Não
sei se já repararam nisso, mas para mim algumas palavras parecem ser melhor
formadas, soar melhor em algumas línguas do que em outras, combinar mais com
seus significados. É assim, por exemplo, com disgusting (Inglês: nojento), fianceé
(inglês, do francês: noivo), meimei (chinês:
irmã mais nova) ou liebe (alemão:
amor, amar). Isso sem contar a nossa saudade
que ninguém mais tem...Parece que o som e a forma dessas palavras se encaixam
de forma mais perfeita em seu significado, sei lá, só é mais adequado, em
inglês a gente diria fits (encaixa) e
a gente sente um bem estar ao utilizá-las! Boundarie
para mim é isso - palavra intuitiva e eloquente. Todos precisamos de boundaries claros para nos organizar
internamente. A qualidade e a coerência deles, a forma como são concebidos, administrados,
estabelecidos e mantidos define quem somos e quem seremos. Para a criança, isso
é o mapa de sua formação de caráter e das escolhas que definirão sua
existência, sua vida adulta, suas contribuições pessoais para a geração em que
vivem e seus relacionamentos.
Fui
uma criança muito tranquila, introspectiva e completamente urbana. Nasci no Belenzinho,
reduto da italianada da Zona Leste de São Paulo. Só tive a honra de conhecer
uma galinha viva de perto lá pelos 16 anos de idade. Minha familiaridade com
asfalto, postes de luz e o concreto armado das pontes e viadutos teria tudo para
me tornar meio avessa ao mato, aos animais, aos rios, lagoas e mares, mas,
inesperadamente, tenho alma de camponesa! Adoro árvores, lagoas, plantas e
flores. Espaço aberto e natureza são tão necessários para a minha sobrevivência
quanto momentos de silêncio e introspecção. Ar livre para mim é sinônimo de
leitura, música, desenhar, pintar...Coisas das quais preciso para viver!
A
opressão que sinto em lugares fechados se evidenciou em maio deste ano, quando
numa viagem para as Cidades Históricas de MG, num rompante aventureiro, decidi
arriscar a sorte e entrar para conhecer uma mina de ouro do sec. XVIII. Em
menos de 15 minutos dentro daquele túnel apertado, baixo, escuro e úmido sai
correndo em total descontrole ali de dentro. Suando frio, pálida como um
cadáver, tremendo e com a boca roxa, hiperventilava enquanto uma das funcionárias
do lugar me servia um quentão e segurava minha mão. Demorou uma meia-hora até
que eu sentisse meu coração batendo num ritmo ok de novo. Nunca tinha me
sentido daquela forma antes, aquela perda de controle me chateou bastante e não
fossem as outras atrações da belíssima ‘Ouro Preto’, talvez isso tivesse de
fato me estragado o dia.
Claustrofobias
à parte (perfeitamente compreensíveis pela Astrologia, uma vez que sou uma
libriana com ascendente em Gêmeos, combinação ar + ar que jamais poderia ficar
confortável em lugares fechados...rs...), sou uma mulher adulta que muitos consideram
sensata e suficientemente equilibrada, de modo que quase sempre consigo
explicar a mim mesma as vicissitudes ambientais a que estou sujeita e tentar conter
minhas reações ao ambiente. Agora quero que você imagine uma criança de 6, 7, 8
anos de idade, enfiada dentro de uma sala de aula pequena, mal ventilada e,
muitas vezes, escura e suja, com carteiras estranhas, esbarrando cotovelos e
joelhos com 30, 35, até 40 colegas, muitas vezes em dias super quentes, com
pouquíssimas aulas externas, geralmente só a Educação Física, quase sempre em
quadras velhas e mal cuidadas, em escolas que quase nunca têm áreas verdes e de
lazer. O que você imagina que acontece com essas crianças, dia após dia,
confinadas por 6 aulas neste ambiente? Think
about...
É
fato fatíssimo que a criança precisa de boundaries.
Ao contrário do que pensava Rousseau, o homem não nasce bom e com predisposição
para o bem. Nascemos todos egoístas, agressivos, cativos de desejos violentos e
vontades ingovernáveis que nos levam a atitudes nem sempre positivas e é a
EDUCAÇÃO que nos civiliza - a de casa e a da escola, a formal e a informal.
Pelo menos quando as coisas funcionam como deveriam. O ADULTO TEM QUE SER o
instrumento dessa formação. O preço da ausência de boundaries é a loucura, a total desorientação do ser no tempo e no
espaço. O problema da educação formal, de forma geral, é que por alguma razão
que não tive acesso, associou-se a contenção ao espaço físico e a arquitetura penitenciária
que se usa na escola assusta, frustra e aprisiona.
As
paredes grossas de concreto, geralmente pintadas de cores feias e pouco
convidativas (trabalhei numa escola que apelidei de ‘abacatão’ porque ela era
inteira verde escura e tinha um formato sugestivo) sufocam mais do que protegem. Grades de todo tipo e
tamanho espalham-se por todo lado. Portões pesados e barulhentos se fecham
atrás de quem entra como se anunciassem uma sentença a ser cumprida. Salas
pequenas e sujas, com carteiras velhas e quebradas misturando-se às novas que chegam
- tudo anuncia uma espécie de cativeiro, sair da escola é o que liberta, não
entrar nela. De alguma forma (e isso talvez seja explicado pela ‘Teoria das
Janelas Quebradas[2]’),
mesmo os recursos novos não duram muito, o material recebido pelas
crianças no início do ano mal chegam utilizáveis até agosto. O barulho é sempre
intenso e doloroso, todos gritam entre si e as professoras gritam por silêncio
- o que em si já é um paradoxo. Poucas escolas possuem áreas verdes e espaços
externos onde se possa optar por aulas em formatos alternativos que oxigenem a
mente e a alma das crianças e dos professores, que potencialize outros canais
de ensino-aprendizagem e que, inclusive, possibilite uma reformulação de
relações pessoais.
A
aula tradicional, mesmo quando bem dada e rica em conteúdo, se perde em meio à
agitação e à agressividade da verdadeira ‘panela de pressão’ que virou a sala.
O ambiente insalubre, somado a uma falta de formação de base, que deveria vir
de casa e que ensinasse as crianças a simplesmente respeitar os mais velhos,
ser gentil com os colegas e evitar conflitos, especialmente os físicos,
desnecessários, acaba criando uma atmosfera de violência latente e muitas vezes
até indiscriminada. Vejo o tempo todo crianças se socando na escola, é menino
contra menino, menina contra menina, menino contra menina e quando a criança é
deficiente (no caso dos com necessidades especiais) ou o adolescente é
marginal, a violência se vira também contra o professor, com consequências
gravíssimas.
A
solução que muitos encontram para essa situação que pode chegar à
periculosidade, impedidos talvez pela impossibilidade de buscar recursos mais eficazes
(como reformas arquitetônicas, agregação de terrenos e praças próximos que
poderiam significar melhor ambiente e melhor qualidade de vida na escola) e
estimulados por essa fúria discursiva que herdamos da péssima formação das
universidades na atualidade é a fuga pela ideologia. Daí tudo vira gordofobia,
feminicídio, racismo etc e tal...Brigas no corredor viram o patriarcado branco
esbelto heterossexual contra o mundo levando as crianças a se agredirem pela
escola e se você diz que todos batem em todos e que não vê, no computo geral
das situações, nessa violência, algo específico que revele qualquer formação
ideológica prévia, as pessoas se ofendem, se fecham em copas e não aceitam
sugestões. Se você disser ainda que já ouviu 8 mil vezes essa ladainha ‘politicamente
correta’, que nada disso fará sentido algum para crianças e adolescentes,
simplesmente porque não tem uma relação direta com a realidade do que eles
estão fazendo e porque eles não têm ainda um raciocínio abstrato totalmente
formado e vão só copiar esse discurso para agradar o professor militante (só
assistir A Onda e compreender o efeito catastrófico que um professor
carismático é capaz de fazer na cabeça de crianças e adolescentes, mesmo quando
bem intencionado), o sujeito se ofende e diz que você não está escutando (o que
ele realmente quer dizer é ‘como vc não está concordando e me aplaudindo?’).
Chego
a ter dó dessas pessoas, algumas muito bem intencionadas, mas que venderam a
alma por uma explicação idiota de por que não se sentem bem consigo mesmas no
mundo e o fato é que se vitimizar colocando a conta no passado histórico, além de ser pura
neurose, não vai resolver a fúria de 400 crianças agitadas, que geralmente
vivem em ‘apertamentos’ e que vêm para uma escola que mais parece uma instituição
correcional, para descontar no outro a agressividade que recebem de famílias
cada vez mais desestruturadas e conflituosas. NÃO, NEM TUDO É SOCIAL! A MAIOR
PARTE DOS PROBLEMAS É DO INDIVÍDUO. E é tão ridículo achar que tudo se resume a
racismo numa escola onde a maioria maciça é de pardos, ou machismo, numa escola
gerida quase que inteiramente por mulheres fortes e independentes. Enfim...Foram
feitas pesquisas com ratos em laboratório e é comprovado que ao confinar muitos
ratos numa única gaiola, eles começam a matar e comer uns aos outros, mesmo estando
bem alimentados, para ampliar o espaço na gaiola. A diferença entre um ser
humano e um rato se limita a 5 pares de genes. #ficaadica
Era
meu segundo dia no fundamental 1. Ainda estava sob o efeito do encantamento por
ter conseguido uma escola fofa, com árvores, relativamente pequena e bem
organizada e perto de casa. (Para um paulistano, poder ir para o trabalho
caminhando é quase como ganhar na loteria). Pelo fato de não ter muito
absenteísmo nessa unidade, os professores novos podiam acompanhar as aulas dos
colegas servindo de apoio. Eu ainda não sabia, mas esses meses de aulas
compartilhadas seriam as mais divertidas e significativas na minha formação
como professora.
Tendo
em vista que essa escola estava cercada por 4 abrigos, tínhamos uma média de 5
ou 6 crianças órfãs e abrigadas por sala. Nessa sala de 4º.ano em particular,
além dos abrigados, tínhamos mais 3 crianças com necessidades especiais, 2 ou 3
com dificuldades de aprendizagem e mais umas 15 crianças normais[3]. Sendo
assim a professora titular pedia que eu a acompanhasse, dando maior assistência
às crianças com maiores obstáculos. Ela os deixava mais na frente e enquanto eu
os atendia, ela compartilhava o conteúdo de forma expositiva com a maioria.
Por
falta de salas suficientes esse 4º.ano foi alocado no que deveria ser um
laboratório de Ciências, com uma enorme bancada na frente que acabava apertando
todas as carteiras do meio para o fundo, reduzindo cerca de 50% do espaço da
sala, já ocupada por armários velhos e esqueletos de plástico. Apinhados todos
ali dentro, esbarrando e tropeçando uns nos outros e nas carteiras, sendo
obrigados a um contato físico nem sempre desejado, tentávamos dar aula e apoiar
as crianças na execução das tarefas. Vez ou outra gritando para tentar conter o
barulho, o que sempre se mostra muito ineficaz!
As
coisas aconteceram numa fração de segundo, eu estava de costas para o resto da
sala numa ponta, focada nos cadernos dos pequenos em apuros. A outra professora
estava de costas na outra ponta, falando com um grupinho que não tinha
compreendido bem a tarefa. Olhei para trás mais por intuição que por
necessidade e o que vi do outro lado da bancada me gelou os ossos e acelerou o
coração.
Sangue,
muito sangue, sangue escorrendo pelo rosto aos borbotões, se espalhando pela
blusa e pingando no chão. A., mesmo com a cabeça aberta e sangrando em
profusão, segurava na mão um pequeno objeto pontiagudo (que depois soubemos se
tratar da lâmina de um apontador que foi arrancada do plástico, afiada e
trazida para a escola para ‘matar’ D.) e avançava com ele para cima de D.,
dando vários golpes no ar, quase acertando o rosto do colega. Só para constar, ambos
são meninos e negros, de modo que não caberia aqui atribuir racismo ou
violência de gênero.
A
outra professora, que não tinha a mesma visão da situação que eu tinha, começou
a andar na direção das costas de A. e então gritei para ela parar, porque ele
estava armado, lívido de raiva e eu não sabia o que poderia fazer com ela, se
tentasse segurá-lo. Ao me ver tão apavorada, L. estacou.
Respirei
muito fundo, segurei a tremedeira e comecei a falar com A. na voz mais firme
que consegui, pedi que olhasse para mim umas três vezes, pedi que colocasse a
lâmina no balcão, afirmei umas outras tantas vezes que ele era um bom menino,
que não queria machucar D. de verdade e que estava sangrando muito e precisava
ser socorrido. A. olhou para mim meio atordoado, meio confuso e com lágrimas
nos olhos, jogou a lâmina no chão e eu imediatamente pisei nela para evitar que
alguém a pegasse. A. caiu sentado no meio da poça de sangue, D. se jogou para o
outro lado, L. correu atrás do inspetor e conseguimos conter o caos.
Foi
ali, no meio daquela situação absurda, que pude comprovar que boundaries para crianças nascem da
determinação e maturidade do adulto ao abordá-las. A firmeza vem da sua
atitude, da sua voz, da certeza que você tem daquilo que está impondo ao pequeno.
Grades e paredes, ideologias e discursos, não ensinam limites - o que ensina
limite é a ATITUDE do maior que cuida do menor, o ensina e o protege. O resto é
pura baboseira!
Mais
tarde, já na sala dos professores, tomando o chá mais doce que já tomei na vida,
ainda tremendo e ainda em estado de choque, ouvimos da boca de algumas
testemunhas o resumo da situação daquele dia: D., que era um menino de abrigo
agressivo e de poucos amigos (já devolvido de lares adotivos por 9, eu disse
NOVE, vezes, tendo voltado do último por iniciativa própria, porque se tratava
de um casal de gays e ele queria ter uma mãe e um pai) vinha atormentando A.
por meses nos corredores e no intervalo. A., filho de uma família conhecida por
armar barracos em lugares públicos, confusões de toda ordem e brigas de casal
após bebedeiras, cansado de apanhar, teve a ideia brilhante de ir armado com a
lâmina. Ao ir para cima de D. com aquilo no meio de nossa aula, foi empurrado e
caiu em cima de uma mesa, abrindo a cabeça na quina da tampa, mesmo ferido,
voou para cima de D. e foi aí que peguei a coisa em desenvolvimento.
A
partir daquele dia começamos a dar aula para essa sala no pátio do recreio, na
varanda com mesas de xadrez, na quadra e em qualquer lugar aberto que
conseguíamos. Combinamos uma ‘tolerância zero’ diante de casos de agressão e retomávamos
as regras da nossa aula religiosamente a cada novo encontro. A coisa melhorou tanto que conseguimos organizar
uma festa de Halloween super bacana e até fazer atividades com comidas, que
eles sempre adoram. Obviamente escondemos todas as facas e objetos pontiagudos...rs..
Não
sei como estão as coisas por lá agora, tive que ir para outra escola, mas
naquele período não houve mais nenhum episódio sangrento.
[1] Do
inglês> Linha que demarca os limites de uma área, linha divisória. Margem, borda,
orla, fronteira, contenção, limite.
[2]
Ver Google, vale muito a pena conhecer.
[3] Defina
normal.
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