantas e flores. Espaço aberto e natureza são tão necessários para a minha sobrevivência quanto momentos de silêncio e introspecção. Ar livre para mim é sinônimo de leitura, música, desenhar, pintar...Coisas das quais preciso para viver!

A opressão que sinto em lugares fechados se evidenciou em maio deste ano, quando numa viagem para as Cidades Históricas de MG, num rompante aventureiro, decidi arriscar a sorte e entrar para conhecer uma mina de ouro do sec. XVIII. Em menos de 15 minutos dentro daquele túnel apertado, baixo, escuro e úmido sai correndo em total descontrole ali de dentro. Suando frio, pálida como um cadáver, tremendo e com a boca roxa, hiperventilava enquanto uma das funcionárias do lugar me servia um quentão e segurava minha mão. Demorou uma meia-hora até que eu sentisse meu coração batendo num ritmo ok de novo. Nunca tinha me sentido daquela forma antes, aquela perda de controle me chateou bastante e não fossem as outras atrações da belíssima ‘Ouro Preto’, talvez isso tivesse de fato me estragado o dia.

Claustrofobias à parte (perfeitamente compreensíveis pela Astrologia, uma vez que sou uma libriana com ascendente em Gêmeos, combinação ar + ar que jamais poderia ficar confortável em lugares fechados...rs...), sou uma mulher adulta que muitos consideram sensata e suficientemente equilibrada, de modo que quase sempre consigo explicar a mim mesma as vicissitudes ambientais a que estou sujeita e tentar conter minhas reações ao ambiente. Agora quero que você imagine uma criança de 6, 7, 8 anos de idade, enfiada dentro de uma sala de aula pequena, mal ventilada e, muitas vezes, escura e suja, com carteiras estranhas, esbarrando cotovelos e joelhos com 30, 35, até 40 colegas, muitas vezes em dias super quentes, com pouquíssimas aulas externas, geralmente só a Educação Física, quase sempre em quadras velhas e mal cuidadas, em escolas que quase nunca têm áreas verdes e de lazer. O que você imagina que acontece com essas crianças, dia após dia, confinadas por 6 aulas neste ambiente? Think about...

É fato fatíssimo que a criança precisa de boundaries. Ao contrário do que pensava Rousseau, o homem não nasce bom e com predisposição para o bem. Nascemos todos egoístas, agressivos, cativos de desejos violentos e vontades ingovernáveis que nos levam a atitudes nem sempre positivas e é a EDUCAÇÃO que nos civiliza - a de casa e a da escola, a formal e a informal. Pelo menos quando as coisas funcionam como deveriam. O ADULTO TEM QUE SER o instrumento dessa formação. O preço da ausência de boundaries é a loucura, a total desorientação do ser no tempo e no espaço. O problema da educação formal, de forma geral, é que por alguma razão que não tive acesso, associou-se a contenção ao espaço físico e a arquitetura penitenciária que se usa na escola assusta, frustra e aprisiona.

As paredes grossas de concreto, geralmente pintadas de cores feias e pouco convidativas (trabalhei numa escola que apelidei de ‘abacatão’ porque ela era inteira verde escura e tinha um formato sugestivo) sufocam mais do que protegem. Grades de todo tipo e tamanho espalham-se por todo lado. Portões pesados e barulhentos se fecham atrás de quem entra como se anunciassem uma sentença a ser cumprida. Salas pequenas e sujas, com carteiras velhas e quebradas misturando-se às novas que chegam - tudo anuncia uma espécie de cativeiro, sair da escola é o que liberta, não entrar nela. De alguma forma (e isso talvez seja explicado pela ‘Teoria das Janelas Quebradas[2]’), mesmo os recursos novos não duram muito, o material recebido pelas crianças no início do ano mal chegam utilizáveis até agosto. O barulho é sempre intenso e doloroso, todos gritam entre si e as professoras gritam por silêncio - o que em si já é um paradoxo. Poucas escolas possuem áreas verdes e espaços externos onde se possa optar por aulas em formatos alternativos que oxigenem a mente e a alma das crianças e dos professores, que potencialize outros canais de ensino-aprendizagem e que, inclusive, possibilite uma reformulação de relações pessoais.

A aula tradicional, mesmo quando bem dada e rica em conteúdo, se perde em meio à agitação e à agressividade da verdadeira ‘panela de pressão’ que virou a sala. O ambiente insalubre, somado a uma falta de formação de base, que deveria vir de casa e que ensinasse as crianças a simplesmente respeitar os mais velhos, ser gentil com os colegas e evitar conflitos, especialmente os físicos, desnecessários, acaba criando uma atmosfera de violência latente e muitas vezes até indiscriminada. Vejo o tempo todo crianças se socando na escola, é menino contra menino, menina contra menina, menino contra menina e quando a criança é deficiente (no caso dos com necessidades especiais) ou o adolescente é marginal, a violência se vira também contra o professor, com consequências gravíssimas.

A solução que muitos encontram para essa situação que pode chegar à periculosidade, impedidos talvez pela impossibilidade de buscar recursos mais eficazes (como reformas arquitetônicas, agregação de terrenos e praças próximos que poderiam significar melhor ambiente e melhor qualidade de vida na escola) e estimulados por essa fúria discursiva que herdamos da péssima formação das universidades na atualidade é a fuga pela ideologia. Daí tudo vira gordofobia, feminicídio, racismo etc e tal...Brigas no corredor viram o patriarcado branco esbelto heterossexual contra o mundo levando as crianças a se agredirem pela escola e se você diz que todos batem em todos e que não vê, no computo geral das situações, nessa violência, algo específico que revele qualquer formação ideológica prévia, as pessoas se ofendem, se fecham em copas e não aceitam sugestões. Se você disser ainda que já ouviu 8 mil vezes essa ladainha ‘politicamente correta’, que nada disso fará sentido algum para crianças e adolescentes, simplesmente porque não tem uma relação direta com a realidade do que eles estão fazendo e porque eles não têm ainda um raciocínio abstrato totalmente formado e vão só copiar esse discurso para agradar o professor militante (só assistir A Onda e compreender o efeito catastrófico que um professor carismático é capaz de fazer na cabeça de crianças e adolescentes, mesmo quando bem intencionado), o sujeito se ofende e diz que você não está escutando (o que ele realmente quer dizer é ‘como vc não está concordando e me aplaudindo?’).

Chego a ter dó dessas pessoas, algumas muito bem intencionadas, mas que venderam a alma por uma explicação idiota de por que não se sentem bem consigo mesmas no mundo e o fato é que se vitimizar colocando a conta no passado histórico, além de ser pura neurose, não vai resolver a fúria de 400 crianças agitadas, que geralmente vivem em ‘apertamentos’ e que vêm para uma escola que mais parece uma instituição correcional, para descontar no outro a agressividade que recebem de famílias cada vez mais desestruturadas e conflituosas. NÃO, NEM TUDO É SOCIAL! A MAIOR PARTE DOS PROBLEMAS É DO INDIVÍDUO. E é tão ridículo achar que tudo se resume a racismo numa escola onde a maioria maciça é de pardos, ou machismo, numa escola gerida quase que inteiramente por mulheres fortes e independentes. Enfim...Foram feitas pesquisas com ratos em laboratório e é comprovado que ao confinar muitos ratos numa única gaiola, eles começam a matar e comer uns aos outros, mesmo estando bem alimentados, para ampliar o espaço na gaiola. A diferença entre um ser humano e um rato se limita a 5 pares de genes. #ficaadica

      Era meu segundo dia no fundamental 1. Ainda estava sob o efeito do encantamento por ter conseguido uma escola fofa, com árvores, relativamente pequena e bem organizada e perto de casa. (Para um paulistano, poder ir para o trabalho caminhando é quase como ganhar na loteria). Pelo fato de não ter muito absenteísmo nessa unidade, os professores novos podiam acompanhar as aulas dos colegas servindo de apoio. Eu ainda não sabia, mas esses meses de aulas compartilhadas seriam as mais divertidas e significativas na minha formação como professora.

     Tendo em vista que essa escola estava cercada por 4 abrigos, tínhamos uma média de 5 ou 6 crianças órfãs e abrigadas por sala. Nessa sala de 4º.ano em particular, além dos abrigados, tínhamos mais 3 crianças com necessidades especiais, 2 ou 3 com dificuldades de aprendizagem e mais umas 15 crianças normais[3]. Sendo assim a professora titular pedia que eu a acompanhasse, dando maior assistência às crianças com maiores obstáculos. Ela os deixava mais na frente e enquanto eu os atendia, ela compartilhava o conteúdo de forma expositiva com a maioria.

    Por falta de salas suficientes esse 4º.ano foi alocado no que deveria ser um laboratório de Ciências, com uma enorme bancada na frente que acabava apertando todas as carteiras do meio para o fundo, reduzindo cerca de 50% do espaço da sala, já ocupada por armários velhos e esqueletos de plástico. Apinhados todos ali dentro, esbarrando e tropeçando uns nos outros e nas carteiras, sendo obrigados a um contato físico nem sempre desejado, tentávamos dar aula e apoiar as crianças na execução das tarefas. Vez ou outra gritando para tentar conter o barulho, o que sempre se mostra muito ineficaz!

      As coisas aconteceram numa fração de segundo, eu estava de costas para o resto da sala numa ponta, focada nos cadernos dos pequenos em apuros. A outra professora estava de costas na outra ponta, falando com um grupinho que não tinha compreendido bem a tarefa. Olhei para trás mais por intuição que por necessidade e o que vi do outro lado da bancada me gelou os ossos e acelerou o coração.

      Sangue, muito sangue, sangue escorrendo pelo rosto aos borbotões, se espalhando pela blusa e pingando no chão. A., mesmo com a cabeça aberta e sangrando em profusão, segurava na mão um pequeno objeto pontiagudo (que depois soubemos se tratar da lâmina de um apontador que foi arrancada do plástico, afiada e trazida para a escola para ‘matar’ D.) e avançava com ele para cima de D., dando vários golpes no ar, quase acertando o rosto do colega. Só para constar, ambos são meninos e negros, de modo que não caberia aqui atribuir racismo ou violência de gênero.

      A outra professora, que não tinha a mesma visão da situação que eu tinha, começou a andar na direção das costas de A. e então gritei para ela parar, porque ele estava armado, lívido de raiva e eu não sabia o que poderia fazer com ela, se tentasse segurá-lo. Ao me ver tão apavorada, L. estacou.

      Respirei muito fundo, segurei a tremedeira e comecei a falar com A. na voz mais firme que consegui, pedi que olhasse para mim umas três vezes, pedi que colocasse a lâmina no balcão, afirmei umas outras tantas vezes que ele era um bom menino, que não queria machucar D. de verdade e que estava sangrando muito e precisava ser socorrido. A. olhou para mim meio atordoado, meio confuso e com lágrimas nos olhos, jogou a lâmina no chão e eu imediatamente pisei nela para evitar que alguém a pegasse. A. caiu sentado no meio da poça de sangue, D. se jogou para o outro lado, L. correu atrás do inspetor e conseguimos conter o caos.

      Foi ali, no meio daquela situação absurda, que pude comprovar que boundaries para crianças nascem da determinação e maturidade do adulto ao abordá-las. A firmeza vem da sua atitude, da sua voz, da certeza que você tem daquilo que está impondo ao pequeno. Grades e paredes, ideologias e discursos, não ensinam limites - o que ensina limite é a ATITUDE do maior que cuida do menor, o ensina e o protege. O resto é pura baboseira!

      Mais tarde, já na sala dos professores, tomando o chá mais doce que já tomei na vida, ainda tremendo e ainda em estado de choque, ouvimos da boca de algumas testemunhas o resumo da situação daquele dia: D., que era um menino de abrigo agressivo e de poucos amigos (já devolvido de lares adotivos por 9, eu disse NOVE, vezes, tendo voltado do último por iniciativa própria, porque se tratava de um casal de gays e ele queria ter uma mãe e um pai) vinha atormentando A. por meses nos corredores e no intervalo. A., filho de uma família conhecida por armar barracos em lugares públicos, confusões de toda ordem e brigas de casal após bebedeiras, cansado de apanhar, teve a ideia brilhante de ir armado com a lâmina. Ao ir para cima de D. com aquilo no meio de nossa aula, foi empurrado e caiu em cima de uma mesa, abrindo a cabeça na quina da tampa, mesmo ferido, voou para cima de D. e foi aí que peguei a coisa em desenvolvimento.

      A partir daquele dia começamos a dar aula para essa sala no pátio do recreio, na varanda com mesas de xadrez, na quadra e em qualquer lugar aberto que conseguíamos. Combinamos uma ‘tolerância zero’ diante de casos de agressão e retomávamos as regras da nossa aula religiosamente a cada novo encontro.  A coisa melhorou tanto que conseguimos organizar uma festa de Halloween super bacana e até fazer atividades com comidas, que eles sempre adoram. Obviamente escondemos todas as facas e objetos pontiagudos...rs..

      Não sei como estão as coisas por lá agora, tive que ir para outra escola, mas naquele período não houve mais nenhum episódio sangrento.



[1] Do inglês> Linha que demarca os limites de uma área, linha divisória. Margem, borda, orla, fronteira, contenção, limite.
[2] Ver Google, vale muito a pena conhecer.
[3] Defina normal.

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