quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Palavras Mágicas




“Cada criança merece um ‘campeão’: um adulto que nunca desistirá dela, que compreenda o poder da conexão e insista que ela se torne o melhor que ela consiga ser.” Rita Pierson, Professora

            Dizem que antes do império romano chegar ao norte da Europa, os Vickings cagavam e comiam no mesmo lugar. Isso tem imensa possibilidade de ser verdade, uma vez que foram os romanos que inventaram o vaso sanitário, público e aberto, onde dizem que muitas das mais importantes decisões do senado romano foram tomadas (será que foi na privada que planejaram o assassinato do grande Júlio Cesar? De qualquer forma, a merda foi grande...rs..). Anyway, não há como negar que a importância e a influência dos romanos na civilização da Europa, romanos estes influenciados pelos gregos que, por sua vez, foram extremamente influenciados pelos egípcios, outra das maiores civilizações de todos os tempos. O fato é que, colonialismo ou não - e aqui faço uma pausa para lembrar que a humanidade nunca foi perfeita, suas sociedades sempre tiveram, têm e terão aspectos repugnantes e pecados a serem corrigidos e que, para quem acredita em Deus, só poderão ser resolvidos pela ação divina, uma vez que somos serezinhos extremamente complicados, fracos e relutantes à mudanças e a abrir mão da satisfação imediata de nossos desejos- algumas culturas acabam dominando outras, muito mais do que por uma questão bélica, por uma questão de evolução mesmo.

            Gosto sempre de exemplificar isso falando sobre a colonização do México. Para começar, diferente de nós, o México nunca foi uma colônia. Quando Cortéz chegou naquela região, não achou ali um punhado de índios ingênuos como os guaranis, Montezuma tinha um império consolidado, tão bem estruturado e complexo que a única comparação possível a ser feita é com as cidades-estado gregas. Os soldados de Montezuma eram, por exemplo, os guerreiros aguila, cuja seleção dependia que o candidato perseguisse e caçasse, sem o uso de armas, uma águia. Não sei quanto a você, mas quando vi um gavião do rabo branco descendo o canion Malacara, no parque Aparados da Serra/ Serra Geral, com suas asas abertas, cuja envergadura chega a 4 metros, meu coração quase sai pela boca, era a sombra perfeita de um dragão cobrindo nosso pequeno grupo de exploradores. Além desses, também existiam os guerreiros Guepardos, que para fazerem parte da tropa de elite de Montezuma tinham que perseguir e matar felinos gigantes. Resumo da ópera: Cortéz só venceu Montezuma porque as outras tribos, vassalas do imperador, andavam meio de saco cheio de morrer em sacrifício aos deuses astecas e acabaram se mancomunando com o diplomático espanhol. Acho que até hoje a gente fica em dúvida se era melhor para a América ter ficado com os incas (que escravizavam índios chilenos) ou maias (que escravizavam todos os outros índios da região) ou com os espanhóis (que trouxeram o homem branco, suas doenças e taras para compartilhar). De qualquer forma, até hoje no México, a cultura indígena é fortíssima e mesclada com a espanhola numa proporção tão igualitária que já deu origem a outra coisa. Culturas dominam, são dominadas ou se sobrepõem e isso tem muito a ver com a contribuição que cada uma tem a oferecer para aquele povo e contexto. Romanos civilizaram a Europa de cabo a rabo e quem vê os nórdicos hoje, reconhecidamente incluídos entre os povos mais evoluídos da Terra, imagina se teriam chegado lá sem a influência dos antigos troianos. Moral da história: Quem sabe mais, ensina! Quem sabe menos, aprende!

            Dizem também, os que acreditam na Evolução, que o que fez o homem ter consciência e começar a ‘aprender’ com a experiência foi a enorme cabeça dos Neandertais. Embora na luta pela sobrevivência tenham acabado dando espaço ao Sapiens, foi a sua imensa capacidade de memória que possibilitou que a história de uma geração fosse armazenada e compartilhada com a seguinte, de maneira que, cada tentativa e erro de uma geração, resultava em conhecimento adquirido para a seguinte e assim seguimos crescendo, errando, acertando e aprendendo. Evoluímos como espécie e como sociedade. Coisas como escravidão, que hoje de forma quase unânime (infelizmente ainda existem exceções) é considerada imoral e hedionda, até poucos séculos atrás eram parte comum da vida da maioria das pessoas. Era quase ‘lugar-comum’ que todo povo vencido na guerra viraria escravo, era direito do vencedor, seu despojo. Isso está até em relato bíblico. Logo, tendo em vista o lugar de onde viemos, vínhamos evoluindo bem, principalmente pela nossa capacidade de ouvir o mais velho e refletir sobre o que ele trazia, aprendendo com a experiência dele e produzindo, a partir disso, novas informações.

            Não sei se já notou como os velhinhos tem péssima memória de curto prazo em relação à absurda capacidade de detalhes, datas, nomes, lugares, roupas, sentimentos, pensamentos, diálogos e toda sorte de elementos que se recordam sobre qualquer evento de seu passado remoto. O octagenário pode não lembrar o que comeu há 15 minutos, mas alguns serão capazes de narrar com certeza todos os detalhes da Ceia de Natal de 1946, quando acabava a Segunda Guerra Mundial. Essa peculiaridade do idoso é um fator evolutivo da nossa espécie. A função do velho é contar ao jovem sua história, a história de sua família, de seu bairro, de sua cidade, de tudo aquilo que ele testemunhou, para que o jovem vire adulto com todas as informações que precisa para tocar a vida. As culturas orientais sabem bem disso. Eles não costumam discutir com o que faz sentido. Oriental não dá para ‘rebelde sem causa’ como nós, ocidentais, às vezes nos tornamos. Eles sabem da importância do ensinamento do velho e o respeitam. Esse ancião tem lugar de privilégio na mesa das famílias, seus filhos cuidam dele até sua morte, é honrado e ouvido (ouvidos de verdade, não só para cumprir tabela) e mesmo se doente e senil, é cuidado e reverenciado com afeto. Por aqui a gente tira sarro do idoso quando não concorda com ele, muitas vezes sequer os toleramos em casa e os trancamos em asilos, onde morrem sozinhos, contando suas histórias para completos estranhos, porque não podem parar a função que a natureza lhes deu.

De tanto minar a contribuição do idoso, acabamos por dar um tiro em nosso próprio pé. As crianças de hoje, desacostumadas a respeitar os mais velhos, a começar dos próprios pais (geralmente culpados demais pelo egoísmo que os levou a destruir a família de seus filhos), perderam a capacidade de ouvir o que o mais experiente tem a ensinar. Tratam pais e professores como lixo, não os consideram e não levam a sério suas recomendações. É mais ou menos como jogar fora o manual de instruções de um foguete e sair para o espaço com ele!
Uma das professoras lá da escola, cansada de fazer de tudo para que os alunos realmente aprendessem, fez um teste simples com uma classe, explicou um assunto por no máximo 5 minutos e a seguir começou a pedir que eles fossem à frente e repetissem o que ela tinha dito - nenhum conseguiu. As crianças de hoje NÃO OUVEM MAIS OS ADULTOS. Existem salas, especialmente dos menores, em que tenho a nítida impressão de que eles sequer falam a mesma língua que eu. Desde a orientação mais simples, como: ‘Não se pendure na grade porque você vai cair!’ até a explicação de um assunto mais complexo, o fenômeno identificado diariamente é uma inabilidade total de OUVIR.

O resultado disso, na vida da criança, é um total desgoverno. Como não identificam no adulto uma referência segura, ficam à própria sorte. É comprovado na Psicologia que criança sem limite apresenta os mesmos sintomas e comportamentos de uma criança abandonada. Para o psiquismo da criança, a informação é a mesma, a saber, ‘não existe alguém que cuida de mim, que se importa com a minha vida, que vai me proteger da minha impulsividade e da minha falta de experiência sobre a vida. Estou sozinho, logo ninguém me ama!’ Uma criança obrigada a cuidar de si mesma sofre uma pressão enorme, esse ‘empoderamento’ assusta de tal forma que não sobra energia psíquica para mais nada. A criança vai apresentar problemas de aprendizagem, com raras exceções (e como dizia meu professor de matemática, a exceção só serve para comprovar a regra), vai abominar tudo que envolve disciplina e organização, vai ser agressiva, vai ter problemas de socialização. É um bichinho desorientado jogado para os lobos! (E vejo tantos assim, todos os dias...)

É OBRIGAÇÃO DO ADULTO SER O CIVILIZADOR DA CRIANÇA. Não porque ele tem mais valor ou direitos que ela, mas porque é seu dever, sua responsabilidade para com ela! Não educar é mau trato! Não educar é abuso! E aqui uso educar no sentido amplo, que vai desde ensinar as palavras mágicas que nos permitem uma vida razoavelmente segura em sociedade (Desculpe, Por Favor, Com licença e Obrigada) até ensinar o conteúdo programático que você, professor (a), se comprometeu a ensinar quando assumiu sua sala. Crianças não vão aprender Gramática ou Operações Matemáticas olhando a lua, pelo menos não a maioria! E elas precisam desse conteúdo para viver no mundo.

Hoje enquanto olhava as crianças brincando no pátio, tentei lembrar das brincadeiras que eu fazia quando criança, que meus sobrinhos faziam e me dei conta de que a brincadeira da criança de hoje é paupérrima em simbolização. Basicamente tem sido composta por uma correria despropositada, cheia de gritaria e agressividade, sem imaginação, sem regras, sem jogos, NADA. Lembrei de O Brincar e a Realidade do Winnicott e fiquei duplamente preocupada. Para onde vamos com isso, minha gente? Precisamos intervir, precisamos ensinar essa geração a brincar, a criar, a imaginar, para que desenvolvam habilidades psíquicas próprias de um ser humano saudável. É urgente!

Dentre todas as coisas que meus pais me ensinaram, (e foram muitas, meus pais realmente se comprometeram comigo e me amaram), acho que algumas me marcaram mais que outras. Lembro, por exemplo, que minha mãe passou minha infância inteira me repreendendo cada vez que eu falava da vida de alguém, ela insistia que a vida dos outros não era assunto para conversa e que aquilo que a gente diz sobre as pessoas (especialmente quando é mentira) pode destruir a vida delas. Até hoje eu abomino fofocas e desprezo gente que faz disso o sentido da vida! Outra coisa interessante me volta à mente numa frase dela: Filha, pensa comigo, se todo mundo ao seu redor está dizendo que você está errada, você precisa, pelo menos, refletir sobre essa possibilidade! (Ok, que quase sempre estou certa...kkkkk..) Lembro dela me arrumando para ir à igreja com a minha melhor roupa, sempre limpa, linda e penteada, me ensinando que existe uma forma adequada de se apresentar em cada ocasião. São tantas pequenas e grandes coisas que aprendi com meus pais, tios e avós e que fazem de mim a pessoa que sou hoje, a professora que me tornei, a mulher que eu sou, a amiga, a irmã, a tia...E se não houvesse essas pessoas na minha vida? Obviamente que ninguém é perfeito, mas eu tenho a total certeza que minha família fez por mim aquilo de melhor que podia! A educação que me deram me fez chegar aonde cheguei - uma mulher adulta, viva e digna - isso já é mais do que muita gente consegue ser. Toda criança merece um adulto que lute para que ela seja o melhor que puder ser - um campeão, uma amazona, um guerreiro (a) que não desista dela enquanto ela não chegar a ser o que pode ser. Toda criança que nasce nesse mundo, não importa de onde venha, tem esse direito! E é seu e meu dever, cada um dentro de sua esfera de atuação, ser esse campeão.

Acabei de assistir um vídeo ridículo de um grupo que se autodenomina ‘putinhas aborteiras”. Fiquei imaginando minhas avós vendo esse vídeo. Ainda bem que uma já foi para lugar melhor e a outra não usa (e detesta) a Internet, porque acho que elas se sentiriam imensamente envergonhadas! Duas mulheres que lutaram lado a lado com seus maridos, trabalhando fora e dentro de casa, mulheres decentes e de bem, inteligentes e fortes, que NUNCA, JAMAIS, iriam gostar de ver suas filhas, netas e bisnetas se comportando daquele jeito. 

Ouçamos nossos avós, ouçamos nossos pais, se não mais por aqui, ao menos in memorian. Paremos de agir como crianças mimadas e perdidas que não sabem ouvir. Assumamos nossos erros. Corrijamos esses erros. Tudo isso para que possamos correr atrás do prejuízo e falar com nossas crianças, ensiná-las, lutar por elas! Precisamos fazer com que elas nos ouçam ou viveremos para ser um reality show do The Walking Dead e estaremos muito velhos para correr de zumbis...#ficaadica


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