quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ameaças de Morte




Terremotos, enchentes, pobreza, câncer - somos fortes o suficiente para suportar tudo isso. Mas o mal humano adiciona uma dimensão totalmente nova de sofrimento ao mundo. É por essa razão que o surgimento da autoconsciência e sua consequente percepção de mortalidade e conhecimento do Bem e do Mal são apresentados nos primeiros capítulos do Gênesis (e na vasta tradição que os cerca) como um cataclismo de magnitude cósmica. A malevolência humana consciente pode quebrar o espírito que até mesmo a tragédia não consegue abalar. (...) o mal voluntário que fazemos uns aos outros pode ser profunda e permanentemente prejudicial mesmo para os fortes. (...) A vida é, realmente, ‘sórdida, brutal e curta’, como o filósofo inglês Thomas Hobbes tão memoravelmente observou. Mas a capacidade do homem para o mal a piora. (Jordan B. Peterson, 2018, p.185-186)


Foram duas.

Uma de um menino negro de 11 anos do 5º.ano A.

Outra de um rapaz branco, repetente no 2º.ano Médio noturno.

A primeira foi violenta, impulsiva e direta, mas facilmente contornada, até porque feita por uma criança.

A segunda foi sutil, premeditada, covarde e maliciosa e se não fosse a Providência Divina poderia ter tido consequências muito piores.

Fiz questão de destacar a cor de pele desses garotos, não porque isso seja particularmente importante para mim, mas para mostrar que violência, desestrutura social e familiar e pobreza não tem cor no Brasil. Pelo menos não na periferia de São Paulo.

P era um menino muito pobre, alto para a idade, mas muito magro, sempre de bermuda e chinelo de dedo mesmo em dia frio. Como ‘desgraça pouca é bobagem’, P era também cego de um olho. Depois do ocorrido, quando passei a investigar sua condição de vida, descobri que ficou cego devido a um tijolo, lançado em seu rosto pela própria irmã mais velha num momento de fúria. Não frequentava a escola de forma muito assídua, mas sempre que vinha todos já sabíamos que a tarde seria complicada. Pertencia a uma família enorme, com irmãos e meio irmãos de muitas mães e pais diferentes, seu pai estava preso e a mãe, que raramente comparecia às convocações da escola, era viciada em drogas. O ‘santo’ de P não bateu com o meu desde a primeira vez em que nos encontramos.

Aquilo que chamo de ‘meu estilo pedagógico’ parte sempre de um período inicial de organização da sala e dos alunos para que juntos possamos desenvolver uma atividade humanamente compreensível. Nunca estudei Pedagogia e nem pretendo, acho uma chatice e até hoje não conversei com um pedagogo ou pedagoga que não diga ou demonstre por sua incompetência ou demagogia que só aprendeu teorias banais e impraticáveis, com exceção talvez da Montessori e alguns pontos do Piaget. Acho também que a Pedagogia, de forma geral, insiste em não dialogar com a Psicologia e a Neurociência e propostas absurdas, como a ‘não-alfabetização’ de crianças até 8 anos, simplesmente ignoram uma infinidade de pesquisas científicas que destacam a imensa habilidade linguística das crianças a partir de 3 anos de idade. Também acho completamente PSICOTIZANTE uma educação que não priorize limites e regras básicas de convivência em sociedade. Sendo assim, primeiro eu estruturo e organizo, depois, quando estão prontos para isso, invisto em liberdade e individualidade. JAMAIS O CONTRÁRIO! Afinal, como aprendi com uma excelente professora de Artes na minha primeira escola municipal (Dri, é vc mesmo, linda!), não tem como ensinar a desconstruir se você não ensinou primeiro a construir.

Sendo assim, P, que vivia num universo familiar caótico e violento, reagia de imediato a qualquer tentativa minha de estabelecer ordem em sua sala.

Foram várias tardes difíceis e exaustivas, tanto para ele quanto para mim, mas geralmente, lá pelas tantas, acabávamos chegando a algum tipo de acordo.

Aqui abro um parêntese para destacar que nenhum professor, a não ser que seja um ‘sociopata’, gosta de ficar dando broncas e sendo chato, bravo e exigente o tempo inteiro. É óbvio que seria muito mais fácil e conveniente (e acreditem, muitos fazem isso e eu já vi) simplesmente sentar na cadeira e deixar o circo pegar fogo! Como todo professor acaba dizendo em algum momento, já somos formados e receberemos aquela aula de qualquer jeito, se o aluno não quiser aprender, o problema é 100% dele. Inúmeras vezes nos sentimos lançando pérolas para porcos, principalmente quando você descobre que o sujeitinho está de fone de ouvido, ouvindo ‘funk putaria’ e rindo da sua cara enquanto você explica o conteúdo, mas na real, a maioria de nós não consegue apenas abstrair e tocar o barco até o sinal bater. Algo por dentro nos impulsiona a instar o aluno a se abrir para o aprendizado, ainda que não tenhamos sempre estratégias brilhantes ou sucesso - talvez autoestima, talvez consciência de que esses carinhas sentados de costas fofocando com os amigos serão os próximos eleitores do país, ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, sábios ou ignorantes, sejam quem forem, serão os responsáveis por aquilo que eu e você viveremos no futuro. Isso assusta bastante e nos faz mais conscientes de nossa imensa responsabilidade com essa ‘ alma perdida’...rs..

Naquela tarde em especial, P mostrava-se mais agitado que o normal. Estávamos no final do verão e o sol entrava pela janela sem dó ou piedade, dando de cara com as ‘menininhas de rosa’[1] da classe, que se abanavam, dizendo estar passando mal. P começou então a subir nas carteiras e empurrar as cortinas para cima do varão, tornando impossível que alguém pegasse as cortinas sem subir nas carteiras e deixando o sol entrar de vez pela sala, aumentando a temperatura e o mal estar de todos uns 200%. A indignação das outras crianças foi tanta que eu sequer conseguia chegar até onde ele estava para fazer com que soltasse as cortinas e descesse de cima da carteira. Depois de várias solicitações em vão, falei que chamaria sua mãe e me dirigi para a porta. Em poucos segundos ouvi um estrondo e uma gritaria atrás de mim. Quando me virei, P tinha descido, arrancado o tampo da carteira com as próprias mãos e estava vindo com ele em minha direção, gritando vários palavrões, dizendo que ninguém xingaria sua mãe e que eu iria acordar com a boca cheia de formigas. 

O barulho foi tamanho que a inspetora entrou correndo na sala. Ela e mais 2 alunos seguraram os braços de P que espumava pela boca e tinha uma força absurda para um menino de sua idade. Depois de terem conseguido desarmá-lo, eu o mandei para a diretoria, mas P sentou-se em cima de uma das meninas e recusou-se a sair. Como não podemos tocar em alunos, nem eu, nem a vice-diretora, nem a própria diretora conseguimos retirá-lo da sala de aula.

Já desorientados diante da impossibilidade de resolver a situação, uma vez que P se recusava a sair e sua mãe não estava sendo encontrada, ficamos mais perplexos ainda quando O, do 5º ano B, famoso por ser filho do chefe do tráfico da região e que, embora tivesse suas próprias demandas comportamentais (como ter seus próprios capangas mirins com quem, no recreio, cobrava ‘pedágio’ de meninos menores, fingindo fumar um lápis branco com a ponta pintada de amarelo para parecer um cigarro), gostava muito de mim, entrou pela sala a dentro, pegou P pelo colarinho e o arrastou até a diretoria dizendo: - Onde já se viu ameaçar professora de morte, moleque! Você vai se ver agora é comigo...

P, que além de cego de um olho, pelo visto também era meio surdo, foi suspenso por vários dias e acabou vindo cada vez menos para a escola. Sua situação familiar precária acabou virando caso de conselho tutelar quando a avó, que apesar da idade avançada, era a única a cuidar dele um pouco, faleceu. Quando passei a dar aulas a noite não soube mais dele. Ficou só o relato dessa experiência bizarra de um dia escaldante num 5º ano maluco.

Isso é outro detalhe da realidade do professor: muitos alunos apenas passam por nós, raramente guardamos deles mais que boas histórias, algum nome ou fisionomia, mas a maioria dos alunos lembrará de seus professores, para o bem ou para o mal. Um professor ruim pode simplesmente destruir para sempre a imagem da escola, do processo ensino-aprendizagem e da própria aquisição de conhecimento na mente de um aluno. E a injustiça está no fato de que a criança pode passar por 10 professores bons, razoáveis ou pelo menos decentes, mas vai ser o ruim que deixará as maiores impressões, SEMPRE.

A primeira vez que vi J, ele estava chorando na porta da secretaria porque tinham roubado seu tênis na rua da escola. Segundo soube, tratava-se de um par de tênis muito caro, chamativo e incoerente não só com o bairro onde a escola se localizava, mas também com a realidade de vida daquele garoto. Ainda assim, apesar das orientações da diretora e do policial da ronda escolar a respeito disso, dois dias depois J estava na escola outra vez, com outro par igualmente caro.

Lembro-me de uma professora comentando, na nossa sala, que a maior parte dos meninos que se envolvem com tráfico de drogas não o fazem para colocar comida em casa ou para lidar com as demandas de pobreza familiar, mas por causa de roupas de marca, da vontade de comprar carros bons e pegar menininhas mais bonitas sem ficar anos trabalhando como camelos para isso. O fato é que do mesmo lugar que eles também saíam os meninos que acordavam cedo para trabalhar, ganhando quase sempre um salário mínimo, chegando cansados e famintos na escola para jantar a merenda e dormir nas aulas, gente honesta, do bem, batalhadora.

Na sala de aula, J era até bastante amigável. Nunca gostei muito dos apelidos que me dava, coisas como ‘filha de açougueiro’ e ‘professora bifinho’ soam particularmente desrespeitosos saindo da boca de meninos maiores do que você, mas, como ele sempre parava quando eu o repreendia, nunca dei maior importância ao caso.

A verdade é que passei a encontrá-lo na rua da minha casa, que não era perto da escola, também na estação do metrô que eu usava e até em algumas esquinas de lugares que eu frequentava nos finais de semana. 

J se mostrava sempre muito surpreso e gentil nesses encontros, me chamava de professora e perguntava brincando se eu o estava seguindo. Nunca mesmo imaginei nada a respeito daquilo. Considerava mera coincidência e seguia meu caminho inocentemente, achando engraçado.

No ano seguinte, quando já nem estava mais lecionando no estado, recebi em casa, da minha mãe, que na época era coordenadora lá, a notícia de que ele tinha sido assassinado, provavelmente em algum acerto de contas do tráfico.

Mal sabia eu que meu choque inicial pela notícia não seria nada perto do que me seria revelado.

Entre lágrimas que revelavam o quanto essa situação a tinha ferido, soubemos que J passou meses chantageando-a.

Segundo minha mãe me contou, J entrou na sala dela uma noite fingindo pedir ajuda para um problema pessoal, fechou a porta atrás de si, fez mil elogios à minha pessoa e à minha beleza, disse que imaginava que eu era uma filha muito querida e especial e após minha mãe confirmar tudo isso, super orgulhosa da filha professora, J começou a dizer que ela não fazia ideia do tipo de gente com quem ele andava, que ele sabia onde eu morava, onde eu estudava, onde eu pegava metrô, onde eu costumava ir para me divertir e que se minha mãe não desse dinheiro a ele e se tentasse avisar a polícia, simplesmente ela não me veria mais.

Não preciso nem dizer o terror a que minha mãe foi submetida nos meses que se seguiram. Minha mãe, que é uma mulher muito inteligente e corajosa, não conseguiu lidar com as evidências de que ele realmente poderia me machucar se quisesse. O garoto começou pedindo pouco dinheiro, mas como viu que ela cedia, passou a pedir cada vez mais. Minha mãe conta que o cinismo, o bom humor e a capacidade de articulação desse menino durante as ‘negociações’ eram dignas de um psicopata, sua voz a deixava arrepiada da cabeça aos pés. Na época meu pai estava muito doente, com problemas cardíacos e minha mãe teve medo de contar a ele e prejudicá-lo, também não me contou porque sabia que eu ligaria para a polícia e tentaria resolver as coisas de forma direta, que jamais admitiria essa chantagem absurda e ficou apavorada que ele tivesse cúmplices e a coisa realmente acabasse em tragédia.

Só sei que após alguns meses de chantagem e extorsão que prejudicaram infinitamente a vida financeira da minha mãe, que obviamente não é rica, o indivíduo foi assassinado e, seguramente, deve ter sido a primeira vez na vida que minha mãe sentiu alívio pela morte de outro ser humano. E pensar que se tratava apenas de um garoto! Lembro dele com tristeza e pesar, mas também com certa gratidão, por tamanho livramento e porque esse caso me fez ficar muito mais atenta e menos inocente na vida e na escola. A maldade está aí, mesmo no coração das crianças, especialmente das que crescem em realidades de violência e privação e não podemos ser tolos diante dessa realidade. Podemos e devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para mudar essas circunstâncias promotoras de violência, mas também podemos e devemos ser inteligentes, responsáveis, nos proteger e nos preservar. Discurso bonito e boa intenção não resolvem anos de deformação de caráter, nem curam psicopatia.

Como bem disse Jesus Cristo, devemos ser simples como as pombas, mas astutos como as serpentes.

Nem sei que tipo de consequências isso teve no emocional da minha mãe, uma das melhores pessoas que conheço e que jamais deveria ter sido submetida a uma situação dessas. Tamanha injustiça só dá para depositar aos pés de Deus e pedir que Ele seja o Vingador, como Ele realmente foi neste caso e pedir que nos proteja de outra situação medonha como essa. Só sei que a escola em que ela trabalha, que inclusive foi roubada alguns finais de semana atrás (levaram praticamente tudo, só deixaram a geladeira, no meio do pátio, porque talvez não coubesse mais nada na perua velha que usaram para o roubo), até hoje não foi considerada perigosa o suficiente para receber ajuda especial do governo do Estado.

Escrevo tudo isso apenas para esclarecer que existem inimigos ainda maiores nos atacando dentro das escolas do que a ignorância, a crise educacional ou a pobreza que assalta boa parte dos alunos de uma escola pública. O Mal, essa presença certa em tudo que envolve a raça humana, é sempre o primeiro a chegar numa escola de manhã, comparecendo assiduamente nas suas mais diversas formas, que vão desde a fofoquinha malvada da sala dos professores contra os novatos ou contra os que causam inveja, por razões reais ou imaginárias, até as atitudes perversas e criminosas propriamente ditas. Uma escola é um ambiente extremamente democrático, no sentido de que ali dentro coexistem todos os tipos de pessoas, das mais diversas origens e formações, isso acontece para o bem e para o mal.

Acredito que todo professor que se preze precisa exercer uma auto-crítica constante que lhe permita neutralizar o máximo possível seu próprio potencial para o Mal. Isso precisa acontecer não só por uma questão moral, mas também porque as crianças aprendem muito mais com nossas atitudes do que com nossas palavras. Um professor que é obcecado por falar sobre bulling e ele mesmo é o maior fofoqueiro e encrenqueiro da escola, prejudicando a reputação de vários colegas, única e exclusivamente por neurose e dificuldades de lidar com seu ego frágil, definitivamente é o maior demagogo que se pode encontrar. Um professor que levanta a bandeira contra o racismo, mas discrimina pessoas simplesmente por terem uma origem e uma opinião diferente da dele é quase um esquizofrênico em sua percepção da realidade e de si mesmo, e por aí vai...



[1] Termo que uso para nomear as garotas de 11 anos típicas, sempre de cabelos muito compridos, penduricalhos de toda ordem, muita maquiagem e ornamentos, delicadas e extremamente femininas, com cadernos lindos e coloridos. Fofas, frágeis e  emotivas o tempo inteiro, ainda brincam de bonecas e coisas de criança, embora possam escrever cartinhas de amor para meninos e brigar por eles...kkkkk..

2 comentários:

  1. Triste realidade a nossa! Como falar de Educação se estamos à sua procura... Como levantar a bandeira em prol de oprimidos se somos, muitas vezes, os opressores? Como? Como?

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  2. Como levantar a bandeira se somos, muitas vezes, os mesmos oprimidos?

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